segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Extrema direita: pautas moralistas unem religião e militarismo

Em plena pandemia ressurgem fantasmas insepultos, não enfrentados no período pós-ditadura e que habitavam o pântano brasileiro. Há uma profusão de eventos a revelarem que um lodaçal autoritário, moralista e hipócrita sustenta nossa sociedade (estruturalmente injusta, desigual, racista e homofóbica).

Nesse atoleiro, o bolsonarismo tenta avançar e fia-se em dois pilares: a caserna, a garantir o controle das instituições da República, apesar de regurgitações do Congresso e do Supremo e as igrejas, principalmente poderosas agremiações religiosas neopentecostais, a garantirem a base social. E como, ocasionalmente, parte da sociedade está entorpecida por migalhas de auxílios financeiros pandêmicos (que foram direcionados por Paulo Guedes e equipe em doses cavalares aos bancos[1], empresas[2] e setores rentistas - a garantirem o apoio as elites ao governo de plantão), as condições objetivas para o avanço do autoritarismo de viés moralista parecem promissoras, nessa empreitada dos novos cruzados do século XXI.

Surfando nessa onda conservadora e confiando no apoio de instituições religiosas obscurantistas e no autoritarismo de caserna, Bolsonaro e seu grupo palaciano resolveram avançar no charco movediço das chamadas pautas de costumes, conforme revelou reportagem do domingo (13/09) da Folha de S. Paulo[3]. Armamento da população, criminalização da educação, da cultura e da ciência (com incentivo à educação familiar) e a transformação de veículos automotores em armamento para agradar brucutus da classe média são alguns dos projetos que serão tocados no Congresso Nacional. Nada mais belicoso e ultrajante à dignidade humana e, portanto, anticristão.

E por mais paradoxal que isso possa parecer, a base social para esse tipo de empreitada usa da religião. Aliás, o uso da religião tem caracterizado a nova extrema-direita global, como revelou recentemente o vaticanista Iacopo Scaramuzzi em um livro recém-publicado, intitulado “Dio? In fondo a destra – Perché i populismi sfruttano il cristianesimo” (em tradução literal, Deus? No fundo à direita – Porque os populismos desfrutam do cristianismo), cuja capa estampa quatro dos principais expoentes desse fenômeno: Salvini, Trump, Bolsonaro e Putin.

Em entrevista a Lucas Ferraz, no Intercept Brasil em julho deste ano[4], o estudioso do Vaticano argumenta que a exploração do cristianismo, católico e evangélico, tem como objetivo “louvar um passado supostamente glorioso, além de ter um forte apelo a todos aqueles perdidos com as crises econômica, política, cultural, da globalização etc.”. “O fenômeno opera atualmente numa rede global e é um dos pilares de projetos como o de Viktor Orbán e sua democracia cristã iliberal na Hungria, do recém-reeleito Andrzej Duda e sua tradição sacra na Polônia, de Matteo Salvini, que tentou se tornar homem forte do governo da Itália brandindo rosários e falando em nome de Maria, além de ter pavimentado a vitória de Jair Bolsonaro e seu ‘Deus acima de todos’”.

No Brasil, grupos religiosos estão à postos para servirem de escudo à empreita moralista, justamente quando se avizinha o pleito municipal. A estratégia, não por acaso, é que os dois principais grupos que buscam ampliar o sucesso eleitoral (policiais e religiosos), pretendem engrossar ainda mais as bases de cruzados moralistas[5]. Outro não acaso: os dois grupos são as principais bases de apoio do bolsonarismo.

Enquanto isso, Damares, sua equipe e grupos localizados estrategicamente em ministérios como o do meio ambiente, educação e secretaria da cultura já agem há algum tempo arrancando cercas jurídicas e até constitucionais, nas barbas dos “poderes que funcionam”, para a boiada ultraconservadora passar. Vida de gado.

Nos últimos dias, lideranças religiosas alinhadas à teologia da prosperidade (de um deus que abençoa aqueles que gostam e têm dinheiro) e à teologia do domínio (assentada no pressuposto de que o domínio da terra foi usurpado pelo diabo  que, no delírio obscurantista de grupos religiosos, são os comunistas, esquerdistas, socialdemocratas, cientistas, progressistas, feministas, movimento LGBT+ etc.) apareceram com destaque na mídia destilando veneno homofóbico[6], ou seja, usurpando da pauta moral e de costumes para suscitar engajamento e adesão nas redes sociais conservadoras.

Noutra frente de disputas reais e simbólicas persiste a discussão das isenções fiscais a instituições religiosas (apesar do veto presidencial de mentirinha)[7]. O controle público das movimentações financeiras de igrejas é relevante porque muitas das agremiações religiosas se transformaram em verdadeiras lavandeiras financeiras, como afirmou a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz em entrevista à Revista Fórum: “Lavanderias do dinheiro do crime passa por agremiações religiosas. Onde é que você vai lavar o dinheiro do crime, você vai usar as agremiações religiosas porque cada uma delas tem um CNPJ. Então você pode criar uma casa de oração ali na esquina, lavar o dinheiro do crime e com isso também produzir intolerância religiosa, destruição de terreiros nas comunidades populares”, disse a especialista em segurança pública[8]. Isso sem contar a falta de transparência e eventual desvio de recursos financeiros, como denunciou o Ministério Público de Goiás em relação à construção da nova Basílica de Trindade. [9]

Uma reportagem da Agência Pública de agosto de 2020, intitulada “como o crime organizado tem explorado benefícios concedidos a igrejas para operar seus negócios ilegais”, informa que “uma investigação realizada por veículos de comunicação de dez países descobriu que, amparados nas leis de liberdade de culto, algumas igrejas e líderes religiosos nas Américas abusam da confiança de seus fiéis e cometem crimes como lavagem de dinheiro e fraude”.[10]

Não é de se estranhar a notícia do Portal G1, de 12/09, segundo a qual movimentações atípicas realizadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, totalizando quase R$ 6 bilhões[11]. A Universal é uma dessas igrejas que mais ocupam cargos e espaços públicos. Inclusive patrocinou a criação de um partido político, o PRB, que mudou de nome (Republicanos) para surfar na onda da direita e extrema-direita[12].

Noutra reportagem da Agência Pública, comprova-se que uma aliança de Edir Macedo com Bolsonaro envolve presidência da Câmara, cargos no governo e perdão de dívidas às igrejas.[13]

Portanto, as relações entre igrejas, grupos ultraconservadores na política (nos três poderes, diga-se de passagem) e a utilização de dinheiro público e privado (dízimos e outras contribuições) para fins ilícitos é algo que merece toda a atenção.

Por outro lado, alianças entre o neopentecostalismo e o militarismo se dão em outras frentes. Reportagem da Revista Fórum de janeiro de 2020 intitulada “Igreja Universal cria seu exército particular com recrutamento de PMs” apresenta um vídeo institucional da “Universal nas Forças Policiais (UFP)”, braço da igreja de Edir Macedo nas “Forças de Segurança Pública, Forças Armadas e órgãos governamentais”. Segundo o vídeo, a Universal atingiu 983.441 policiais e familiares no ano de 2019, em 73.526 palestras, eventos e cafés realizados, e doado 439.471 “Bíblias e literaturas”.[14]

Esses são alguns dos sinais a demonstrarem que a nova onda de ataques de grupos bolsonaristas, nesse novo front de batalha, não se dará contra o Supremo ou o Congresso, mas contra os poucos avanços no campo de direitos dos chamados grupos minoritários (mulheres, negros, gênero), advindos com a Constituição Federal de 1988. Em artigo de maio deste ano intitulado “armar o país: a guerra santa bolsonarista” já prevíamos essa batalha político-religiosa. E a bancada BBB (bala, bíblia, boi) que não é nova (e conta com o apoio do “Novo”), parece oferecer o armamento de ocasião ao bolsonarismo.

O amálgama entre ultraconservadorismo religioso e militarismo autoritário merece atenção nessa quadra da nossa história.

Portanto, os democratas precisam olhar com bastante atenção para essa coalizão que une algumas igrejas e setores militares (ressalvando que há militares e igrejas democratas e republicanos) e, em muitas ocasiões, se associa às milícias, a revelar um perigoso pântano para o pouco que resta de democracia e a recordar tempos pouco memoráveis já vividos pela sociedade brasileira num passado recente.

 



terça-feira, 1 de setembro de 2020

Fascismo galopante: Bolsonaro é bode que repele e agrada

Observando o cenário sociopolítico e religioso no Brasil, nos últimos tempos, deparamos frontalmente com fatos que demonstram a urgência de se questionar o modelo que articula visceralmente o capitalismo (poder econômico) e uma democracia iliberal (poder político) com uma sociedade patriarcal-cristã-elitista.

No campo político-institucional, um governo militar-miliciano coligado com o que há de pior dos setores do cristianismo, empresariado, agronegócio e rentismo. Impulsionado por usurpadores de bens públicos e arrombadores, sem escrúpulos, das cercas e porteiras da Constituição e das leis, com forte apoio em segmentos moralistas e de mentalidade escravocrata da classe média privilegiada, em lideranças e instituições religiosas que depõem contra a ética cristã, em corporações judiciárias e outras semi-castas (profissionais liberais que se julgam elite), a coalizão no poder central soma-se ao fenômeno global da rearticulação da extrema-direita que, como uma ideologia autoritária sempre à espreita, ganha fôlego toda vez que são acentuadas as tensões e fragilidades sociais, notadamente num contexto de crise estrutural do capitalismo. 

Como analisa Robert Kurz, a direita radical é filha legítima da democracia, porque “toda democracia produz como reação imanente ao fim do processo de modernização, com regularidade lógica, o novo radicalismo de direita em qualquer de suas variações”. (A democracia devora seus filhos. Robert Kurz. Rio de Janeiro: Editora Consequência, 2020, 172 pp). Assim, o extremismo de direita no centro do capitalismo, neste momento histórico, corresponde ao aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, sendo o novo radicalismo de direita filho legítimo da democracia de mercado, não uma excrescência.

Portanto, para além das questões conjunturais, trata-se de um processo histórico que se agudiza em sociedades periféricas marcadas por desigualdades e violências estruturais sempre maquiadas, naturalizadas e ratificadas pelas elites e setores conservadores da sociedade (como é o caso do Brasil).

É preciso superar o velho maniqueísmo que opõe o bem versus o mal e elege bodes expiatórios para purgar fenômenos sistêmicos, ao invés de enfrentá-los. Assim, Bolsonaro, em certa medida, não passa de um “bode malcheiroso na sala” que por um lado aponta à podridão de estruturas carcomidas por vícios históricos tolerados e compartilhados socialmente e que, mesmo assim, a exalar o odor putrefato, continua a mobilizar vários setores da sociedade, da política e da religião a comprovar que o “bode” não está sozinho. Ele, simplesmente, é o amálgama do velho (travestido de novo) que insiste em não morrer. Ou seja, Bolsonaro encarna o que parte significativa da sociedade, da política, da religião e da cultura sempre foi e continua sendo. Autoritarismo, racismo, misoginia, violência, vingança estão no ethos da nossa cultura; de todos os segmentos e classes. E esse é o monstro a ser enfrentado.

Isto posto, poderíamos apresentar, e não o faremos, um rosário de perguntas acerca dos limites do nosso modelo de sociedade, democracia, cultura política e religiosa.

Cidadãos e instituições poderiam fazer um esforço e pensar sobre isso...

sábado, 27 de junho de 2020

Acordão no horizonte sinaliza nova tentativa de pacto entre elites


Não é a primeira vez que isso ocorre nos últimos meses. Basta ler os editorais dos jornalões (dos barões da mídia), observar as análises econômicas de banqueiros e rentistas, acompanhar as manifestações de empresários (muitos de mentalidade escravocrata), verificar as manobras dúbias de coronéis da política e do judiciário para se levantar uma hipótese: parece que se costura, ou se tenta costurar, um grande acordão, com o Supremo com tudo, para -- fazendo vistas grossas aos muitos absurdos, crimes, violência à democracia e suas instituições protagonizados por Bolsonaro -- manter o bode malcheiroso na sala.

Para os segmentos elitistas da sociedade brasileira (e seus líderes) tudo pode ser relativizado, inclusive a civilidade, desde que o projeto neoliberal, conservador e excludente não seja ameaçado.
Discursos limpinhos e cheirosos, decantados em prosa e verso, sobre o “valor da democracia”, a “defesa da vida”, a “importância de se respeitar a Constituição” são como palavras ao vento para os tradicionais defensores de uma democracia de baixíssima intensidade, geradora de exclusão e garantidora de benesses. Tais slogans agradam a todos, gregos e troianos e interessam profundamente o 1% (os ricos) e os 30% da classe média (privilegiada) que, majoritariamente, desejam manter o Brasil na sua histórica posição entre os líderes mundiais de privilégios (para esses) e de desigualdade, violência e exclusão para os outros 70% da população. O que vale é uma democracia formal. Nunca, uma democracia real; substantiva.

Há que se perguntar aos arautos da “pátria mãe gentil” que aparecem nesses tempos sombrios: democracia para quem? Vida para quem? Liberdade para quem? Constituição para quem? Direitos ou privilégios?

Para os velhos e novos privilegiados do Brasil, que controlam “com lei e ordem”, ou “ordem e progresso” -- para agradar os positivistas --, um modelo de sociedade estruturada na violência, no racismo, na segregação socio-econômica-étnico-espacial, subserviente aos interesses de fora (primeiro da Europa, depois dos Estados Unidos da América), o importante é que Bolsonaro “se comporte” para atender aos seus interesses. E não atrapalhe Guedes e sua tropa neoliberal e rentista -- prepostos dos verdadeiros donos do poder.

Não interessa ao grupo do 1% e dos privilegiados:

- Se milhares de brasileiros, a maioria pobre e preta, morrerá na pandemia vítimas da incúria do governo central e sua tropa negacionista;

- Se populações indígenas estão sendo, mais uma vez, vítimas de genocídio -- com as vistas grossas desse mesmo governo;

- Se o povo é tratado como massa de manobra para atender aos interesses mais escusos das máfias e milícias incrustradas nos poderes econômico e político (e também religioso), com a complacência do governo;

- Se o estado está sendo militarizado para agradar os velhos intentos corporativos dos pretorianos das elites;

- Se no plano internacional o país se torna um pária, ignorado e gradativamente excluído, simbólica e objetivamente, no concerto das nações;

- Se o que resta do nossa soberania e meio-ambiente são negociados com quem der mais, de portas abertas para a boiada passar;

- Se o moralismo religioso (dos sepulcros caiados, obscurantistas e fundamentalistas) se impõe como política pública, estuprando o estado laico;

- Se o sistema de justiça continua um dos mais seletivos, elitistas e vingativos do planeta;

- Se o desmonte do Estado -- com a dilapidação de suas riquezas e patrimônio e a destruição das políticas públicas e sociais -- levará o país a bancarrota em pouco tempo...

Interessa para esses grupos de privilegiados a defesa de um modelo de sociedade que mantenha os lugares sociais historicamente pré-determinados (dos pobres, pretos, vulneráveis; enfim, dos descartáveis). E que a apropriação dos bens públicos, a expropriação das riquezas nacionais e a exploração do trabalho continuem monopólios garantidos às famílias dos coronéis de sempre.

O discurso de defesa da democracia e da Constituição, entre outros, muitas vezes é usado como um artigo de perfumaria, manobrado estrategicamente por esses privilegiados quando percebem que seus interesses estão ameaçados.

Mais uma vez, parece se construir um pacto entre elites, inclusive com alguns dos burocratizados setores das esquerdas. Um acordão que vira as costas para o povo, a soberania nacional, a possibilidade de construção de um país onde caibam todas e todos, mantendo-se um governo claramente neofascista.

Se não é possível disfarçar o malcheiroso bode que esses setores colocaram na sala, nem com colossal quantidade de perfume importado, parece que se pactuará para que o bode continue, desde que não estrague os planos dos capitães do mato de sempre.

Amém!

terça-feira, 16 de junho de 2020

AUTORITARISMO E OBSCURANTISMO: A POLÍTICA DO GOVERNO BOLSONARO



A decisão de excluir dados sobre violência policial de relatório sobre violação de direitos humanos é mais um capítulo da inclinação antidemocrática da atual gestão federal


Causou perplexidade à sociedade brasileira a decisão do governo Bolsonaro de excluir a violência policial do balanço anual sobre violações de direitos humanos no Brasil, divulgado anualmente no relatório do Disque 100 (o disque direitos humanos). Apesar de uma nota ambígua do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos negar que esconde tais dados, o fato concreto é que o relatório omitiu por completo as informações sobre violência policial.

Como se sabe, o Brasil é um dos campeões mundiais em violência e letalidade policial. Segundo o Monitor da Violência, elaborado em parceria pelo site G1, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Núcleo de Estudos da Violência da Universiadde de São Paulo, pelo menos 5.804 pessoas foram mortas por policiais em 2019. No Rio de Janeiro, segundo o Observatório da Segurança, ligado ao Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a letalidade da polícia fluminense aumentou 92% em 2019 em relação a 2018.

O relatório “Direitos Humanos nas Américas: retrospectiva 2019”, da Anistia Internacional, não deixa dúvidas: “as autoridades federais e estatais adotaram um discurso de linha dura que alimentava a crescente violência contra a população em geral e contra as pessoas defensoras dos direitos humanos em particular” (p. 24); “o ano também foi cenário de um aumento do número de homicídios cometidos por polícias em serviço ativo.” (p.22).

No momento em que se discute globalmente a violência policial, depois do covarde assassinato de George Floyd nos Estados Unidos – que desmascarou a truculência e o racismo de departamentos de polícias naquele país --, o governo brasileiro opta por políticas de maquiagem e sonegação de dados justamente de um segmento estatal que, histórica e sistematicamente, dificulta a transparência das informações, obstaculizando o acesso a dados de interesse público que são fundamentais para a gestão estatal da segurança pública, além de corroborarem as legítimas demandas sociais por políticas correcionais, de aperfeiçoamento e de controle da atividade policial. 

Aliás, é importante registrar que a sonegação de dados sobre violência policial se inscreve numa série de medidas obscurantistas e autoritárias do atual governo que “tenta tapar o sol com a peneira” em termos de transparência e accountability. Recordemos, sumariamente, que estratégias similares são observadas nas tentativas de manipulação e/ou sonegação de dados sobre a pandemia, o desmatamento na Amazônia e outras informações públicas sobre meio ambiente, desigualdades sociais, drogas, racismo, dados demográficos, gastos presidenciais com cartão corporativo, entre outras áreas e políticas públicas. Um governo que oculta e/ou dificulta o acesso a dados públicos não pode ser considerado democrático.

No caso específico da violência policial, o governo Bolsonaro já sinalizou, repetidas vezes, seu projeto político baseado no incentivo à arbitrariedade de agentes do Estado. A posição dúbia no motim policial do Ceará, as reiteradas tentativas de institucionalizar o “excludente de ilicitude”, as manifestações públicas de aplauso e congratulações a policiais que praticam violência, o incentivo explícito ao armamento (sem controle estatal) da população e as denúncias que ligam o mandatário e sua família às milícias são sinais nada republicanos das tentativas do presidente em cooptar as polícias, alinhando-as ao seu projeto político autoritário.

O Brasil, na esteira dos acontecimentos mundiais, precisa urgentemente discutir a questão da violência policial. Mais que isso, precisamos debater sobre o mandato policial, tão obscuro, e retomar um debate nacional, sempre interrompido, sobre a função das polícias na nossa democracia.

Nesta quadra da vida sociopolítica, marcada por profunda instabilidade democrática, com um Executivo que constantemente flerta com o autoritarismo, o papel das instituições de segurança pública é crucial. Não é possível, nos marcos da democracia, que instituições policiais e as Forças Armadas sirvam a projetos de poder de grupos políticos, contra os interesses do povo e da Nação.

A tentativa de maquiar e esconder dados de violência policial só serve a interesses escusos, que devem ser rechaçados por todos aqueles que defendem os cânones do Estado Democrático de Direito.


Fonte: “Fonte Segura” – informativo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 16 a 22 de junho de 2020 – Edição 42.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Armar o país: a “guerra santa” bolsonarista


(Montagem: Brasil 247)

Uma das partes mais chocantes da famigerada reunião ministerial de 22 de abril de 2020 é a confirmação de Bolsonaro que pretende armar o Brasil e impor uma ditadura: "Olha como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Por isso eu quero que o povo se arme, a garantia de que não vai aparecer um filho da puta e impor uma ditadura aqui”.

Bolsonaro (e sua família) é um presidente visceralmente ligado às milícias; tem como principais bases de apoio o militarismo autoritário (mobilizado em segmentos das Forças Armadas e nas polícias estaduais) e um grupo considerável de fascistas (estimado em cerca de 15% da população) que já está armado (nas redes sociais e nas ruas). Sua eleição selou a aliança mais perversa da história republicana: dos setores ultraconservadores da sociedade brasileira (os radicais da extrema-direita) com o que há de pior no submundo da política (as redes de corrupção sistêmica que operam nos esgotos das negociatas público-privadas e que movimenta as relações mais espúrias desse país).

A tradicional falta de controle de armas, responsável por uma guerra que produz cerca de 60 mil homicídios por ano tende, com o projeto armamentista ditatorial de Bolsonaro, a se desaguar numa carnificina de proporções incalculáveis. Como lembra Janio de Freitas nesse domingo, “Bolsonaro sabe que o povão maltratado, humilhado, explorado e roubado em todos os seus direitos, no dia em que também tivesse ou tiver armas, não teria dúvida sobre o alvo do fogo de sua dor secular. Adeus ricos, adeus classe média alta”. Portanto, abram os olhos os privilegiados que pensam que a guerra bolsonarista é somente contra os pobres.

O bolsonarismo está amalgamado, entre outras, na seguinte coalizão: armamentistas, militaristas e obscurantistas religiosos. Esses novos cruzados se apoiam em ideologias toscas, cujo principal expoente é o astrólogo Olavo de Carvalho e o articulador midiático Steven Bannon (via gabinete do ódio no Brasil). No campo religioso duas teologias sustentam os “cavaleiros do apocalipse”.

A teologia da prosperidade, um bálsamo para o neoliberalismo, prega um deus que abençoa aqueles que tem dinheiro; que o pobre é pobre por sua falta de fé, ou seja, a vítima se transforma no algoz. Seus adeptos acreditam que a solução para as mazelas sociopolíticas é individual, baseada na meritocracia e que desigualdade e justiça são discursos “vitimistas”.

Por outro lado, a chamada “teologia do domínio”, derivação do teonomismo (teocracia cristã), se baseia no pressuposto de que o domínio da terra foi usurpado pelo diabo (no delírio obscurantista dos bolsonaristas religiosos, os comunistas, esquerdistas, socialdemocratas, cientistas, progressistas, feministas, movimento LGBT+ etc). Assim, é tarefa da “igreja dos bons cristãos” tomar esse domínio de volta. A estratégia para essa retomada é dominar todas as áreas de influência da sociedade (política, educação, cultura, judiciário), a fim de estabelecer o domínio de Jesus na terra. Isso explica a aliança geopolítica entre Trump (e os seus financiadores estadunidenses -- que também financiam alguns dos setores do neopentecostalismo ultraconservador em toda a América Latina), Netanyahu (porque  muitas lideranças evangélicas creem que a promessa bíblica da Terra Santa ao povo judeu é literal e eterna, portanto os adeptos do "dispensacionalismo", o retorno dos Judeus à Terra Santa - ou seja, o estabelecimento de Israel - é necessário para a volta de Cristo) e Bolsonaro (com os seus religiosos do “deus acima de tudo”). Vejam, não por acaso, que o triunvirato (Trump, Netanyahu e Bolsonaro) é armamentista e apoiado no militarismo e no discurso religioso ultraconservador.

Qualquer estudioso sabe: a aliança entre militarismo e religião nunca produziu bons resultados na história da humanidade. Mas, caminhamos a passos largos para um arremedo de neocristandade. Os três líderes, colocando-se como legítimos representantes de deus (certamente de Mamom) – porque estão seguros do apoio dos poderes econômico, militar e religioso – não contam com derrotas e, como numa guerra, agem como comandantes dispostos a arrebentar com todas as porteiras. Por isso, precisam armar seus exércitos.

Algumas frases de Bolsonaro na dita reunião confirmam seu propósito como o “messias” dessa nova cruzada: “Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã. Combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. (...) Com a benção de Deus, o apoio da minha família e a força do povo brasileiro trabalharei incansavelmente para que o Brasil se encontre com seu destino e se torne a nação que todos queremos."

É dentro desse contexto que devemos compreender a explicitação de Bolsonaro em relação a armar a população para esse “bom combate” do bem contra o mal. Trata-se, na sua visão e de sua principal base de apoio (militares e religiosos), de uma guerra santa que precisa de um exército armado. Empreitada que, na visão de Bolsonaro, seus ideólogos e parte de seus adeptos, surtiria resultados positivos com a união entre milicianos, militares e religiosos, armados até os dentes.


domingo, 10 de maio de 2020

Um novo pacto ‘por cima’ para tirar Bolsonaro?

Foto: Marcos Corrêa/PR
Tenho observado atentamente a cena política nos últimos dias. Movimentos no STF, parte da mídia empresarial, algumas corporações poderosas…  Nesse 1° de maio, aquela transmissão, via redes sociais e TVT, do dia do trabalhador para tentar agradar a gregos e troianos no “universo” trabalhista, com repercussão a noite numa longa reportagem global, no JN, a mostrar, inclusive e excepcionalmente, um perigosíssimo sapo barbudo e comunista que inventou a corrupção no Brasil e em toda a via láctea.
As lideranças do mundo do trabalho (e alguns penetras escolhidos seletivamente, como FHC) pareceriam sinalizar às elites nacionais que um pacto (para apear o trainee de ditador) é melhor que uma ruptura… Renúncia… impeachment negociado…
Um rápido olhar no passado mostra que a pactuação “por cima” sempre foi a saída à brasileira em momentos de grave crise política: melhor acomodar, mesmo que temporariamente, todos os interesses que enfrentar as consequências de rupturas radicais que, dolorosas para todos, podem mudar substantivamente a estrutura historicamente violenta e excludente da sociedade brasileira.
Foi assim na proclamação da República; com Getúlio; no golpe civil-militar e no processo de abertura democrática, no impeachment de Collor. (Em certa medida, até o golpe contra Dilma teve negociação entre as elites política e judiciária. Envergonhados, parte dos golpistas aceitaram não retirar os direitos políticos da ex-presidenta).
Em todos esses episódios há um rosário de argumentos a justificarem as pactuações.

Alguém poderá dizer: mas, nesse momento dramático da vida nacional — para nos livrarmos do perverso que hoje comanda o país –, vale qualquer negócio.
Se é assim, há outras saídas para além da pactuação a acomodar interesses totalmente opostos. É forçoso constatar que, de imediato, não há base social progressista para processos revolucionários de baixo para cima.
E um dtalhe: falta combinar com a turma do outro lado. Afinal, o bolsonarismo costura uma aliança estratégica entre militarismo (bases das polícias e FFAA) e neopentecostalismo (evangélico e católico). Preparam uma “guerra santa” para “redimir a cultura e a família judaico-cristã das garras do comunismo chinês”. Uma narrativa marcada por emoção, apelo à religiosidade, sentimentos em relação a valores familiares. Nada de racionalidade. Mas, discurso altamente mobilizador.
Lembremos: a união entre militarismo e religião — que não trouxe benefícios à humanidade em nenhuma ocasião — também é conhecida nessas plagas. Afinal, 1964 é logo ali.
No início do governo Bolsonaro, neste Dom Total, chamávamos a atenção sobre as relações entre religião, militarismo e elites judiciárias na assunção e possível sustentação do governo. Veja aqui: http://robsonsavio.blogspot.com/2018/12/o-tripe-republicano-tupiniquim.html
Veremos os próximos capítulos…

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Falta de teste esconde mortandade no Brasil

Lamentavelmente, os números oficiais do Ministério da Saúde sobre as mortes pela Covid-19 parecem revelar somente a ponta de um iceberg.
Não sou estudioso da saúde. Não tenho autoridade para pontificar sobre tema tão complexo e desafiador. Mas, como cidadão e baseado em evidências científicas posso levantar hipóteses.
Depois de ver vídeos com especialistas em saúde (inclusive que atuam fora do Brasil, como Marcelo Bigal, neurologista e pesquisador brasileiro residente nos EUA - cujo vídeo sobre subnotificação no Brasil está disponível aqui: https://m.youtube.com/watch?v=-LKC8tjyeHM), ler sobre o aumento colossal das mortes causadas nos últimos 40 a 50 dias ocasionadas por "síndrome respiratória aguda" e constatar que o Brasil faz cerca de 290 testes para cada grupo de um milhão de habitantes (a Alemanha, por exemplo, faz 15 mil testes por um milhão), chego à conclusão (a ser comprovada) dramática: há uma colossal subnotificação na mortalidade causada pelo novo coronavírus.
Duas questões são cruciais agora: olhando para o retrovisor, cabe às autoridades sanitárias atesteram se o coronavírus chegou ao país antes das primeiras divulgações oficiais de casos. E quando?
Segundo, aumentar vertiginosamente a testagem (para otimizar ações de prevenção, tratamento e controle) e investigar a totalidade dos casos de morte registrados como "síndrome aguda respiratória".
Caso contrário, a credibilidade do sistema de saúde brasileiro será profundamente afetada. E a decantada eficiência do ministro Mandetta e equipe irá para o brejo.
E, óbvio: é preciso barrar as tentativas genocidas de alguns agentes públicos que, discípulos de Tânatos (o deus da morte) e sem compromisso com a saúde, a vida e a sociedade, lutam contra o isolamento social.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Militarismo e lavajatismo: duas faces da mesma moeda



Nada como um dia depois do outro...
 
Há muito, defendemos a tese segundo a qual duas corporações, burocracias altamente organizadas e relativamente coesas dentro do aparato do Estado, tutelam o país. A “juristocracia” e o militarismo.  Desde a proclamação da República as duas corporações "andam de mãos dadas" e se protegem mutuamente. São faces de uma mesma moeda.

Para atalhar essa história,  os dois grupos foram resguardados pelo pacto constitucional de 1988, mesmo depois do recrudescimento de ambos, observado durante a ditadura militar. Ao contrário de outros países que sancionaram severamente os protagonistas de regimes de exceção, os militares e o sistema judiciário (incluso MP) foram poupados de reformas democratizantes e se transformaram em atores fundamentais à ruptura institucional havida em 2016.

É importante destacar que dentro do militarismo há setores democráticos, assim como no judiciário. Mas, também é fundamental entender que as frações mais poderosas de ambas as corporações são conservadoras, com tendências reacionárias. No militarismo tais frações são encabeçadas principalmente pelo Exército e pelas polícias militares; no judiciário, uma estrutura historicamente elitista, a vertente mais reativa e antidemocrática se expressa, atualmente, no lavajatismo.

Os grupos conservadores e reacionários (do militarismo e do lavajatismo) têm apoio dos segmentos de elite (de mentalidade escravocrata) da sociedade brasileira: empresários, agronegócio, bancos; da mídia empresarial; e de outros setores da sociedade, como segmentos obscurantistas do catolicismo e, principalmente, do neopentecostalismo evangélico (que claramente tem um projeto de poder em curso, mas isso é história para outro texto).

Um dos elos de união entre os dois grupos passa pela "alta" maçonaria. Há um sentimento de superioridade moral que credenciaria militares e juízes à direção da República (cujo "povão" precisa ser contido e "endireitado"). Desde a proclamação, em 1889, esse sentimento é cultivado nas cúpulas dessas instituições. Isso sem contar o caráter messiânico: para muitos,  militares e/ou  juízes podem se tornar os redentores de uma pátria apodrecida pela devassidão...

Cada vez fica mais evidente que há, também, alianças geopolíticas desses dois grupos com as pretensões imperialistas dos Estados Unidos. Nota-se, não por acaso, que os atores da ruptura de 1964 são praticamente os mesmos daquela havida em 2016. 

Registre-se que está em construção, mais recentemente, um alargamento dessa tríplice aliança (EUA, militares/judiciário e elites) que inclui Israel e que passa, também, pela questão religiosa. Trump, Bolsonaro e Netanyahu encabeçam essa aliança, sob os auspícios de Steve Bannon, Cambridge Analytica e similares, Olavo de Carvalho e vários think tanks ultraliberais estadunidenses.

E há evidências a corroborarem a aliança entre militarismo e o grupo reacionário do judiciário, o lavajatismo, no direcionamento do atual governo. Só para lembrar: além dos tuites do ex-comandante do Exército e do agradecimento público de Bolsonaro ao mesmo general pela sua eleição, outros sinais são claros. No livro “Tormenta: o governo Bolsonaro, crises, intrigas e segredos”, a autora afirma que o general Heleno teria impedido a demissão de Sérgio Moro sob a alegação de que o governo acabaria. 

Acrescente-se a composição cada vez mais militarizada do Planalto, a sinalizar que os militares temem pela desagregação do governo, haja vista os desgastes gerados pela chamada “ala ideológica” e pelos descontentamentos cada vez mais evidentes com a gestão econômica, sob o ultraliberal Guedes. Sem contar a incógnita e cambiante posição de Moro.

Somem-se as várias manifestações dos generais Heleno e Mourão defendendo intransigentemente Moro e a Lavajato. 

São comprovações da coesão desses dois grupos de poder. Bolsonaro, como já escrevemos, é somente um "bode na sala".

Por outro lado, a tibieza do Supremo e dos conselhos nacionais de justiça e do MP em punirem os excessos e arroubos ilegais e inconstitucionais cometidos pela força-tarefa encabeçada pelo ex-juiz, hoje ministro de Bolsonaro, demonstram a força da união estratégica e quase oculta entre militares e lavajato. Tais grupos protagonizaram o processo sociopolítico que se iniciou na esfera pública em 2013, tendo seu ápice no impeachment de Dilma Rousseff e a posterior assunção de um governo de extrema-direita ao poder.

Os arroubos autoritários de Bolsonaro e seu clã não têm contenção nem no Judiciário, nem no militarismo. Os poucos sinais de resistência democrática no âmbito institucional vêm do Congresso e de figuras como Rodrigo Maia.

Enganam-se aqueles (inocentes ou inocentes úteis) que apostam todas as fichas democráticas nos processos eleitorais vindouros. Eleições serão insuficientes para recomporem a democracia formal. Nas condições atuais, os pleitos serão objeto de múltiplas intervenções dos atores que estão e que sustentam o poder. No limite, judiciário e militares são afinados para tornar explícito o que querem implícito: a tutela da  República.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Ecos das jornadas de 2013

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O ex-presidente Lula, em recente  entrevista, disse que os EUA estavam por trás das jornadas de junho de 2013 a articularem um movimento golpista no Brasil. Essa análise reacendeu um grande debate, nas redes sociais, sobre esse período intenso da vida sociopolítica brasileira.

A não ser que Lula tenha elementos objetivos para comprovarem sua tese (e talvez os tenham) discordo da análise do ex-presidente.

Não há fatos que corroboram a tese segundo a qual as manifestações de 2013 foram o primeiro ato do golpe de 2016, mesmo considerando que, em certos momentos, houve um protagonismo de grupos anarquistas e de extrema-direita naqueles protestos.

As jornadas de 2013 foram um grito libertário (apesar de passageiro), um movimento de massas, relativamente espontâneo (e com certos limites) de uma população predominantemente urbana, que não se contentava com uma democracia de mentirinha (apesar dos avanços sociais desde 1988 e principalmente nos governos petistas). As massas urbanas reivindicavam mais e melhores políticas publicas; exigiam mais participação e demandavam rupturas com as velhacas estruturas dos sistemas econômico e político brasileiros. Denunciavam os limites de uma democracia marcada pela desigualdade e de baixíssima intensidade. Repudiavam as benesses públicas dirigidas a entidades corporativas internacionais, como a Fifa (que exorbitavam poderes a ponto de ameaçarem o governo local), em detrimento de investimentos em políticas sociais.

Naquele momento, os segmentos de elite das esquerdas, encabeçados pelo PT (no governo federal), preferiram apostar na institucionalidade, no status quo, na "lei e na ordem" para enfrentarem os clamores revolucionários da população: a aprovação de lei antiterrorismo é o corolário desse erro estratégico. E perderam a oportunidade histórica de propor mudanças estruturais (para além das importantes políticas incrementais) que historicamente fazem do Brasil um dos países mais desiguais, violentos e injustos do mundo. 

Paradoxalmente, as esquerdas que sempre discursaram contra o sistema, optaram por proteger o sistema. 

Passadas as jornadas de junho de 2013, um rescaldo de insatisfação e decepção pairavam na sociedade. E o resultado foi a captura de muitas das legítimas demandas por mudanças da população pela direita. Em 2014, num cenário de violenta disputa eleitoral e a partir do discurso antissistema e golpista de Aécio Neves (que não aceitou a institucionalidade, ou seja, o resultado das urnas), a direita e setores fascistas da sociedade brasileira, vitaminados pela mídia, começaram a controlar o debate público e o protagonismo das ruas do Brasil.

Agora, não adianta eleger um bode expiatório para explicar a assunção da extrema direita protofascista como resultado externo aos desacertos cometidos em 2013 por quem estava no centro do poder. A cantilena da corrupção associada exclusivamente ao PT (o canto da sereia que embalou o lavajatismo golpista) teve ampla adesão da sociedade. Isso porque a população se encontrava insatisfeita com os limites da inserção via consumo (que não suplantava os guetos sociais, étnicos etc.) e exigia, principalmente nos espaços urbanos, o direito efetivo à cidade.

É claro que os EUA são responsáveis, direta e indiretamente, por todos os golpes havidos na América Latina desde a segunda metade do século passado. Especificamente em relação ao golpe de 2016, os EUA (Departamento de Justiça, CIA, think tanks ultraliberais) e seus parceiros fiéis brasileiros (banqueiros, grandes industriais, latifundiários, reacionários da classe média...) souberam aproveitar da insatisfação popular generalizada e da incoerência entre a teoria e a prática da esquerda (ou seja, da reação pro-establishment ao invés da proposição de mudanças)  para proporem pseudonarrativas de mudanças e arquitetarem o farsesco impeachment (com Temer, parlamento, lavajatismo e "com o supremo com tudo"), possibilitando em 2018, com diversas outras traquinagens (guerra híbrida, chantagens da caserna, atuação neopentecostal, seletividade do sistema de justiça etc.), a eleição do governo mais esdrúxulo da história republicana.

Que 2013 sirva de aprendizado. E não de desculpas...

Uma fábula de fim de ano: até quando as elites manterão o bode na sala?

Conta-se que as elites de um “país de faz-de-conta” (que exalam bom odor graças a doses cavalares de perfume importado) resolveram golpear a democracia.

Para consumar a ruptura, escolheram um bode velho na política para comandar o país.

Diziam que “a liturgia do cargo”, uma fragrância aplicada em altas doses, tornaria o ogro do baixo clero parlamentar menos malcheiroso e amado pelo povo e pelas nações.

As elites daquele país de faz-de-conta eram compostas pela turma do pato amarelo (das grandes indústrias e multinacionais), pelos banqueiros e os donos do agronegócio.

Esses “senhores do capital” podiam contar com outros aliados. Afinal, naquele país tinham trabalhadores que se consideravam elite: a turma da “fina-flor” do judiciário, MP, polícias, Forças Armadas e líderes neopentecostais; parte da classe média; operários da velhaca mídia empresarial, além de prepostos do Tio Sam em vários setores daquela sociedade.

Essas elites e seu exército de marionetes sabiam que o importante depois do golpe seria garantir o controle da economia e sufocar qualquer sublevação do povo. Portanto, pouco importava quem seria o presidente de plantão.

Fundamental para viabilizar seus interesses era garantir um governo comandado de fato por um capataz do ultraliberalismo, tipo um “Chicago boy”, e um preposto da CIA e do Departamento de Estado norteamericano (órgãos especializados em golpes, repressão popular e terrorismo de Estado), tipo um “xerife do velho oeste das araucárias”.

Acontece que o bode que escolheram fede demais. A cada dia, não obstante as imensas doses de perfume lançadas pela mídia empresarial, líderes religiosos e um exército de zumbis em redes sociais, a catinga do bode aumenta. E, o pior: o bode trouxe para a sala das elites daquele longínquo lugar além de seu cheiro insuportável, o desagradável odor dos seus filhos, mulheres, milicianos e outras personagens cavernosas do submundo daquele país.

E o cheiro do bode tornava-se cada vez mais detestável. Não havia perfume suficiente para disfarçar o incômodo dos falsamente limpinhos, cheirosos e bons cristãos que patrocinaram e elegeram o bode e seu clã para comandarem aquele o lugar de faz-de-conta.

Com o cheiro horrível que só aumentava, as carpideiras midiáticas começaram a chorar lágrimas de crocodilo, como se nada tivessem com o vexame nacional e internacional do bode velho.

Enquanto isso, o “Chicago boy” e o “xerife do velho oeste das araucárias” tocavam a pauta do ultraliberalismo autoritário e obscurantista com a ajuda de bobos da corte e diversionistas em ministérios, um Congresso cambiante e um poder judiciário delirante.

E o bode era só fedentina…

E a moral dessa fábula termina com uma pergunta: até quando as elites daquele país tão distante manterão o bode na sala?

FIM.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

AS FALÁCIAS DOS "DOIS LADOS" E DA POLARIZAÇÃO POLÍTICA

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A mídia empresarial, que sempre tem lado, conseguiu implantar nas mentes e nos corações dos brasileiros, entre outras, duas das mais perversas mentiras que só servem para a alienação social: (1) que os fatos e acontecimentos têm dois lados e (2) que o Brasil está polarizado.
Os fatos sociais, políticos, econômicos, religiosos têm múltiplos lados. São complexos e não se resumem a simplismos.
Quando a mídia impõe a pseudoversão dos "dois lados", reproduz uma simplificação grosseira da realidade, historicamente conhecida: o maniqueísmo - a velha luta entre o bem e o mal.
Observe que a mídia empresarial (corrupta e corruptora, em seu DNA) sempre se posta do lado do bem e o outro lado, cirurgicamente escolhido e nomeado, é apresentado como sendo o lado do mal.
Ao usar essa perversidade simplificadora da complexa realidade sociopolítica, a mídia escolhe quem é o inimigo e como lançá-lo à fogueira inquisitória da chamada "opinião pública" (outra simplificação, porque essa opinião que se diz pública se reduz ao pensamento majoritário dos segmentos sociais que têm poder de vocalização; ou seja, a opinião publicada que agrada e reproduz as expectativas de uma minoria social de privilegiados).
Percebam que ao escolher o "outro lado" e nomeá-lo, a mídia empresarial procede de tal forma que múltiplas vozes e possibilidades de análise são silenciadas ou invisibilizadas para que o inimigo eleito seja condenado, por convicções, pela "opinião pública".
Outra fake news deslavada e propagada aos quatro ventos pela mídia empresarial é que o Brasil é um país polarizado.
Para justificar sua posição de apoio aos segmentos fascistas, autoritários, antinacionais e perversos da sociedade, a mídia precisa construir uma falsa imagem que há "um outro lado" tão perverso, ou até mais perverso, que precisa ser enfrentado e combatido pelos "bons".
Veja o que acontece nos dias atuais: a mídia empresarial é uma das principais responsáveis pelo golpe de 2016 e pela assunção do autoritarismo travestido de normalidade democrática. Por isso, precisa defender, "com unhas e dentes", a falácia da polarização para se autojustificar.
Há um lado radicalizado que todos conhecemos. Esse lado defende a ditadura militar; o AI - 5, a tortura, o fechamento do Congresso e do STF; a submissão da imprensa aos caprichos dos filhotes da ditadura; a transformação do país no quintal dos norte-americanos; a entrega de nossas riquezas naturais ao estrangeiro; a total submissão ao rentismo gerador da mais perversa concentração de renda da história do capitalismo; a destruição de seres humanos para abrir espaço à sanha do capital; a total subordinação dos poderes da república a grupos milicianos...
Pergunta: onde e quando, uma única vez, o outro "polo" defende esse tipo de radicalização?
Obviamente, esse discurso da polarização serve para (1) manter os ultradireitistas mobilizados, (2) passar a falsa ideia que a mídia é isenta e dá oportunidade de manifestação dos "dois lados" e (3) justificar o escamoteamento daqueles têm medo (e ainda algum pudor) de se revelarem à sociedade. Hipocritamente - porque têm lado e medo de se revelarem -, milhões de brasileiros preferem se refugiar nesse discurso alentador da covardia.
Não nos enganemos: há muitos lados nos fenômenos sociais, políticos, religiosos... e não há nenhuma polarização. Mas, há muitos covardes que adoram tais discursos.