Entrevista: 'Uma esperança para esperançar-se'

Devemos ir em busca da justiça e da igualdade, nos unindo para fazermos algo diferente.


Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Entrevistamos o Cientista Social e professor da PUC Minas, Robson Sávio Reis Souza, que é coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas (Nesp) e conselheiro titular do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais. Na entrevista, que o doutor em Ciências Sociais nos concedeu por escrito, ele aborda o contexto político no qual vivemos e o papel dos cristãos e cristãs nesse processo.
O país vive um contexto político muito conturbado, em que as instituições estão fragilizadas e a democracia golpeada. Qual o lugar da esperança, para aqueles que buscam mais justiça social e igualdade?
Há que se pensar em várias dimensões. Numa perspectiva individual, e não individualista, a questão é: o que cada um de nós pode fazer para mudar essa realidade? Se não é possível uma transformação estrutural, há sempre a possibilidade de transformar os espaços onde atuamos. Numa dimensão social e comunitária, como se articular a outros atores sociais que lutam pela justiça e pela igualdade? No plano religioso, é preciso superar o discurso sacrificial, que nos coloca no lugar da vítima sempre incapaz de reagir; passiva e amedrontada à espera do algoz. Também no plano religioso, esse conformismo cínico com realidades tão perversas precisa ser superado: um país onde quase 60 mil pessoas são mortas por ano, em sua maioria jovens, negros e pobres; onde milhares de mulheres são estupradas, inclusive no recesso do lar; onde crianças são violentadas no seio das famílias e onde 1% dos ricos têm uma vida abundante às custas de milhões de brasileiros denuncia a baixa incidência do verdadeiro espírito do cristianismo na nossa cultura. A busca pela justiça e pela igualdade não pode ser de uma esperança para esperar. Há que ser de uma esperança para esperançar-se, ou seja, juntar-se com os outros para fazer algo diferente. 
A participação dos cristãos e cristãs em todas as esferas da Política é muito importante, pois nasce de um compromisso evangélico de exercício da cidadania e aponta para a justiça do Reino. Temos acompanhado, no entanto, que a participação de religiosos na política tem se desviado do compromisso genuinamente cristão. Como entender esse processo e quais riscos ele apresenta?
É preciso dizer com franqueza, e com tristeza, que há um certo desprezo do cristianismo e do catolicismo em relação à política como uma das formas mais perfeitas do exercício da caridade, porque busca o bem comum, como disse o Papa Francisco. Ainda temos uma cultura religiosa avessa às práticas voltadas para a construção de uma cidadania efetiva, ou seja, de uma sociedade inclusiva de e para todos e todas. Muitas práticas religiosas favorecem a dissociação entre fé e vida. Por isso, muito devocionismo e pouca preocupação com justiça social. Justiça aparece, na maioria das vezes, como um belo discurso com pouca efetividade. Fala-se muito em “justiça do Reino”, mas do reino futuro. Enquanto isso, a vida em abundância para todos, desejada por Cristo, se transforma numa vida em abundância para alguns. E isso é naturalizado. São minoritários os grupos de cristãos que têm percepção acerca da incidência do Evangelho enquanto imperativo ético à construção da justiça, da igualdade, da fraternidade.  Por outro lado, observamos um péssimo testemunho de muitas lideranças religiosas que vivem na opulência e na ostentação. E, sob o ponto de vista institucional, muitas vezes há um silêncio obsequioso frente a tanta injustiça e opressão.
Estamos em meio a uma campanha política, que culminará na eleição dos prefeitos e vereadores para os municípios. Quais critérios de discernimento os cristãos e cristãs devem assumir nesse momento, inclusive em que muitos candidatos ligados às instituições religiosas estão concorrendo?
As eleições são uma pequena parte de um processo mais amplo que demanda participação constante e qualificada dos cidadãos que desejam a melhoria da política e dos representantes eleitos. Conhecer bem os candidatos e acompanhar os eleitos são passos importantes. Porém, não são suficientes. Num contexto político no qual os princípios básicos da democracia, como o respeito ao resultado das eleições legítimas não é garantido, um grande ceticismo e desdém do eleitorado, nessas eleições, poderão redundar num afastamento da população do debate dos problemas e das soluções para a construção de cidades mais justas, inclusivas, igualitárias, diversas e plurais. Por isso, para além de se envolver no processo eleitoral em curso, é preciso que voltemos toda a nossa atenção para o tema da reforma do sistema político. O sistema político atual é perverso. Privilegia quem tem dinheiro e os caciques partidários, ou seja, o velho coronelismo com novas roupagens que ainda impera no nosso sistema eleitoral. Se não avançarmos numa reforma profunda de todo o sistema político, não há salvação para a nossa democracia. E as eleições vão se transformando, gradativamente, num conto da carochinha. Acreditamos que escolhemos os nossos representantes, pelo simples fato de votarmos, mas, como esse sistema, os escolhidos são aqueles que têm dinheiro ou que dominam as cúpulas partidárias. Não representam de fato o eleitor.
A Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio do Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), promoveu o primeiro debate entre os candidatos à Prefeitura de Belo Horizonte, no mês de agosto. Qual balanço você faz desse primeiro debate entre os candidatos?
Em análise sobre a conjuntura eleitoral de Belo Horizonte, produzida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas e da Arquidiocese (Nesp) constatou-se que o processo político e eleitoral que definiu as candidaturas majoritárias na Capital foi caracterizado pelo personalismo e caciquismo em praticamente todos os partidos; a inexistência generalizada de projetos políticos para a cidade e a região metropolitana; o afastamento da sociedade das discussões partidárias acerca dos problemas da cidade e a incapacidade das lideranças partidárias compreenderem os clamores populares por mudanças na política institucional. Portanto, o processo político, até o momento, repetiu as velhas e caducas formas da política tradicional, demonstrando a pouca porosidade dos partidos e seus líderes no diálogo com a população. Neste contexto, grupos e coletivos de fé e política e movimentos sociais foram convidados pelo Vicariato da Ação Social e Política da Arquidiocese e pelo Nesp a organizarem um encontro, no qual ouvimos e também falamos aos onze candidatos a prefeito da cidade. A principal discussão com os candidatos foi a respeito do tema “direito à cidade”. A cidade é um espaço de e para todos e todas. E o poder público é o grande responsável por fazer dos espaços urbanos locais de encontro, e não locais de exclusão, ratificação de preconceitos ou alienação socioespacial. Há problemas crônicos em Belo Horizonte que afetam desproporcionalmente seus moradores. Às vezes, planeja-se uma cidade a partir da lógica do mercado imobiliário, dos especuladores ou dos interesses dos incluídos. Por isso, no encontro com os candidatos e candidatas pudemos deixar claro que somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.

(Fonte: portal Dom Total) 

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