sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Exclusivo: bandido bom é bandido vivo


POR: Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira

No dia de finados, dia 02, a Folha de São Paulo (aqui) divulgou pesquisa sobre uma frase que já faz parte da cultura tupiniquim (espero sinceramente estar exagerando): “bandido bom é bandido morto”. Já são mais brasileiros adeptos dessa convicção do que os contrários. Sem apreciar aqui os números da pesquisa e nos voltando para o que isso significa, não é para se assustar com o resultado, pois se trata de mais um fio de dessa trama mais complexa de construção e irradiação do social que no Brasil vige.

Como não lembrar das investidas para redução da maioridade penal, da bancada da bala e do fim da presunção de inocência? Tudo faz parte da mesma gramática que impõe uma pauta conservadora e constrói símbolos violentos para gerir a sociedade. Vemos algo, assim, bem tecido, para que o enunciado tenha força real, eficiente, que possa dar espaço para a vingança na contramão do processo civilizatório. Por essa lógica, o bandido, o criminoso deve ser extirpado. Segundo esse modo de pensar quem comete delitos não tem nenhum direito. Esquece quem pensa assim que a pena é um direito de todos, que ela resguarda a vida em todos os sentidos. O rito sumário presente na cabeça das pessoas, longe de trazer segurança, impõe mais insegurança, confere aos que detém o uso da força institucionalizada um perigoso meio contra qualquer um, inclusive contra inocentes, e avaliza a força autoritária por parte do poder estabelecido.

A partir do lugar teológico, desde nossa expertise, notamos que o espectro dessa frase assumida como consenso majoritário deixa nua a hipocrisia de uma sociedade que alimenta valores ditos cristãos. Ao que tudo indica só alguns valores são aceitos e estes não podem ser estendidos ao conjunto da humanidade. Os próximos de muitos “cristãos” são eleitos, destoando com a parábola do bom samaritano, na qual o próximo é o necessitado. O conhecido sermão da Montanha (conhecido como texto máximo da ética cristã) deveria ser rasgado em muito de suas passagens, pois como ser possível virar a face para continuarem nos batendo ou amar aqueles que nos perseguem? Talvez a memória de Jesus mandando Pedro embainhar a espada deva ser esquecido, e o princípio ético que pede outras formas de conter a violência totalmente relativizado, e mesmo desconsiderado. Definitivamente, isso concorre, nesse cristianismo de bondades para os “bons”, para adotar a violência como expediente contra a mesma violência.

“Bandido bom é bandido morto” traz, também, à baila a questão da pena de morte. Doutrinalmente, em âmbito cristão católico, o catecismo reza: “o ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a identidade e a responsabilidade do culpado, o recurso à pena de morte, se essa for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto. Se os meios incruentos bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão mais conformes à dignidade da pessoa humana” (Cat., nº 2267).

Só como último recurso, pensando no contexto geral de defesa da vida, a pena capital é admitida. Só e apenas se não for possível outra forma de controle do agressor contra a vida pública, pela segurança dos inocentes, aceita-se a pena de morte. No mais, só os “meios incruentos” têm conformidade com a dignidade da pessoa humana, não podendo ser alegado pelo Estado, pela sociedade, sobretudo pelos cristãos, a pena de morte como legítima defesa. Tendo o Estado e sociedade forças e meios para barrar o criminoso, usar a pena de morte como forma para conter a violência incorre em ato de vingança, de crueldade e uso desmedido da própria força.

Qualquer cristão podia ainda refletir que “bandido bom é bandido vivo”, pois a vida não rejeitada de quem seja é uma forma radical de demonstrar o amor pregado por Jesus. Nenhum humanismo será maior do que a convicção de que homens e mulheres sempre têm oportunidade de mudar de vida. Nenhum humanismo é maior do que a aposta na conversão do mais pérfido ser humano. Ainda que contra todos os prognósticos e ceticismos, o que mais condiz com o cristão, com o seguidor do galileu é a obstinada fé no ser humano, que passa pela fé no próprio Deus. A fé em Deus não está separada da fé no homem, sendo a primeira fundamento e a segunda consequência. Acreditar no homem orientado para Deus é viver da fé na bondade de Deus que nos soprou no ato da criação o seu Espírito de vida, que impregna o mais profundo do ser criatural da pessoa.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Finados: a certeza da vida

Por: Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira

Ter domínio de alguma certeza é desejo natural do ser humano. Vivemos à cata de certezas. Elas nos tranquilizam, dão a sensação de segurança. Ter certeza é uma maneira mais branda de dizer que temos uma verdade. Daí que nos caminhos tão cheios de certezas que percorremos, por aí se costuma dizer que nossa única certeza é a morte. Todas as outras coisas, então, ficam lançadas no campo das incertezas.

A experiência comum, mais simples, mostra que tudo que tem vida morre. Morre tudo ao nosso redor, não simplesmente nós. Dos inanimados aos animados tudo se desgasta, deixar de ser. Olhar para a vida é olhar para ela passando em sua transitoriedade. No cotidiano, o olhar fixo sobre um corpo inerte traz à tona essa realidade e inculca, por isso, essa convicção. De tal forma isso acontece que, mesmo não pensado a todo instante na morte, descobrimo-nos perecíveis, frágeis e sempre a um passo dessa que seria a nossa verdade mais tangível. Conformados e inconformados, de quando em vez, dizemos para nós mesmo que tudo passa e que um dia não estaremos mais aqui.

Diametralmente em rota de colisão com essa consciência coletiva, o cristianismo afirma o contrário. Em tom firme, Paulo diz que se Cristo não ressuscitou e não ressuscitamos com ele, vã é nossa fé (Vale ler integralmente I Cor 15). Esta certeza para Paulo é carta magna. Sua defesa sobre a ressurreição é categórica e aposta nela como única forma de sentido real, depois de termos abraçado os passos de Jesus, que se revela na sua inteireza e compreensível aos seus discípulos na ressurreição, o que equivale dizer que só na ressurreição podemos compreender o sentido máximo da vida do mestre e também da nossa. A ressurreição para Paulo não é mistério depois da vida do mestre. A ressurreição é o meio pelo qual se interpreta o mistério da vida do mestre. O que estava oculto é desvelado pela ressurreição.

A ressurreição, logo, debela as incertezas que se tinham sobre Jesus. Ela não traz incertezas, as tira. É também o caminho de volta dos discípulos para o mestre. Sem ressurreição sem o fato cristão, o fato Jesus. Tão radical é para os cristãos essa chave para abrir a porta para encontrar Jesus e a vida em plenitude, que mesmo afirmando a ressurreição como centro hermenêutico para acessar o nazareno, o cristão atual médio nem se aproxima da superfície do significado dessa vultosa experiência. Essa desmonta a certeza comum de que a morte é a única certeza. Dizer que a morte é a única certeza é, na ótica cristã, uma forma de guardar uma segurança bastante frágil, que não se confronta com a ressurreição. Certeza por falta de esperança, pela aposta mais fácil na realidade atual como única realidade. O cristianismo, todavia, não entende assim. Percebe nessa certeza o maior medo humano, terror de não ter certeza alguma já que não poderia se agarrar a uma vida após a morte. Portanto, a visão cristã não vê nessa certeza a verdade sobre os desejos do ser humano, mas o afã de querer mais, um mais que está na ressurreição de Cristo.


A vida e não a morte é a certeza cristã. É a ressurreição de Cristo Jesus a base para essa certeza sobre a vida que é transformada. É o choque dado por sua ressurreição nos discípulos que faz todos olharem para sua vida e significados. A celebração de finados, então, é dentro desse viés a celebração da esperança no resgate do ressuscitado e sua promessa de vida para o ser humano. Desta forma é a desconstrução da certeza da morte, pois implode o mascaramento do medo de aceitar as incertezas, as inquietações, as perguntas sobre o viver. Por outro lado, a ressurreição, a vida que continua transformada, lança o desafio da fé, o sossego de balbúrdias interiores que diz que a vida é maior que a vida que toca nossos sentidos.

domingo, 30 de outubro de 2016

Mais um "milagre" do Papa Francisco?


 
Papa Francisco recebe presidência da CNBB
Da esquerda para a direita: Dom Murilo Krieger, vice-presidente;
Dom Sergio (centro), presidente e Dom Leonardo, secretário-geral.
 (20/10/2016) - Fonte: CNBB/CTV
Estou surpreso com uma nota publicada no Facebook da Arquidiocese de Salvador (abaixo). Nela, Dom Murilo Krieger, primaz do Brasil, não somente faz uma defesa contundente do posicionamento vigoroso da CNBB (desta semana) contra a PEC 241 (agora PEC 55, no Senado), como vai além. Diz, por exemplo, que "para o capital mundial, esta PEC é tudo o que ele gostaria de ver aprovado. Os bancos, que já ganharam muito nos últimos anos, vão ganhar ainda mais. Sobrará dinheiro para investirem na imprensa, dizendo que esse sacrifício é mesmo necessário para o bem "do Brasil". 

Dom Murilo pergunta: "Se a PEC 241 é tão boa assim, porque seu conteúdo não foi colocado para a sociedade discutir? Por que foi aprovada pela Câmara Federal tão rapidamente? (Alguém se lembra de outra Proposta de Emenda à Constituição aprovada em tão pouco tempo?...)"

E o arcebispo de Salvador desafia: "chamar de marxista quem pensa diferente de nós é o mesmo que condenar Jesus por ter dito aos apóstolos, diante da fome da multidão: "Dai-lhes vós mesmos de comer!" Se pensar nos pobres e nos que mais serão afetados pela PEC 241 for um gesto marxista, perguntemo-nos: O que fazer com o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja, dele consequente?"

Minha (grata) surpresa é porque o arcebispo de Salvador é considerado um dos prelados mais conservadores da Igreja do Brasil. Recentemente, por exemplo, ele explicitou sua insatisfação com um projeto de reforma política encabeçado pela CNBB e o Movimento de Combate à Corrupção, entre outras entidades. Quando foi nomeado para a primeira arquidiocese do Brasil, em 2011, comentava-se tratar de uma estratégia do Papa Bento XVI para reforçar a ala conservadora no país...

Há um imenso simbolismo num prelado que é primaz, ou seja, o primeiro; da primeira diocese do Brasil, criada em 1551. Francisco, quando foi eleito, disse que era simplesmente o bispo de Roma, o primaz da Igreja. Ser primaz da Igreja no Brasil sempre foi um papel de destaque...

O que teria mudado na cabeça do arcebispo primaz do Brasil? 

Lembro dia 20 de outubro, dom Murilo, juntamente com o presidente da CNBB, Dom Sérgio (recém nomeado cardeal pelo Papa Francisco), e o secretário da entidade, Dom Leonardo, estiveram reunidos com o Papa Francisco, ocasião na qual o pontífice anunciou que não virá ao Brasil no ano de 2017 (foto acima). 

Será que a conversa com o Papa foi importante para um posicionamento mais claro e incisivo da Igreja no Brasil sobre o recrudescimento de medidas governamentais e judiciais que atingirão fundamentalmente a vida dos mais pobres e excluídos da nossa sociedade?

Vale a pena ler a nota na íntegra. E se surpreender, também: 

"O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, scj, em apoio a nota publicada pela CNBB sobre a PEC 241, publicou as seguintes observações:

Quanto às reações à NOTA DA CNBB PEC 241, aprovada pelo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, tenho a dizer o seguinte:

1º - "Um ponto de vista, é a vista de um ponto!" O Conselho Permanente da CNBB emitiu esta Nota consciente de que é preciso alertar a Nação para os males da PEC 241. Procurou colocar-se, pois, do ponto de vista dos mais necessitados e que mais sofrerão suas consequências. Se a PEC 241 é tão boa assim, porque seu conteúdo não foi colocado para a sociedade discutir? Por que foi aprovada pela Câmara Federal tão rapidamente? (Alguém se lembra de outra Proposta de Emenda à Constituição aprovada em tão pouco tempo?...). Afinal, não se trata de uma Proposta qualquer, mas de uma proposta de emenda àquele que é o nosso texto principal: a Constituição.

2º - Com a PEC 241 haverá limites para o investimento em saúde, educação etc., mas não foi colocado limite algum para o pagamento dos juros da dívida pública. Aliás, por que o Governo não faz uma auditoria da dívida pública? Não fazendo, apenas repete o comportamento do Governo anterior que, antes de ser eleito, falou muito da necessidade de fazer essa auditoria; ficou no Governo 14 anos e nada fez. Vamos continuar assim, simplesmente pagando juros?

3º - Para o capital mundial, esta PEC é tudo o que ele gostaria de ver aprovado. Os Bancos, que já ganharam muito nos últimos anos, vão ganhar ainda mais. Sobrará dinheiro para investirem na Imprensa, dizendo que esse sacrifício é mesmo necessário para o bem "do Brasil".

4º - Chamar de marxista quem pensa diferente de nós é o mesmo que condenar Jesus por ter dito aos apóstolos, diante da fome da multidão: "Dai-lhes vós mesmos de comer!" Se pensar nos pobres e nos que mais serão afetados pela PEC 241 for um gesto marxista, perguntemo-nos: O que fazer com o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja, dele consequente?

5º - Cada qual tem direito de pensar diferente; a própria Nota incentiva o diálogo, que não tem havido. Peço apenas, aos que pensam diferente do que está na referida Nota, que a guardem e a releiam daqui a 3 ou 4 anos...
Quem viver, verá.

Em Cristo Jesus,

Dom Murilo S. R. Krieger, scj
Arcebispo de Salvador

Primaz do Brasil

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Numa republiqueta em frangalhos, a esperança que vem dos jovens




Se não fosse trágico, seria cômico. O discurso oficial, velho e apodrecido, das instituições da república e da mídia oligopolizada tenta, a todo custo, propagandear uma pseudonormalidade enquanto o país pega fogo nas múltiplas reações contra um governo que não tem compromisso com o povo e o estado de direito e seus aliados no Congresso e no Judiciário.

Mais de 1100 instituições de ensino ocupadas; greves; uma estrondosa indignação contra os usurpadores nas redes sociais; uma população que se afasta da velha política e não cansa de mandar recados aos sabujos do dinheiro e do poder. E tudo parece normal: a mídia nativa pauta a "torta de berinjela" enquanto "la nave va".

O presidente-usurpador, esse vampiro à brasileira, tripudia dos trabalhadores e do povo, dentro do Palácio do Planalto, para o gozo dos perversos que sustentam a coalização golpista. Como escreveu recentemente o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, “quando autoridades se comportam como moleques, como moleques serão tratadas. Se adotarem discurso e comportamento de botequim, não poderão se queixar quando começarem a voar garrafas e sopapos.” Referia-se aos magistrados prepotentes; mas o recado vale também para presidentes e parlamentares.

Mas, voltemos nossa atenção para o executivo federal: um ajuntamento de interesseiros, com as calças às mãos, borradas, sem saber o que ocorrerá no  day after caso Odebrecht ou Cunha resolvam abrir o bico.

Agora, miremos o Congresso: uma turba, salvo exceções, de bandidos da pior qualidade.

Restaria, então, algum consolo se, pelo menos, tivéssemos um judiciário íntegro. Mas, no que se transformou o STF? Numa corte sem moral; de ególatras que não respeitam a Constituição, nem o Estado de Direito. Um ajuntamento de pedantes que só se preocupam com seus egos e seus umbigos.

O golpe transformou o Brasil numa republiqueta das bananas. Quanto Temer vai ao exterior, é tratado com desdém e todos se afastam do impostor nas fotos oficiais. Uma vergonha monumental. Mas, a maior piada nacional é o mantra midiático-caquético-institucional segundo o qual “as instituições estão funcionando”.

O governo não tem legitimidade; o Parlamento, idem. E, sejamos francos: o Judiciário não pode virar um monstro perverso, maior do que já é. A juristocracia é o pior dos mundos.

Nossa esperança vem da rapaziada que dá uma lições de cidadania, inclusive para os professores: são nas ocupações e nos movimentos sociais onde se aprende o que é política, porque nosso sistema educacional se omite nesse quesito. E é por isso que a direita fascista fala tanto em “escola sem partido”.

Ainda bem que para compensar a musa destrambelhada do impeachment, aquela advogada ensandecida do establishment acadêmico, há muitas Anas Júlias que, enfrentando os velhos políticos incrustados na Assembleia Legislativa do Paraná, a república tirânica de Moro, disse em alto e bom som: É um insulto a nós que estamos lá [nas ocupações das escolas], nos dedicando, procurando motivação todos os dias, a sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes, é um insulto aos professores. A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês. Nós temos que ver tudo o que a mídia nos passa, fazer um processo de compreensão, de seleção, para daí conseguir ver do que a gente vai ser a favor e do que a gente vai ser contra. (...) Vocês estão aqui representando o Estado, e eu convido vocês a olharem a mão de vocês. A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas. Não só do Lucas, mas de todos os adolescentes e estudantes que são vítimas disso.


É do novo, dos jovens politizados – que tanto amedrontam os velhos esquemas institucionais e seus operadores -, que virão as mudanças. 

Quem ainda confia nos caquéticos esquemas político-institucionais está fadado à desesperança.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Ouro de Tolo

A pirotecnia – recurso utilizado em doses cavalares pelas elites, mídia e justiça desde 2014 - não resolve a decadência de um sistema apodrecido. Neste sentido, a mais recente pirotecnia, a prisão de Cunha, funciona como uma espécie de "ouro de tolo": esconde a motivação real, porque, muito provavelmente, será usada como lenitivo à prisão de Lula. Ademais, é uma tentativa de se passar à opinião pública a impressão que o judiciário é isento e isonômico e vivemos na normalidade democrática. Ou seja, trata-se de dar sobrevida a um governo golpista e um projeto de sociedade caquético, podre, elitista e excludente.

Não nos iludamos nas promessas de falsos alquimistas. Após a carta publicada na Folha, nesta segunda, na qual o ex-presidente desafiou o judiciário da casa grande, não sobrou alternativa aos líderes inquisitoriais, muitos deles incrustados na justiça.

E, a pesquisa de intenção de votos colocando Lula na dianteira da disputa em 2018, também divulgada nas redes sociais, prova que, apesar da globo golpista e suas sucursais, o povo não engoliu o enredo golpista. Portanto, resta àqueles que usurpam do poder sufocar qualquer liderança que inviabilize o projeto golpista.

Lula, inteligentemente, mesmo acuado, consolidou com o artigo a narrativa acerca da excepcionalidade e seletividade da sina persecutória e justiceira que abate sobre si.

O ex-presidente argumentou, também, que sua prisão tem como principal objetivo enterrar os desejos e esperanças de um povo; uma nação; um projeto de país mais justo, igualitário e onde caibam todos os brasileiros e brasileiras. Neste ponto, registrou as relações imbricadas da trama golpista, envolvendo as elites (políticas, midiáticas, empresariais e parlamentares), segmentos da justiça e os interesses alienígenas que patrocinaram tal empreitada.

Objetivamente, ao rejeitar qualquer proposta para escapar dos justiceiros, Lula criou as condições para a resistência ao estado de exceção em franca expansão no país.

Para os golpistas resta agora somente o velho recurso da "lei e da ordem".

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O que nos diz o ronco (sufocante) das urnas?


Apurados os votos, é hora de análises. Lembrando que análises são parciais e explicitam o ponto de vista do analista. Portanto, também são eivadas de intenções e intencionalidades. Isenção é conversa para boi dormir. Se existe, deve ser no mundo das ideias, de Platão.

1. O endireitamento da política: por mais paradoxal, o resultado das eleições é o oposto daquilo que os cidadãos mais almejam desde as manifestações de 2013, ou seja, a renovação na política. O Brasil que sai das urnas é um país de direita e conservador. O encolhimento do PT e a pouca, apesar de importante, expressividade dos demais partidos do campo à esquerda mostra que o triunfo momentâneo é do discurso e das práticas conservadores.

1.1. É óbvio que a criminalização da política em geral e do PT, em particular, contribuíram para esse resultado. A Operação Lava-Jato é questionável sob o ponto de vista jurídico, mas eficientíssima sob o ponto de vista política. Em relação à criminalização da política há que se destacar o papel da mídia que, intencionalmente e em doses cavalares, propaga a ideia segundo a qual a política é o espaço da corrupção. Com isso, consegue o afastamento de imenso contingente do eleitorado da disputa, abrindo extenso caminho para que as velhas elites políticas e econômicas possam voar em céu de brigadeiro. A campanha curtíssima e com financiamento limitado favoreceu, mais uma vez, os donos do dinheiro.

1.2. Mas, é preciso reconhecer que o sistema político continuou hermético em relação às demandas por renovação da política institucional. E, certamente, quem mais perdeu com essa postura arrogante foi a esquerda que não se renovou, perdeu parte significativa da classe média e apostou nas mesmas táticas eleitoreiras.

2. A imensidão de votos nulos, brancos e abstenções país afora sinaliza, claramente, o fracasso do atual sistema político. Imagine se o voto fosse facultativo. Candidaturas como a de Bolsonoro estariam viabilizadas nesse contexto, porque os grupos que têm alto poder de vocalização (da classe média) não abrem mão das suas escolhas. Sem uma profunda reforma do sistema político, a fragilíssima e excludente democracia brasileira retrocederá aos patamares pré-Constituição de 1988 em pouquíssimo tempo.

2.1. Os votos nulos, brancos e abstenções devem ser compreendidos também como um desdém do eleitor aos mecanismos institucionais que distorcem e pervertem a vontade popular: historicamente, o chamado coeficiente eleitoral cumpre esse papal, ao priorizar as elites partidárias e os donos do dinheiro que dominam os partidos. E, nos dias atuais, o impeachment sinalizou ao eleitor que o respeito às deliberações populares nem sempre é constitutivo do nosso sistema político. Muitos questionam, com razão: para que votar nessas circunstâncias?

3. Nem toda novidade é nova: candidatos kamikaze como Dória, em São Paulo, e Kalil, em BH mostram que a novidade pode vir travestida do que há de mais conservador e retrógrado. Os discursos apolíticos são altamente políticos. Ademais, observamos também alterações expressivas em algumas câmaras de vereadores com o incremento das bancadas evangélica, policial e de lideranças sociais com trabalho assistencialista. Ou seja, às vezes, a novidade é muito velha.

3.1. Marcelo Freixo, no Rio, não deixa de ser novidade à medida que o PSOL nunca participou ativamente do sistema político tradicional; sempre foi alijado, inclusive por setores da esquerda. Porém, na disputa com o bispo da Universal (que provavelmente aglutinará todo o segmento conservador do Rio) teremos a prova dos noves da força catalisadora em torno da aliança entre os segmentos de esquerda na Cidade Maravilhosa.

4. Os ideais da esquerda são muito maiores que os partidos de esquerda: é preciso registrar que os ideais e os militantes das esquerdas não se enquadram nos partidos que representam esse campo. Portanto, avalio que não há uma derrota das esquerdas, mas uma derrota dos partidos de esquerda. Isso significa que, ou esses partidos se reciclam e voltam às bases ou essa fragmentação e falta de representatividade institucional do campo levará ao recrudescimento da direita. Há que se reconhecer: a direita é muito mais tática e estratégica na disputa pelo poder e conta, sempre, com poderosos aliados no empresariado, na mídia, nos sistemas judicial e policial e na classe média tradicional.

5. A classe média, por mais que a critiquemos, é sempre o fiel da balança nas disputas eleitorais e, mais amplamente, nas disputas pelo poder. Além de (de)formadora da opinião pública, comparece às urnas e têm alto poder de vocalização de suas demandas. Por isso, é tão mimada pela direita tradicional. Qualquer mudança mais substantiva no sistema político (como ocorreu em 2013 com a eleição de Lula) passa pela classe média que se encontra dividida: o segmento tradicional e conservador altamente coeso foi o grande vencedor desse pleito; o segmento progressista encontra-se bastante esfacelado e sem grandes perspectivas. Se os partidos de esquerda pretendem retomar algum protagonismo político há, pelo menos, dois caminhos: refundação e diálogo com os segmentos progressistas da classe média.

6. O Texas à brasileira e as eleições 2018: nessas eleições, todos os caciques políticos - de todos os matizes, inclusos aqueles das grandes plumagens – estavam interessados à disputa que ocorrerá daqui a dois anos. Nesse sentido, o grande vitorioso é Geraldo Alckmin que não somente emplacou um playboy, transformado em mocinho, como também fragilizou por demais o PT em todo o estado, inclusive no seu berço, o ABC paulista. Assim como o Texas é um estado republicano, rico e conservador, nas suas raízes, São Paulo, guardando as devidas proporções, se transforma numa espécie de Texas à brasileira. E aquele que era chamado de “picolé de chuchu” se credencia para disputar, com força, as eleições presidenciais.

6.1. As disputas que se iniciarão dentro do PSDB, por um lado, e da base aliada do governo, por outro, com vistas às eleições de 2018 poderão aprofundar ainda mais o quadro de instabilidade institucional, apesar da aparente normalidade. Se somarmos a insatisfação dos cidadãos – devido ao aprofundamento da crise econômica e o avanço das pautas retrógradas no Congresso -, com eventuais desfechos da operação lava-jato, cada vez mais policialesca e inquisitorial, teremos ingredientes a detonarem uma crise ainda mais severa, com resultados imprevisíveis.

7. Sobre as velhas raposas: excluindo Alckmin, de uma maneira geral as elites partidárias foram solenemente apartadas do protagonismo dessas eleições. Em muitos casos, sequer apareceram nos programas eleitorais dos candidatos de seus partidos. Mas, não nos enganemos: nos bastidores, essas elites continuam dando as cartas e definindo os rumos das agremiações. As raposas sabem que a política de bastidor, em boa medida, define o processo político.



sábado, 24 de setembro de 2016

O golpe das corporações


Infelizmente, parte da inteligência colonizada brasileira não é capaz de perceber que as teorias que têm como fulcro a democracia procedimental não dão conta de explicar certos fenômenos. Por isso, vemos, extasiados, expoentes das ciências sociais afirmarem que não houve golpe “porque as instituições estão funcionando”. Que beleza!

Como já tratamos em outros posts, a extensa coalizão política do golpe é liderada pelos caciques do PMDB e do PSDB. Não sei se nessa ordem. Aliás, na mídia, em 23/09, vimos a seguinte manchete: “PSDB é mais fiel ao governo Temer que PMDB”. Por enquanto, o desmonte das políticas públicas e sociais agrada os neoliberais tucanos, ávidos pelo poder em 2018. Vamos ver até quando esses (ajuntamentos de) interesseiros comerão na mesma panela.

Temos também o núcleo empresarial, encabeçado pela turma do pato amarelo e seus conglomerados associados.

Porém, há outros grupos que têm interesse num estado voltado à manutenção de privilégios de classe e de corporações: amplos segmentos policiais e do campo jurídico. Se voltarmos no tempo, encontraremos esses mesmos segmentos presentes nos bastidores dos golpes da proclamação da república e da ditadura civil-militar.

Já tratamos também desse núcleo da coalizão. Mas, é preciso que analisemos, mesmo que sucintamente, uma complexa engenharia política que engendra enredos jurídicos e institucionais, com o objetivo de reposicionar, contra a democracia, certas corporações estratégicas ao estado de direito.

Denominemos de campo jurídico-institucional. Os líderes desse núcleo (que também pode ser categorizado como uma coalizão - antidemocrática, antinacional e antipopular), são Rodrigo Janot (e segmentos do Ministério Público Federal), delegados da Polícia Federal (com o apoio de milhares de policiais militares e civis país afora), Sérgio Moro (e outros parceiros do Tribunal Regional Federal 4, além dos convictos procuradores ligados à 13ª Vara Federal de Curitiba) e o ministro Gilmar Mendes (o PSDB no Supremo).

Esse grupo é alavancado, apoiado e protegido seletivamente pela mídia: umbilicalmente comprometida com o capital especulativo e rentista e com os segmentos historicamente mais atrasados da nossa sociedade.

A mídia é um outro núcleo da ampla coalizão golpista. O jornalismo, transformado em tribunal inquisitorial (porque condena antes da pronúncia da justiça, ao arrepio da Constituição), produz manchetes bombásticas sobre o que é seletiva e propositadamente escolhido pelo núcleo jurídico. 

Quando, eventualmente, ficam evidentes as denúncias messiânicas, como a performance de Dallagnol, por exemplo, a mídia trata da questão como um mero erro “técnico”.

Para incriminar a esquerda e os movimentos sociais, manchetes bombásticas. Afinal, as eleições serão daqui a alguns dias. Para inocentar a direita, meros erros jurídicos.

Ademais, a grande imprensa esconde propositadamente a justiça de exceção: por exemplo, o TRF4 decidiu, nesta quinta-feira (22/9) que a operação "lava jato" não precisa seguir as regras dos processos comuns. Em outras palavras, às favas o estado de direito: a República de Curitiba está acima da lei.


Não esqueçamos: a lava-jato é uma operação judicial-policial cuja estrela-guia foi treinada nos Estados Unidos e cujo objetivo único, nos últimos tempos, é destruir um símbolo popular e, com isso, pretende-se, acabar de vez com os sonhos “de uma gente que ri, quando deve chorar e não vive, apenas aguenta”.

Essa operação, disfarçada de combate à corrupção, propiciou a assunção de um governo contra o povo: em consórcio com a mídia, a lava-jato pautou, nos últimos meses, a política institucional, principalmente no Congresso, através das manchetes seletivas produzidas todos os finais de semana (pelo núcleo jurídico). Objetivo: desestabilizar o governo que já enfrentava dura crise econômica e apear Dilma do poder a qualquer custo.

Mesmo que os analistas políticos tradicionais não queiram perceber, é evidente que os interesses (ideias/crenças) desses atores políticos articulados numa ampla coalizão de direita perverteram as regras procedimentais da democracia formal e manipularam as instituições republicanas para armar esse golpe, travestido de impeachment.

Enquanto um segmento da justiça parece tão proativo a ponto de suplantar a própria legalidade, observamos o sistema de justiça mais amplo leniente, omisso e cheio de vícios quando se trata de crimes praticados pelas elites tradicionais.

É que, no fundo, a justiça opera, também, para que os seus interesses corporativos prevaleçam sobre os interesses públicos e populares. As negociações para o aumento do Judiciário nos momentos mais nevrálgicos da crise política explicitaram essa faceta do golpe.

Já o núcleo policial, aqui inclusas as forças armadas, atua nos bastidores. Nas propostas de reformas (regressivas e inconstitucionais ) do governo de plantão, nem uma linha acerca de privilégios (trabalhistas, funcionais e previdenciários) desse segmento.

Enquanto isso, as ninfas do Supremo continuam a assistir tudo em berço esplêndido. Um estagiário de direito me perguntou: para que um tribunal constitucional numa terra sem lei? Alguém se habilita a responder?

Enquanto os torquemadas acima-da-lei perseguem uns, inclusive em hospitais (contingência que era respeitada até pela ditadura), nada (nem na mídia, nem nos tribunais, nem nas operações policiais) acerca das delações contra políticos do PSDB; não se sabe o endereço do banido da Câmara e sua esposa; não se fala mais de Daniel Dantas, do Banestado, dos sonegadores do CARF, dos titulares das contas secretas do HSBC na Suíça, da lista de Furnas, etc., etc., etc. E todos dormem na mais tranquila paz. Uma paz dos cemitérios.

Na sociedade civil, parte da classe média tradicional, outro núcleo do golpe, (entre os quais, os batedores de panelas), vomita ódio nas redes sociais e caminha em uníssono com seus negócios cujo único objetivo é eliminar os interesses dos pobres e dos segmentos socialmente vulneráveis. E há quem defenda, inclusive, eliminar os pobres.

E assim, os dias vão se passando em Pindorama: jogo jogado no congresso, na mídia e nos tribunais.


E viva o combate à corrupção! Sem panelas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cidadania nas ruas e nas redes: criminalização da política X eleições 2016


2016

O professor Robson Sávio faz um alerta sobre os riscos do discurso da criminalização da política, pois ele pode gerar um afastamento do eleitor, trazendo prejuízos para cada um de nós. 

Ele destaca que cada eleitor precisa estar atento às trajetórias e propostas dos candidatos aos cargos públicos em 2016, observando, acima de tudo, os tipos de  financiamentos feitos nestas campanhas. "Cidadania não é fácil, demanda compromisso diário. Não só nas escolhas  de bons  candidatos, mas no acompanhamento dos eleitos", afirma. 

Robson Sávio  ressalta que não podemos cair na mentira de que 50% de votos nulos e brancos anularão as eleições. Se um único eleitor votar,  ele decidirá  quem serão os representantes, pois o que conta são os votos válidos, independente do número de votos. 

O professor destaca que ideias erradas assim fazem parte da manobra  para afastar as pessoas das decisões políticas e favorecer que as elites dominantes continuem determinando os rumos da política nacional.

Ouça o áudio, AQUI.

(Fonte: Rádio Sinpro Minas)

domingo, 18 de setembro de 2016

Somos do bem: podemos tudo!

Fonte: Internet

Não há nada mais perverso, doentio e perigoso que a mistura entre radicalismo político e radicalismo religioso. O fanático político-religioso não tem limites; não tem ética; não age com a razão. Age por convicção, ou seja, pela crença pervertida que é um porta-voz do bem ou um discípulo de uma causa transcendental. É convicto que tem uma missão a ser cumprida e sendo superior, porque é um enviado de Deus para extirpar o mal da terra, deve salvar o mundo daqueles "eleitos" como sendo os ímpios.

Os fanáticos político-religiosos se congregam em castas herméticas cujo objetivo é criar mecanismos de autoproteção. Só assim, sentem-se seguros e empoderados para cumprir sua missão redentora. Estão convictos: somos do bem; podemos tudo!

É por isso que o fanático político-religioso tem na pregação e na oratória suas principais armas para arrebanhar adeptos. Utiliza-se da propagação do medo para justificar a consolidação de uma seita baseada em discursos de ódio e de vingança. Lembremos da advogada Janaína e seus espetáculos em nome de um deus que “vai nos salvar": “Se tem alguém fazendo algum tipo de composição nesse processo, é deus", disse ela na defesa do impeachment.

O filósofo e cientista político esloveno Slavoj Žižek nos ajuda a entender esse fenômeno: a unificação de todos os medos (e/ou discursos do medo) numa (falsa) verdade é o grande objetivo que move os ideais dos grupos e líderes fanáticos. Essa estratégia justificou, por exemplo, o nazismo (os nazistas tinham horror dos judeus, dos homossexuais...); e o golpe civil-militar de 1964 (o medo do comunismo). 

 A soma dos muitos medos (os verdadeiros ou aqueles construídos no imaginário social) produz um ambiente propício para se criar um clima de pânico; instalar a desconfiança generalizada; propagandear uma insatisfação irracional, mesmo num espaço institucionalmente normal. A partir daí, podem-se construir as saídas autoritárias e os golpes, através de pseudo-heróis "salvadores da Pátria"; justifica-se o injustificável com argumentos falaciosos, mas aparentemente palatáveis e aceitos pela cultura vingativa que, em alguma medida, nos congrega enquanto herdeiros da tradição cristã ocidental que se contenta, muitas vezes, com a eleição de bodes expiatórios para a superação das nossas mazelas.

A partir da unificação dos medos é fácil propagar o discurso do ódio, da violência e da eliminação a qualquer custo daqueles que encarnam os “males” que devem ser combatidos e extirpados pelos “bons”.

O espetáculo midiático promovido pelo promotor Dallagnol – um fervoroso fiel religioso que prega o combate à (um determinado tipo de) corrupção em templos pelo país afora – mostra que o fanatismo de base política e religiosa contaminou parte dos membros das instituições do sistema de justiça brasileiro. Talvez, por isso, há tantos “homens e mulheres da lei” (advogados, policiais, promotores, juízes) ligados umbilicalmente a certas igrejas e sociedades secretas.

Vários grupos incrustados em segmentos da advocacia, dos ministérios públicos, das instituições policiais e da magistratura têm se comportado como “caçadores de corruptos”, cuja pregação e discursos de base religiosa significam uma ameaça efetiva ao estado democrático e de direito.

Pensam, tacanhamente, que o direito penal, seletivamente aplicado, resolve todos os problemas e mazelas sociais e políticos. Exercem seu ministério com base numa paranoia de acusação sem direito à defesa, facilitando a "perseguição" ou "delação" - ao gosto dos clientes, no caso, da mídia hegemônica, dos políticos tradicionais organicamente corruptos e de segmentos privilegiados da sociedade.

O reducionismo judicial, transformado em ativismo persecutório, tem produzido uma justiça ainda mais seletiva e corroborado um pensamento torto, simplista, odioso e infantil Brasil afora. Esse pensamento espraia-se nas redes sociais, contaminando-as de ódio e caça às bruxas. 

Até a morte de um ator global tem sido atribuída ao PT. São tantas as sandices, as expressões de irracionalidade e mesquinhez – inexplicáveis pela razão – que somente podem ser entendidas, de fato, por convicções de base religiosa. Obviamente, uma religião imatura, infantilizada, persecutória, vingativa.

É preciso lembrar: o Ministério Público, as instituições policiais, inclusive a Polícia Federal, e o Judiciário foram recepcionados pela Constituição Federal de 1988 sem nenhuma prestação de contas de suas ações e omissões durante a ditadura. E mais: esses órgãos foram fortalecidos a partir de 1988, sem nenhum mecanismo efetivo de controle. Milhares de juízes, promotores e policiais, por exemplo, têm vencimentos acima do teto constitucional e isso parece natural e legal. Atualmente, parte dos membros dessas estruturas, povoadas pelos filhos das elites - que buscaram nas carreiras jurídicas do Estado a fonte de privilégios e defesa de interesses de classe -, formam uma espécie de estado paralelo dentro do estado de direito: uma juristocracia.

 A aliança espúria e virulenta entre setores do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário com a imprensa, desde o chamado “Mensalão” e agora na “Operação Lava Jato” - tramando jogadas midiáticas com discursos messiânicos (verdadeiros tribunais inquisitoriais contemporâneos) -, constitui num perigo inominável não somente à ordem democrática, mas também para todos os cidadãos e as demais instituições sociais.

Quando a acusação em doses cavalares e à revelia do devido processo legal é transformada em evidências de culpa, convicção, chantagem e difusão do medo e do ódio, mesmo não havendo investigações suficientes, provas cabais e apresentação do contraditório; quando a justiça não age de forma isonômica; quando o objetivo é destruir carreiras e reputações e promover caça às bruxas flerta-se com um estado totalitário.

Como está cada vez mais evidente e já foi apontado por Jânio de Freitas noutra ocasião, “o que a Lava Jato investiga de fato, por meio de investigações secundárias, não é a corrupção na Petrobras; não é a ação corruptora de empreiteiras; não são casos de lavagem de dinheiro: são os governos do PT”. 

E, dado que a coalizão golpista apeou a presidenta Dilma do poder à força, resta agora, aos torquemadas sacrossantos, a perseguição inquisitorial a Lula (que como já escrevi noutro post, não é nenhum santo). E, na sequência, como sempre prega o impoluto Aécio Neves, a eliminação do PT. Aí, todos os males da face da terra serão expurgados e os homens e mulheres de bem reinarão para sempre. Amém! 

Fábio Konder Comparato escreveu célebre artigo sobre o caráter patrimonialista, elitista, hermético e autoritário do Judiciário brasileiro. Esse poder, desde os seus primórdios, se tornou o menos transparente da República, avesso a investigações de toda ordem, impedindo, desde sempre, que as inúmeras denúncias de corrupção e favorecimento de seus quadros e de elites políticas tradicionais fossem punidas nos limites da lei (veja aqui).

Que fique claro: apesar da podridão do sistema político, os excessos e arroubos autoritários cometidos pelas convicções de juízes, policiais e promotores na Lava Jato fazem com que o primeiro poder a ser questionado, nesse momento, seja justamente o Judiciário.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Entrevista: 'Uma esperança para esperançar-se'

Devemos ir em busca da justiça e da igualdade, nos unindo para fazermos algo diferente.


Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Entrevistamos o Cientista Social e professor da PUC Minas, Robson Sávio Reis Souza, que é coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas (Nesp) e conselheiro titular do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais. Na entrevista, que o doutor em Ciências Sociais nos concedeu por escrito, ele aborda o contexto político no qual vivemos e o papel dos cristãos e cristãs nesse processo.
O país vive um contexto político muito conturbado, em que as instituições estão fragilizadas e a democracia golpeada. Qual o lugar da esperança, para aqueles que buscam mais justiça social e igualdade?
Há que se pensar em várias dimensões. Numa perspectiva individual, e não individualista, a questão é: o que cada um de nós pode fazer para mudar essa realidade? Se não é possível uma transformação estrutural, há sempre a possibilidade de transformar os espaços onde atuamos. Numa dimensão social e comunitária, como se articular a outros atores sociais que lutam pela justiça e pela igualdade? No plano religioso, é preciso superar o discurso sacrificial, que nos coloca no lugar da vítima sempre incapaz de reagir; passiva e amedrontada à espera do algoz. Também no plano religioso, esse conformismo cínico com realidades tão perversas precisa ser superado: um país onde quase 60 mil pessoas são mortas por ano, em sua maioria jovens, negros e pobres; onde milhares de mulheres são estupradas, inclusive no recesso do lar; onde crianças são violentadas no seio das famílias e onde 1% dos ricos têm uma vida abundante às custas de milhões de brasileiros denuncia a baixa incidência do verdadeiro espírito do cristianismo na nossa cultura. A busca pela justiça e pela igualdade não pode ser de uma esperança para esperar. Há que ser de uma esperança para esperançar-se, ou seja, juntar-se com os outros para fazer algo diferente. 
A participação dos cristãos e cristãs em todas as esferas da Política é muito importante, pois nasce de um compromisso evangélico de exercício da cidadania e aponta para a justiça do Reino. Temos acompanhado, no entanto, que a participação de religiosos na política tem se desviado do compromisso genuinamente cristão. Como entender esse processo e quais riscos ele apresenta?
É preciso dizer com franqueza, e com tristeza, que há um certo desprezo do cristianismo e do catolicismo em relação à política como uma das formas mais perfeitas do exercício da caridade, porque busca o bem comum, como disse o Papa Francisco. Ainda temos uma cultura religiosa avessa às práticas voltadas para a construção de uma cidadania efetiva, ou seja, de uma sociedade inclusiva de e para todos e todas. Muitas práticas religiosas favorecem a dissociação entre fé e vida. Por isso, muito devocionismo e pouca preocupação com justiça social. Justiça aparece, na maioria das vezes, como um belo discurso com pouca efetividade. Fala-se muito em “justiça do Reino”, mas do reino futuro. Enquanto isso, a vida em abundância para todos, desejada por Cristo, se transforma numa vida em abundância para alguns. E isso é naturalizado. São minoritários os grupos de cristãos que têm percepção acerca da incidência do Evangelho enquanto imperativo ético à construção da justiça, da igualdade, da fraternidade.  Por outro lado, observamos um péssimo testemunho de muitas lideranças religiosas que vivem na opulência e na ostentação. E, sob o ponto de vista institucional, muitas vezes há um silêncio obsequioso frente a tanta injustiça e opressão.
Estamos em meio a uma campanha política, que culminará na eleição dos prefeitos e vereadores para os municípios. Quais critérios de discernimento os cristãos e cristãs devem assumir nesse momento, inclusive em que muitos candidatos ligados às instituições religiosas estão concorrendo?
As eleições são uma pequena parte de um processo mais amplo que demanda participação constante e qualificada dos cidadãos que desejam a melhoria da política e dos representantes eleitos. Conhecer bem os candidatos e acompanhar os eleitos são passos importantes. Porém, não são suficientes. Num contexto político no qual os princípios básicos da democracia, como o respeito ao resultado das eleições legítimas não é garantido, um grande ceticismo e desdém do eleitorado, nessas eleições, poderão redundar num afastamento da população do debate dos problemas e das soluções para a construção de cidades mais justas, inclusivas, igualitárias, diversas e plurais. Por isso, para além de se envolver no processo eleitoral em curso, é preciso que voltemos toda a nossa atenção para o tema da reforma do sistema político. O sistema político atual é perverso. Privilegia quem tem dinheiro e os caciques partidários, ou seja, o velho coronelismo com novas roupagens que ainda impera no nosso sistema eleitoral. Se não avançarmos numa reforma profunda de todo o sistema político, não há salvação para a nossa democracia. E as eleições vão se transformando, gradativamente, num conto da carochinha. Acreditamos que escolhemos os nossos representantes, pelo simples fato de votarmos, mas, como esse sistema, os escolhidos são aqueles que têm dinheiro ou que dominam as cúpulas partidárias. Não representam de fato o eleitor.
A Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio do Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), promoveu o primeiro debate entre os candidatos à Prefeitura de Belo Horizonte, no mês de agosto. Qual balanço você faz desse primeiro debate entre os candidatos?
Em análise sobre a conjuntura eleitoral de Belo Horizonte, produzida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas e da Arquidiocese (Nesp) constatou-se que o processo político e eleitoral que definiu as candidaturas majoritárias na Capital foi caracterizado pelo personalismo e caciquismo em praticamente todos os partidos; a inexistência generalizada de projetos políticos para a cidade e a região metropolitana; o afastamento da sociedade das discussões partidárias acerca dos problemas da cidade e a incapacidade das lideranças partidárias compreenderem os clamores populares por mudanças na política institucional. Portanto, o processo político, até o momento, repetiu as velhas e caducas formas da política tradicional, demonstrando a pouca porosidade dos partidos e seus líderes no diálogo com a população. Neste contexto, grupos e coletivos de fé e política e movimentos sociais foram convidados pelo Vicariato da Ação Social e Política da Arquidiocese e pelo Nesp a organizarem um encontro, no qual ouvimos e também falamos aos onze candidatos a prefeito da cidade. A principal discussão com os candidatos foi a respeito do tema “direito à cidade”. A cidade é um espaço de e para todos e todas. E o poder público é o grande responsável por fazer dos espaços urbanos locais de encontro, e não locais de exclusão, ratificação de preconceitos ou alienação socioespacial. Há problemas crônicos em Belo Horizonte que afetam desproporcionalmente seus moradores. Às vezes, planeja-se uma cidade a partir da lógica do mercado imobiliário, dos especuladores ou dos interesses dos incluídos. Por isso, no encontro com os candidatos e candidatas pudemos deixar claro que somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.

(Fonte: portal Dom Total) 

sábado, 3 de setembro de 2016

Fatiar o impeachment: o velho pacto das elites


Charge: Neltair Rebés Abreu, o 'Santiago' 
Realmente, o sistema político está apodrecido. E os líderes políticos também.

O processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff foi violentíssimo. Um bando, em sua maioria de corruptos e poderosos, tomou de assalto o poder, pisoteando a Constituição e os princípios mais elementares do jogo democrático: respeito às regras e às deliberações populares.

A coalização golpista, um ajuntamento de interesseiros – que doravante se agafanharão para conseguir seus pleitos no presente e no futuro -, como ocorreu em vários momentos da história nacional (1954 e 1064 estão logo ali), não mediu esforços para alcançar seus objetivos: tirar a fórceps a presidenta, interromper um governo de viés mais popular e tentar, com o golpe e numa só tacada, extirpar o PT. Com a empreitada, objetivou-se também sinalizar à sociedade que os velhos-novos coronéis estão de volta, em nome da “lei e da ordem” (deles).

Mais uma vez o processo político foi determinado pelas nossas elites conservadoras, com forte indistinção entre público e o privado e seu desdém às leis, normas e valores republicanos. Elites que insistem em sustentar um caduco sistema político afastado do povo; uma democracia sem demos.

O modus operandi dessas elites é simples e simplório: como não respeitam as normas, consideram o direito apenas na sua formalidade e não operam para o funcionamento das instituições nos moldes republicanos, sempre lhes cabe determinar os rumos da história. Aos cidadãos restam a dependência aos favores pessoais e às clivagens de classe para o acesso aos bens públicos e aos direitos de cidadania. E ponto.

Porém, é imperioso dizer, esse pensamento não é somente das elites da direita tradicional. Grupos de elite da esquerda agem da mesma forma quando no poder. Pensam que a transformação só se opera pelo pacto entre as elites e conspiram quando há iminência de renovação de baixo para cima; apesar do discurso.

Os protestos de 2013 sinalizaram o movimento de insatisfação geral dos brasileiros em relação a um estado que não opera para realização da cidadania de e para todos e todas. Passado aquele momento, todos os políticos tradicionais, de direita e de esquerda, voltaram para os seus gabinetes. E esqueceram que há uma insatisfação latente da sociedade, não somente no Brasil, com esse modelo que “não nos representa”.

Neste sentido, Dilma deve um mea culpa à sociedade. No segundo governo, talvez meio abandonada pelos comensais do poder, ao invés de uma guinada para aumentar sua base popular, a presidenta foi logo tentar as conciliações por cima, inclusive indicando para ministro da Fazenda um preposto de seus algozes.

Pois bem. Incapazes de absorver essa nova gramática social – um clamor por uma nova política lastreada nas demandas populares -, as esquerdas patinaram desde 2013. E, como na política não há espaço para vácuos, os segmentos de direita que se empoderaram na ocasião, capturando uma parte dos “revoltados” on e off line, articularam a mais ampla coalização da história deste país. E todos vimos o resultado nesse processo fajuto de impeachment, um verdadeiro estupro à democracia.

A população, em 2013, pedia mais estado (mais e melhores políticas públicas) e, paradoxalmente, menos de três anos depois tomou de assalto o poder um grupo que fará o oposto: mais e muito mais para o deus-mercado.

Como a história é movimento e disputa contínuos, o processo de impeachment começou a rearticular amplos e diversificados segmentos sociais e as esquerdas no Brasil. Uma nova potência está em construção. A violência do processo conduzido pelas velhacas elites políticas; suas características machistas, misóginas, elitistas, autoritárias; seus principais atores atolados na corrupção e no discurso vazio do moralismo; a participação escancarada da mídia oligopolizada; o dinheiro sujo das empresas sonegadoras; a ação seletiva de juízes, promotores e policiais agindo num estado paralelo dentro do estado democrático... Tudo isso começou a despertar em setores sociais dos mais distintos uma imensa indignação e repulsa. As ruas voltaram a falar.

A violência da destituição da presidenta e a não menos violenta leniência em relação a políticos como Eduardo Cunha escancararam, interna e externamente, o golpe. Criaram-se condições para que a insatisfação latente da população em relação ao carcomido sistema político voltasse a ocupar o centro do debate.

De repente, nos bastidores, mais uma vez, o pacto entre elites operava silencioso. Setores do PT e aliados, coronéis do velho PMDB e membros do judiciário costuraram um acordo de cavalheiros para minimizar a violência do golpe e aplacar a ira dos cidadãos: a cassação do mandato com a preservação dos direitos políticos da presidenta. O tradicional esquema do bate-e-assopra para manter tudo como sempre esteve.

Esse tipo de acordo enfraquece e impede a transição do Brasil para o moderno. Nossos avanços parecem estar sempre fadados a serem graduais, não violentos, conchavados. É sempre uma modernização conservadora, pactuada nos bastidores; conciliadora. Uma revolução passiva. Um jogo político sempre controlado.

Porém, estou convencido que o momento histórico poderá criar condições para superar essa velha marca do processo de transformação social brasileiro.

A pluralidade e a diversidade que emergiram da sociedade nos últimos anos; o gradual protagonismo dos jovens e das mulheres; os novos atores sociais, com suas clivagens identitárias, étnicas e sexuais - que não aceitam a condição de expectadores dos jogos políticos tradicionais - poderão imprimir uma nova gramática à nossa Nação.

Esses grupos, historicamente invisibilizados e excluídos do processo político, conheceram outro mundo; uma outra forma de se produzir e se reconhecer o mundo.  

Espero que esses grupos estejam dispostos a fazer história. E não aceitar, mais uma vez, que o conchavo das elites impeça os avanços substantivos da nossa sociedade.