quinta-feira, 7 de julho de 2016

Eduardo Cunha, os resquícios do coronelismo e o impeachment

Charge: Internet

Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo, no Brasil, de Vitor Nunes Leal (1914 – 1985) é “obra fundamental para o conhecimento da realidade brasileira”, nos dizeres do notável Barbosa Lima Sobrinho que fez a apresentação do livro.

Nele, o autor descreve com precisão essa “instituição” brasileira, calcada na organização agrária da nossa sociedade (pelo menos até meados do século passado) e de cujas raízes ainda florescem ramos viçosos até nossos dias. O coronelismo é, em boa medida, a base das organizações partidárias tupiniquins e dele nasceram e ainda crescem muitos dos vícios da politicagem nacional.

Observemos o Congresso atual, por exemplo: quantos velhos, ou melhor, velhacos, como dizia Ulisses Guimarães, que agem como coronéis e que têm um séquito para cumprir suas ordens e lamber suas botas.

Diferentemente dos coronéis do passado cujo poder político estava alicerçado nas terras, os de hoje têm muito dinheiro. Via de regra, são empreendedores da corrupção: conquistam o poder político com o dinheiro sujo que operam, articulando promiscuidade na vida pública com os interesses não menos despudorados da iniciativa privada.

A figura mais paradigmática do coronelismo repaginado da atualidade é Eduardo Cunha. Sua renúncia à presidência da Câmara deve ser comemorada com cautela. Suas lágrimas de crocodilo ao ler a carta de renúncia, depois de mencionar sua gestão conservadora à frente da Câmara, estufar o peito ao assumir a paternidade do fajuto processo de impeachment e atacar o PT, sintomaticamente em horário escolhido para entrar ao vivo durante jornal da emissora oficial do golpe, sinaliza que a perversidade não tem limites.

Na condição de coronel-mor, foi o grande arrecadador de fundos para a eleição de inúmeros deputados, mantendo-os em suas mãos; como líder da bancada religiosa (não somente evangélica) e do PMDB, tem discípulos fiéis na Câmara e no Senado; como mentor e articulador do governo golpista tem nas mãos o presidente e seus homens e sendo “amigo íntimo” de muitos poderosos, incluindo empresários, donos de mídias e magistrados de togas supremas têm relações de poder que, de variados modos, poderão salvar seu mandato e livrá-lo da prisão.


Charge: Internet

É verdade que, tendo em vista a imensa instabilidade do governo ilegítimo, os amigos do coronel-chefão poderão tentar a velha estratégia de elegê-lo como bode expiatório, entregando-o na bandeja para salvarem suas peles. Nos próximos dias veremos se o poder do coronel Cunha foi, realmente, destruído.

Vejamos como o coronelismo ainda persiste: Vitor Nunes Leal afirmava que uma das características do coronel é agir tal como um senhor feudal. Ele estabelece seus domínios. Outro atributo notável desse “sistema” é a predominância do poder privado sobre o público. Duas qualidades perceptíveis nas principais lideranças políticas nacionais.

Neste sentido, há muitos outros coronéis. Sarney, que parecia morto, qual fênix tupiniquim ressurgiu garboso nos últimos tempos. Renan, Agripino, Caiado, Aécio, FHC, Cunha Lima, Bolsonaro, Feliciano, para citar alguns, têm o mesmo modus operandi dos coronéis do passado. Alguns são coronéis em seus partidos; outros, coronéis em suas seitas.

Ainda segundo o autor, o coronel é mais que um líder; é uma espécie de benfeitor dos pobres, dos trabalhadores (incapazes de governarem o próprio voto); por isso, o “voto de cabresto”, controlado com o uso de capangas (poder privado) e policiais (manipulação do poder público). É claro que o modelo repaginado do coronelismo substituiu o voto do cabresto pelo voto manipulado pelo marketing político-eleitoral e os capatazes de ontem pelo sistema de justiça da casa grande, de hoje e de sempre.

Como verdadeiros donos dos votos e dos rumos da política, os coronéis custeiam as despesas eleitorais de seus serviçais, exercendo funções paternalistas, utilizando o dinheiro, os serviços e os bens públicos nas batalhas eleitorais. Aqui também estão as origens do patrimonialismo e do familiarismo e outras formas de nepotismo, tão toleradas em nossa cultura política. Observemos, também, que as várias delações premiadas dos últimos tempos abundam na descrição de casos de nepotismo, favorecimentos privados e aumento do patrimônio familiar de políticos que operam a corrupção na máquina pública.

É verdade que o livro de Nunes Leal avaliava o coronelismo no âmbito municipal. Em síntese, esse sistema se constituía da seguinte forma: o coronel, no município, controlava a política local (geralmente era o prefeito), os votos dos seus empregados (numa sociedade genuinamente agrária a maioria dos trabalhadores dependiam do latifúndio para a subsistência), as obras públicas (comumente direcionadas aos seus aliados políticos), a polícia (usada para reprimir os desafetos), etc. Esses coronéis sustentavam a política estadual (geralmente eram governistas, ou seja, situacionistas). Os chefes políticos estaduais dependiam do chefe situacionista local (o coronel) para se manterem no poder. E esse ciclo vicioso se completava; ou seja, o chefe político estadual sustentava o coronel e fechava os olhos para seus desmandos no município com o intuito de se manter no poder. Por sua vez, o coronel sustentava o governo estadual com os votos de cabresto da população municipal.

Mas, analisando os esquemas de corrupção no nível nacional, observamos que os coronéis, que são os chefes políticos de quase todos os partidos, continuam determinando as formas de apropriação privada do patrimônio público como outrora. Ou seja, muita coisa ainda não mudou...

Não obstante o enfraquecimento do sistema do coronelismo municipalista que vigorou até a metade do século passado, práticas coronelistas mais amplas ainda subsistem porque, também, não houve uma efetiva mudança na estrutura agrária brasileira: assim, o “regime dos coronéis adapta-se aqui e ali, para sobreviver, abandonando os anéis para conservar os dedos” (p. 256).

Além dos coronéis que são os caciques partidários, o fato é que em pleno século XXI, a grande representação da bancada ruralista nas casas legislativas, os debates renitentes sobre as fronteiras do agronegócio, as constantes libertações de trabalhadores em regime de escravidão nas fazendas do interior do país, entre outros, denunciam ainda os resquícios desse sistema em nossa ordem social e política. 

Registre-se de passagem que a bancada ruralista, chamada também de bancada do agronegócio ou bancada do boi, teve atuação marcante durante o processo da Constituinte, garantindo uma série de beneplácitos para os latifúndios brasileiros, entre os quais, obliteraram quaisquer tentativas efetivas de uma verdadeira reforma agrária. Atualmente, a bancada do boi associada às bancadas das armas e da bíblia, formando a coalizão BBB, são responsáveis pelos maiores atrasos no campo legislativo, por retrocessos nas políticas públicas e também são os sustentáculos do governo interino e golpista. Se somarmos aqui os coronéis da mídia nativa fica evidenciada a persistência do coronelismo na política atual.

Não é por mera coincidência o fato de o governo interino ter se inspirado em símbolos e práticas da velha república: sua logomarca; um gabinete composto por homens velhos, ricos e em sua maioria envolvidos com a corrupção; o desdém em relação aos pobres, trabalhadores e segmentos vulneráveis; o servilismo no plano internacional, etc.

Por fim, vale a pena as considerações de Nunes Leal sobre o problema da corrupção eleitoral, assunto tão debatido nos últimos pleitos. Desde o Império e a Primeira República já se atribuía à corrupção eleitoral, segundo o autor, a principal responsabilidade pelos males do regime representativo (p. 240 ss).

Porém, o voto se transformou em mercadoria. E foi assim que se formou o Congresso mais conservador e retrógrado de nossa história. A Câmara baixa, locus do baixo clero e da abertura do impeachment, era presidida por Eduardo Cunha. E, ao que tudo indica, será a junção da ação dos coronéis com o voto-mercadoria que decidirão os rumos do fajuto processo de impeachment no Senado.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Cidadania nas Ruas e nas Redes; homicídios infantojuvenis no Brasil


jovem

No Brasil, a cada 24 horas,  29 crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos, em sua maioria negra, são assassinatos. Os dados integram um estudo que foi encomendado pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), e foi divulgado recentemente. 

Sobre este tema, o professor e filósofo Robson Sávio nos faz refletir, apontando as causas como a desigualdade social e a falta de uma política pública eficaz urgente em defesa das crianças e adolescentes, especialmente  em situação de risco social e pessoal.  

Ele ressalta, inclusive, o alto índice de suicídio de jovens indígenas em nosso país.

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Cidadania nas Ruas e nas Redes: a manutenção da desigualdade e da exclusão


tolice

O professor e filósofo Robson Sávio faz uma  reflexão sobre a conjuntura brasileira a partir do livro do sociólogo Jessé de Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira. 

“Tolice porque os principais intérpretes do Brasil criaram suas teorias sociológicas e políticas a partir do pressuposto de que o desenvolvimento socioeconômico, relativamente baixo, como algo próprio de sociedade como a nossa e não como resultado de uma estrutura e de uma institucionalidade de distribuição de riqueza, acesso a bens e serviços extremamente desiguais e excludentes”, afirma. 

Robson fala da desigualdade social e como o sistema educacional  e a mídia participam reforçando este processo. Segundo ele, os beneficiários direto desta desigualdade trabalham para que o povo brasileiro acredite que a corrupção está no Estado e no governo que gerencia a máquina pública. Tudo com apoio da grande mídia e do setor da Justiça conservador e seletivo. 

Este foi o  caminho da realização e do fortalecimento de um golpe  contra a democracia brasileira, que mostra que os mesmos  sempre pagarão as contas dos poderosos.

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Cidadania nas Ruas e nas Redes: show de horrores do governo interino


mão

O professor e filósofo Robson Sávio  fala das gravações  que comprometem vários senadores atingindo o sistema de justiça, a grande mídia e alguns partidos políticos, além do presidente interino,  Temer. 

Além de falar sobre estas gravações que  desmascaram o golpe e seus interesses, ele faz críticas ao  ato do ator Alexandre Frota que levou  propostas para a educação, para o ministro da Educação. 

Uma pessoa que fez, em redes sociais, apologia ao estupro querendo contribuir com educação? Coincidentemente, no dia seguinte,  o país vive o drama de uma adolescentes que foi vítima de um estupro coletivo. 

Estamos sendo diariamente afrontados por um governo ilegítimo que está retirando direitos sociais, dos trabalhadores e, agora, afrontando pais e educadores com esta situação.

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Pensando o Brasil: crises e superações


De maneira discreta, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acaba de lançar o volume 3 da série “Pensando o Brasil”. Com o título “Crises e Superações”, o documento é, sem sombra de dúvida, o mais incisivo e contundente pronunciamento do episcopado acerca da situação social, econômica e política brasileira nas duas últimas décadas.

 Apesar de não explicitar em nenhum momento que se trata de uma análise do processo sociopolítico que vem se arrastando no país desde as eleições de 2014, o texto possibilita uma interpretação crítica acerca das perspectivas de redução das políticas públicas que visam o enfrentamento e a diminuição das desigualdades sociais e fragilizam os segmentos mais vulneráveis da população, em curso desde a assunção do governo interino.

Fruto de intensas discussões e debates durante a 54ª Assembleia Geral da Conferência (realizada em Aparecida, SP, entre os dias 5 e 15 de abril deste ano), a primeira versão do documento foi apresentada no primeiro dia do evento e despertou intenso debate dentro do episcopado (como comentamos aqui). Informações de bastidores apontam que alguns prelados chegaram a classificar o documento como uma “análise produzida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra) e outros anunciavam ser a contribuição mais profética da entidade desde a década de 1980.

Debatido durante todo o período do encontro da cúpula da Igreja Católica brasileira, a versão final foi aprovada, surpreendentemente, por mais de 95% dos cerca de 300 bispos presentes na última plenária, evidenciando uma enorme coesão do episcopado acerca dos problemas sociais, éticos, econômicos e políticos que colocam em risco a democracia e as instituições nacionais nos últimos tempos.

Na apresentação do documento, o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, afirma que “os valores humanos fundamentais, as forças ideológicas, a força do Evangelho, as forças políticas e os movimentos sociais vão modificando a realidade. As modificações não são sempre conforme a perspectiva do Evangelho. Aos cristãos é entregue a tarefa de participar da transformação da realidade da convivência humana, percebendo as suas crises e, pelo testemunho, indicar a superação.”

Como trata-se de um documento muito denso, destacamos, a seguir, alguns trechos:

a)      Crítica ao segmento político, ao sentimento difuso de intolerância e ao Congresso Nacional: “A classe política parece não ter ouvido os protestos populares de 2013, ficando preocupada com seus interesses particulares. Por parte de alguns setores, aparecem discursos marcados pela intolerância que estigmatizam grupos sociais historicamente discriminados: pobres, negros, nordestinos, indígenas, quilombolas. Violências e conflitos pela terra estão ficando cada vez mais agudos com repercussões no Congresso Nacional. Mais grave é a tentativa de promover retrocesso amplo e geral nos direitos sociais constitucionalizados pela implementação do ajuste fiscal, que se impõe ao ajuste estrutural.” (Página 12).

b)     Crítica ao capitalismo rentista e ao consumismo: “Disso se infere que o capitalismo implica a existência de um permanente estado de insatisfação que se retroalimenta: quanto mais o sujeito consome, maior a sua carência. Não se trata da falta que se sente de um bem, mas da falta em si mesma. Forma-se uma espécie de carência essencial. Essa insatisfação absoluta, nunca sanada, cobra não só a oferta dos bens, mas requer que os bens sejam dispostos em excesso.” (...) “A cidadania se confunde, então, com o acesso ao consumo, como se a soberania do consumidor prevalecesse e suplantasse todo o resto. Em tal perspectiva, bastaria estender ao sujeito a possibilidade de escolher e consumir bens que estariam, então, resolvidas todas e quaisquer outras necessidades.” (...) “De um capitalismo produtivo, baseado na expansão industrial, geração de emprego e distribuição de renda passou-se para um capitalismo abalizado, fundamentalmente, na especulação financeira e no rentismo. É o mundo rentista que tem estruturado as grandes estratégias do capitalismo contemporâneo, com suas empresas, conglomerados, internacionalizadas e oligopolizadas, sob a égide do sistema financeiro.”  (Páginas 18, 19, 20 e 21).

c)      Crítica aos governos que priorizam a economia em detrimento dos interesses das pessoas e do meio ambiente: “Atualmente, nos países capitalistas o ministro responsável pela pasta econômica dos governos geralmente é a personalidade mais importante, mais referenciada e respeitada que o próprio governante eleito pelo povo. E ainda, nesse modelo global de uma economia que não cuida da Casa Comum, não há nenhum controle público nem na esfera nacional, nem no plano global do capital.” (Página 23).

d)     Numa alusão ao processo de impeachment, crítica às rupturas democráticas: “As muitas transformações vividas em tempos recentes nos enchem de alegria e renovam nossa esperança quanto à possibilidade e à viabilidade de se construir uma sociedade mais fraterna e igualitária. Trazem também muita apreensão, na medida em que se constata que a democracia não é uma instituição que se move de maneira linearmente progressiva. As sociedades podem avançar em direção a uma maior democracia, oferecendo maiores garantias de liberdade e de direitos. Todavia, podem também regredir a modelos oligárquicos e autoritários, herança de outros tempos ainda não totalmente superados.” (Página 25).

e)   Crítica à atuação da mídia no contexto da crise social e política: “A liberdade de expressão e de pensamento é um valor fundamental na sociedade. Todavia, a imparcialidade e a objetividade permaneçam sendo ideais não plenamente alcançados, sobretudo quando na apresentação de um fato já se contém viés ideológico. As instituições políticas são referidas quase sempre de forma negativa. A política é tratada como um espaço em que prevalecem as pessoas sem ética. Por reduzi-la a algo sujo, a mídia contribui para que a população se desinteresse de participar. Nesse processo, ela tem deixado de exercer o papel que poderia favorecer o cidadão no questionamento da ação política, em particular, a feita sem o amparo dos valores éticos. Da forma como parte da mídia tem atuado, ela beneficia certos interesses e não contribui para o incremento da democracia.” (Página 28).

f) Mais um recado ao governo atual: para enfrentar as desigualdades sociais não há espaços para retrocessos: (...) Não há dúvidas de que, frente às desigualdades que ainda imperam na realidade socioeconômica brasileira, não há espaço para retrocessos no campo da ampliação das políticas públicas voltadas para a inclusão e geradoras de igualdade e dignidade das pessoas.” (Página 46).

g)  Um alerta para as formas de dominação e exploração: “Os processos de dominação e exploração, a imposição da vontade de uns sobre outros, as estratégias midiáticas mistificadoras que disseminam a desinformação e propagam de forma arbitrária uma certa visão da história são deformações do percurso da vida social que rompem tal pacto de amizade e de fraternidade e produzem o esgarçamento do tecido social”. (Página 50).

O documento finaliza com um chamamento dos cristão para a defesa da democracia e à construção de uma sociedade mais fraterna:

“Compreender a democracia como uma instituição não implica tratá-la como algo enrijecido e imutável. Democracia é algo que se cria e se recria permanentemente, com vistas ao bem comum. O ideal da civilização do amor não pode existir fora da própria história, que se faz em meio às decisões cotidianas individuais e coletivas. No entanto, jamais se concretizará tal ideal se essas decisões deixam de ter em vista os valores éticos do altruísmo e passam a ser ditadas por interesses egoístas. A sociedade pressupõe a construção de um projeto de vida fundamentado na amizade, tal como sugere a etimologia da palavra socius. Dito de outra forma, a sociedade depende das alianças que, como amigos, fazem entre si os cidadãos. Por essa razão, não pode haver sociedade de fato, sem a existência e a defesa incondicional da fraternidade.” (Página 50).

O texto original do volume 3, “Crises e Superações”, da série “Pensando o Brasil”, pode ser adquirido na íntegra nas Edições CNBB, aqui >>>.


sábado, 2 de julho de 2016

Democracia, tchau querida! O enredo dos golpistas


 Imagine um estado que se autointitula democrático e de direito onde qualquer promotor ou juiz, imbuído de paranoia higienista, xenofóbica, racista ou messiânica resolve, a seu bel-prazer, transformar sua sentença numa forquilha.

Nesse país, as instâncias superiores do judiciário (que poderiam controlar arroubos autoritários de magistrados eivados de interesses) estão covardemente amedrontadas, imobilizadas e/ou submissas ao supremo tribunal midiático e reféns da opinião publicada.

Plutocratas e privilegiados vomitam discursos de ódio, vingança e morte repercutidos em doses cavalares pela imprensa que enterrou os fundamentos do jornalismo e atua como um partido político conservador. 

Junte-se, aqui, o aparato de repressão, historicamente constituído para a manutenção do establishment, a agir, também, de forma seletiva e repressora contra movimentos e lideranças sociais e todos aqueles que ousam denunciar esse estado de coisas. 

E a leis? As leis são meros instrumentos discricionários, usadas pelas elites de uma juristocracia que se posta acima do bem e do mal, para proteger uns e incriminar, perseguir, amedrontar e, no limite, eliminar outros, seletivamente.

Esse é o Brasil atual. 

Aqui, observamos uma coalizão que se articulou a partir das jornadas de junho de 2013, revigorou-se após o pleito de 2014 e, em meio à crise econômica, conseguiu os ingredientes ideais para avançar no inimaginável: emplacar um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, conforme a perícia feita por técnicos do Senado Federal e divulgada nessa semana.

Alavancada por um complô político-parlamentar liderado por políticos vingativos, sem escrúpulos e pueris, tendo o apoio incondicional da mídia, serviçal do rentismo global, de uma justiça seletiva, além de empresários e banqueiros de visão colonialista e autoritária, essa coalizão determinou um enredo: o “jogo jogado” da deposição da presidenta, de forma inescrupulosa e violenta.

Com a conivência e/ou a omissão não menos conivente de segmentos da classe média, grupos de privilegiados ávidos de vingança a vociferarem palavras de ódio em relação à ascensão social dos empobrecidos, essa coalizão venceu o primeiro round da disputa e encontra-se insaciável pela deposição definitiva de uma presidente democraticamente eleita.

A coalização político-midiática-empresarial-policialesca-jurídica ao invés de apresentar um projeto de governo para o país e disputá-lo nas urnas, reimplanta, a fórceps, uma república dos homens de ben$: um governo à serviço do mercado.

O presidente interino não deixa dúvidas acerca dos negócios que representa: ao enviar a Medida Provisória de número 726/2016 ao Congresso deixou claro que seu projeto de poder está alicerçado na extinção de todas as políticas voltadas para a pauta da ampliação dos direitos, assim como a promoção da diversidade sexual e étnica. Para atender aos interesses dos atores mais conservadores destas plagas, tal medida tratou de extinguir todas as secretarias de promoção de direitos e o Ministério do Desenvolvimento Agrário com a desculpa esfarrapada de economia dos gastos públicos. Covardemente, na sequência, aquele que bradava acerca da necessidade de economia concedeu aumentos expressivos aos segmentos mais privilegiados e abastados das carreiras burocráticas e do judiciário. Simbolicamente é como dizer para o povo: de agora em diante, “aos amigos ricos o favor da lei; aos pobres, o rigor da lei.”

Militares já estão à espreita para entrarem em cena, conforme pode-se observar no decreto 8.793, de 29/06, assinado pelo interino Michel Temer e pelo Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) Sergio Westphalen Etchegoyen, o general que afirmou que o trabalho da Comissão Nacional da Verdade foi patético e leviano (veja aqui). 

As medidas regressivas na área social emanadas por um governo ilegítimo, conservador e elitista, apoiado por um Congresso absolutamente dominado por interesses privados e de mercado e um judiciário refém da mídia e da opinião publicada, numa sociedade assolada pela abissal desigualdade social, são tão violentas e autoritárias como a violência das armas nas ditaduras.

Nesta semana, o interino, na iminência de revoltas populares que poderiam pipocar a partir da perda de direitos de beneficiários de programas sociais, resolveu lançar um fantasioso “saco de bondades”. Mas, qualquer analista minimante atento sabe: um governante que não tem escrúpulo de se reunir clandestinamente com um deputado submerso na lama da corrupção não terá nenhuma inquietação em fazer qualquer negócio para garantir seu mandato por mais um ano e meio. E apoiado pelo Congresso mais atrasado e pífio da nossa história, poderá destruir o pouco que foi construído nos últimos anos em termos de proteção, assistência, promoção e amparo social. Sobram-lhe parceiros com a mesma índole nas duas casas legislativas do Congresso.

Para fechar a semana com a “chave de ouro dos usurpadores” tivemos a notícia que o PSDB não se empenhará na cassação de Eduardo Cunha. O que era dúvida agora é inquestionável. Os tucanos entrarão para a história como o partido que nasceu socialdemocrata e se tornou golpista, antissocial e de direita. Seus líderes atuais, enlameados até o pescoço, já não têm nenhum escrúpulo e pudor em acobertar quaisquer alianças alicerçadas nos fins (o poder a qualquer preço), independentemente dos meios.

Infelizmente, os "bons e mansos cristãos da terra de Santa Cruz”, que sempre estiveram alijados das discussões políticas (porque foram levados a acreditar no conto da carochinha segundo o qual política é coisa suja) aceitam cabisbaixos, ainda, e salvo alguns grupos sociais, o açoite que brota robustecido da casa grande, como ocorria outrora. 

Os golpistas fiam-se na velha estratégia da "paz dos túmulos”. Mas, golpistas não passarão!


sábado, 25 de junho de 2016

O deus-dinheiro, o impeachment e a volta da caça às bruxas

Fonte: "A sala de cima" (Internet)

As novas ações midiáticas patrocinadas pela juristocracia tupiniquim (desta vez tendo à frente um pupilo da tresloucada autora do pedido de impeachment), recolocam no debate a questão acerca dos maiores interessados no golpe, esse estupro à democracia brasileira. Cada vez fica mais claro que, para além dos pastelões, corruptos e fanfarrões que abundam no Congresso e no governo interino, os verdadeiros interessados no imediato retorno de nosso país à velha categoria das repúblicas das bananas são os ricos e poderosos. Por isso, é fundamental entendermos o que está por detrás do jogo jogado do impeachment fajuto.

Giorgio Agamben, um dos principais intelectuais contemporâneos, professor em diversas universidades europeias e norte-americanas explicou, em entrevista recente (leia na íntegra, aqui), como funciona a atual fase do capitalismo (concentrador de riqueza, fundamentalmente rentista e excludente, que move todos os interesses, inclusive a determinar os rumos da política e da vida das pessoas). Agamben foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política.

O filósofo Giorgio Agamben
Quando lemos com atenção algumas considerações de Agamben sobre a democracia, por exemplo, entendemos com mais clareza o que está por detrás de afrontas à cidadania em várias partes do mundo, como o golpe em curso no país. Para ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. 


Para manter um empreendimento dito democrático e que, paradoxalmente, produz imensa concentração de renda e riqueza nas mãos do 1% mais ricos em detrimento à dignidade da absoluta maioria das pessoas, o capitalismo, atualmente, sobrevive da fabricação de crises: “Crise e economia atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer! ”.

Neste sentido, explica Agamben, “é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou dinheiro. ”

Nos dizeres do professor Ladislau Dowbor, "a expansão dos lobbies, a compra dos políticos, a invasão do judiciário, o controle dos sistemas de informação da sociedade e a manipulação do ensino acadêmico representam alguns dos instrumentos mais importantes da captura do poder político geral pelas grandes corporações. Mas o conjunto destes instrumentos leva em última instância a um mecanismo mais poderoso que os articula e lhe confere caráter sistêmico: a apropriação dos próprios resultados da atividade econômica, por meio do controle financeiro em pouquíssimas mãos."

Ademais, a associação entre os grandes oligopólios do capitalismo internacional com a manipulação da mídia, serviçal desses grupos, naturaliza todo o tipo de violência real e simbólica contra a democracia:  “É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. ”

No caso brasileiro, a liturgia formal do voto popular deixou de ser um “esquema” a beneficiar os históricos usurpadores das riquezas e do trabalho nacionais e, assim sendo, não mais interessa aos donos do deus-dinheiro respeitar as regras procedimentais da democracia. O resultado eleitoral pode, portanto, ser anulado com desculpas das mais esfarrapadas. Os capachos tupiniquins do grande sistema de corrupção internacional que move o capitalismo atualmente resolveram jogar no lixo as deliberações eleitorais para tocarem um impeachment sem crime de responsabilidade. O que é isso? Simples: é golpe.

Imagem: Internet
Essa percepção acerca do estupro à nossa democracia parece se tornar cada vez mais clara. Mesmo não apreciando certo culturalismo dependente que gosta de bajular as “inteligências” alienígenas como se fossem melhores que a produção da reflexão autóctone, é digno de destaque o fato de, nesta semana, intelectuais de referência em todo o mundo, como os filósofos alemães Jürgen Habermas, Axel Honneth e Rainer Forst, a filósofa norte-americana Nancy Fraser e o filósofo canadense Charles Taylor terem assinado um manifesto internacional de repúdio ao que classificaram como “golpe branco” contra a democracia brasileira. Expressão também já utilizada, mais de uma vez, pelo Papa Francisco. (Veja aqui >>>).

Segundo o manifesto internacional, a oposição no Brasil, formada por partidos de direita, aproveitou-se da crise econômica para levar adiante uma campanha “violenta” contra um governo eleito democraticamente. Por isso, o objetivo do impeachment da presidenta Dilma Rousseff é atacar direitos sociais, desregulamentar a economia e frear as investigações de corrupção.

Noutro documento, com mais de mil assinaturas, artistas e intelectuais estrangeiros também manifestaram solidariedade ao Brasil. O texto diz que os movimentos sociais “estão sujeitos a uma ofensiva política de grande magnitude que leva o Brasil a um período de grande retrocesso democrático” e obscuridade.

Talvez, pelo fato de ameaçar a hegemonia dos donos do capital especulativo e rentista não somente daqui, mas do mundo (haja vista as potencialidades nacionais, como nossas reservas de petróleo e a biodiversidade – ativos valiosíssimos no presente e no futuro), a caçada ao PT voltou com toda a força nesta semana. Curiosamente, depois de uma reunião entre a ninfa justiceira e um ministro interino e, para o delírio dos moralistas sem moral, foram retomados mais uma vez os espetáculos policialesco-midiático-seletivos. Incrivelmente, logo após a divulgação de dezenas de áudios a comprovarem a corrupção endêmica e sistêmica envolvendo o PMDB, o PSDB e o DEM há anos, nestas plagas. A justiça brasileira é uma bênção para os homens e as mulheres de ben$, com cifrão no final.


Não serei eu a defender Paulo Bernardo e ninguém que, eventualmente, tenha praticado atos de corrupção. Mas, até para um idiota político valem as perguntas: alguém já viu ou ouviu falar que a polícia (política) federal tenha vasculhado as sedes nacionais de partidos inúmeras vezes citados em casos de corrupção como o PSDB, DEM, PP, PMDB? Alguém conhece pelo menos um tesoureiro nacional desses partidos que tenha sido investigado? Quantos ministros do governo FHC, flagrados em escutas comprometedoras em diferentes ocasiões, foram conduzidos à prisão, tiveram condução coercitiva ou prestaram depoimentos (cobertos ao vivo pela mídia?) Em síntese: a juristocracia seletiva tupiniquim faz com que o Tomás de Torquemada, no túmulo, sinta-se apequenado.

O fato é que, como nenhum partido conseguiu ganhar quatro eleições seguidas para a Presidência em toda história republicana brasileira (e, não obstante o massacre midiático-justiceiro contra o ex-presidente Lula, uma liderança que continua firme numa provável disputa presidencial futura), o PT ainda é um perigo real e simbólico aos donos do capital internacional e seus capachos daqui e, portanto, deverá ser aniquilado. E o primeiro passo, dado o fracasso da cavalar campanha midiática contra o partido, é consolidar a empreitada golpista.


         Os gigolôs do capitalismo rentista, sacerdotes e sacerdotisas do deus-dinheiro, e seus prepostos das coalizões que articulam o golpe nessas plagas (veja aqui >>>) querem manter o país como eterna colônia. E farão de tudo para trucidar quaisquer pessoas e grupos que se opuserem aos seus intentos.

sábado, 18 de junho de 2016

A MISÉRIA DAS ELITES BRASILEIRAS

Fonte: Facebook.
Como naturalizar e não problematizar a imensa injustiça provocada pelas altíssimas taxas de juros e de spread bancário que oprimem toda uma população em favor de meia dúzia de banqueiros e especuladores? Como entender um golpe travestido de legalidade e abençoado pelos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade, com a conivência cínica de instituições que, a princípio, deferiam se levantar contra toda afronta à Constituição ou a afronta à dignidade dos pobres?

         Jessé Souza, em sua mais recente obra A tolice da inteligência brasileira, ou como o país se deixa manipular pela elite (São Paulo: LeYa, 2015), nos ajuda a entender que a perfeita união entre o economicismo (“a crença explícita ou implícita de que a variável econômica por si esclarece toda a realidade social”) e o culturalismo conservador (uma ciência da ordem que existe para afirmar e legitimar o mundo como ele é) justificam as leituras dominantes e empobrecedoras do debate político brasileiro. Esse é um dos motivos do porque não indignamos com o fato de que “nos bolsos do 1% mais rico da população brasileira está o resultado do trabalho dos 99% restantes”. E isso parece normal, natural, justificável, imutável e academicamente inquestionável.

Para manter esse empreendimento vergonhoso intacto, somente com muita violência simbólica, “que se disfarça de convencimento pelo melhor argumento”. E aqui entra a miséria da nossa ciência. Como já ensinava Max Weber, é preciso que o dominado socialmente se convença de sua inferioridade para que a dominação social seja possível. Neste sentido, “a legitimação científica da dominação fática produz a imagem de sociedades idealizadas de um lado e de sociedades essencialmente corrompidas do outro”. Portanto, “em vez de apontar para as causas reais da concentração da riqueza nas mãos de uns poucos e para a exclusão da maioria, essas concepções de intelectuais servis ao poder e ao status quo nos levam a acreditar que nossos problemas advêm da ‘corrupção apenas do Estado’, levando a uma falsa oposição entre o Estado demonizado, tido como corrupto, e um mercado visto como o reino de todas as virtudes”.

A bem da verdade, as elites nacionais nunca se importaram com a consolidação de um sistema educacional voltado aos interesses da cidadania, com o objetivo de concretizar uma república de fato (para além da formalidade do direito). Conviver pacificamente com essa abissal desigualdade social assistindo em berço esplêndido e impunemente o extermínio de sessenta mil cidadãos por ano (a maioria negros e pobres e parte significativa sendo eliminada por agentes do estado), além de um descomunal cinismo é um dos dados mais evidentes da intensa fragilidade de uma sociedade que nunca foi e não é nem republicana, nem liberal-democrática e cujo Estado nunca foi e não é  de direito (a não ser na formalidade da lei que é manipulada ao bel-prazer de e para poucos). Como dizia Darcy Ribeiro: "o Brasil tem uma classe dominante ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir pra frente!"

As críticas de Jessé Souza acerca do servilismo dos intelectuais brasileiros aos interesses dos poderosos precisam ser consideradas: “Todos os dias indivíduos normalmente inteligentes e classes sociais inteiras são feitos de tolos para que a reprodução de privilégios injustos seja eternizada entre nós. Para enxergar com clareza nosso real lugar no mundo, é fundamental compreender como nossa elite intelectual submissa à elite do dinheiro construiu uma imagem distorcida do Brasil de modo a disfarçar todo tipo de privilégio injusto. Os poucos que hoje controlam tudo precisam desse “exército de intelectuais”, do mesmo modo que os coronéis do passado precisavam de seu pequeno exército de cangaceiros. (...) E produzir “convencimento” é precisamente o trabalho de intelectuais no mundo moderno, substituindo os padres e religiosos do passado.”

Mas, por que o título do livro trata de uma “tolice da inteligência brasileira”?  Porque, segundo o autor, e concordamos com ele, os principais intérpretes do Brasil sempre foram “colonizados até o osso”. Criaram suas teorias sociológicas e políticas a partir do pressuposto de um desenvolvimento socioeconômico relativamente baixo, como próprio das pessoas de sociedades como a nossa e não como resultado de uma estrutura e institucionalidade de distribuição da riqueza (acesso a bens e serviços) extremamente desiguais e excludentes.

A bem da verdade, constata Jessé Souza, a maioria dos cientistas sociais e políticos vê a modernidade como se fosse uma “fábula para adultos”; ou seja, a modernidade descrita como fruto de uma benção divina. Assim, algumas sociedades abençoadas têm pessoas boas que são recompensados (por méritos) com riquezas. Outras, não são abençoadas e têm pessoas más, padecendo do castigo da pobreza.

Neste sentido, no caso da tolice à brasileira, trata-se de criar todo um conjunto de teorias com vistas a confundir a causa (desigualdade extrema associada a “pobreza extrema”) com a consequência (reprodução crônica e ampliada das “doenças” modernas). A partir dessa “confusão”, os tolos, que somos todos nós, acabam vendo subjetividade, ou seja, sociedades melhores, onde na verdade existe objetividade, isto é, sociedades estruturalmente mais ou menos desiguais.

A leitura atenta do livro de Jessé Souza ajuda-nos, entre outras possibilidades de apreensão das muitas mazelas nacionais, a entender um pouco mais sobre a crise política que vivenciamos nos últimos meses. A erosão das instituições políticas somente confirma o que todos sabíamos, mas não queríamos reconhecer: somos uma república das bananas, na qual, salvo exceções, as elites (políticas, econômicas, intelectuais, religiosas e jurídicas) defendem na teoria uma democracia formal, mas não se comprometem na concretização de numa democracia de fato.

A ressaca frustrante dessa democracia de faz-de-c0nta, que não respeita sequer a formalidade dos procedimentos determinados pela Constituição Federal de 1988, foi comprovada no golpe parlamentar-jurídico-empresarial-midiático-elitista em curso no país. No livro, editado no ao passado, o autor já antevia no capítulo “o golpismo de ontem e de hoje: considerações sobre o momento atual”, o que ocorreu, de fato, neste ano.

Construtores e patrocinadores dos contos da carochinha sobre corrupção, isenção da justiça e deficiência do Estado, divulgados em doses cavalares pela mídia (afinal, ninguém é dominado se não aceitar a dominação como algo bom ou devido a sua inferioridade moral), os beneficiários diretos de uma desigualdade que se reproduz de forma ampliada fizeram a sociedade brasileira crer que ela é essencialmente corrupta, devendo, portanto, aceitar passivamente o estupro à democracia apadrinhado por uma elite despudora, chafurdada na lama da corrupção, mas com um discurso higienista, salvacionista e eivado de conservadorismo (social, moral, político e religioso).

Os espertos (ricos, beneficiários diretos da estrutura desigual da sociedade) construíram uma farsa fazendo com que o brasileiro, não abençoado e corrupto por natureza, confiasse que o âmago da corrupção está no Estado e no governo de plantão que gerenciava a máquina pública. Como alter ego da sociedade, a mídia ainda cumpriu o perverso papel de propagar a ideia de negação da política (os políticos, os partidos e a democracia representativa como instituição), bem como repudiar a importância do Estado no seu papel de fundamental como lócus de redução da desigualdade social e suas mazelas, entre elas as violências real e simbólica.


Tudo bem arquitetado, assistimos ao golpe elitista reposicionando novamente para o centro das decisões do Estado aquele 1% mais rico, que controla a riqueza e o poder; que tem nas mãos todo o sistema de manipulação da opinião publicada transformada em opinião pública; que tem no sistema de justiça conservador  e seletivo parceiro de primeira hora; que não paga imposto (porque no Brasil os lucros de capital são isentos de tributos) e que, historicamente, sempre usurpou do trabalho e do suor dos 99% dos brasileiros, principalmente dos 70% dos trabalhadores e empobrecidos. E todos, como marionetes, assistimos ao espetáculo sem perceber que os mesmos de sempre pagarão a conta do banquete dos poderosos. 

sábado, 11 de junho de 2016

Ganhar as mentes e os corações e enterrar o golpe



A história recente do Brasil mostra que é preciso convencer as mentes e amolecer os corações para que a indiferença em relação à desigualdade e injustiça social se transforme em ação política capaz de incidir nas mudanças institucionais.

Em 2002, Lula conseguiu convencer mentes e corações acerca da absurda convivência com a miséria e a corrupção naturalizadas em nossa sociedade. E foi eleito presidente. Naquele momento, o PT se tornou hegemônico na constituição de uma coalização mudancista.

Porém, ao longo dos anos o governo petista, embriagado pela mosca azul do poder, deixou-se contaminar, em parte, pelos maus-feitos historicamente perpetrados pelas elites econômicas e políticas deste país. Foi perdendo, paulatinamente, o apoio das esquerdas e daqueles segmentos progressistas que exigem ética e coerência no trato da coisa pública.

Desde 2013, com as jornadas e junho e  durante o processo eleitoral de 2014, numa disputa real e simbólica, observamos a tomada das ruas pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira, nas manifestações domingueiras promovidas pela mídia.  Porém, desde o ano passado, com o recrudescimento das disputas políticas, as esquerdas e os movimentos sociais progressistas começaram a esboçar uma reação.

Num cenário de corrosão econômica e “endireitamento” do Parlamento chegamos ao impensável golpe que culminou na assunção de um governo ilegítimo de homens ricos, brancos e corruptos: uma caricatura de nossas elites sociais, políticas e econômicas.

Ao mesmo tempo em que o PT perdia a hegemonia da esquerda, foi-se constituindo uma ampla coalização que se concretiza, como observamos na última manifestação deste 10 de junho, numa resposta pujante na defesa da democracia e suas regras procedimentais e contra a superestrutura do golpe, formada pelas elites políticas, sociais e empresariais, com apoio dos segmentos judiciais e midiáticos.  

As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo foram se somando a outros segmentos sociais que, com a assunção do governo golpista, se unem contra a agenda neoliberal, conservadora e entreguista que tenta destruir não somente um partido político (PT) e uma governante legitimamente eleita (Dilma), mas fundamentalmente a consolidação da democracia e a construção de um país mais justo e igualitário.

A total ausência de notícias sobre as manifestações deste 10 de junho na mídia golpista não sinaliza somente a má-fé dos promotores do golpe, mas, fundamentalmente, o desespero dos setores golpistas à medida que a empreitada conservadora vai sendo desmascarada e aumenta a mobilização social em prol da democracia e contra o governo interino. E isso não ocorre somente no território nacional. Temos informações de manifestações a denunciarem o golpe em várias partes do mundo, envolvendo uma classe média progressista e diversos campos sociais (intelectuais, artistas, militantes políticos, etc.).

As manifestações desse 10 de junho mostraram, claramente, que os setores progressistas da sociedade começaram a ganhar os corações e as mentes dos brasileiros. Aos poucos, todos os brasileiros e brasileiras vão percebendo que governo provisório é péssimo para os trabalhadores, os pobres, os aposentados, os segmentos vulneráveis e também para a classe média que, a curto prazo, pagará o preço de uma política concentradora de riqueza e renda nas mãos de poucos.

Precisamos mostrar que o governo golpista ataca as políticas sociais em vez de taxar os mais ricos. É preciso demonstrar, com toda a clareza, a farsa construída através de perversa tramoia que destituiu uma presidenta legítima e colocou em seu lugar um gabinete cujo programa é o oposto do que foi decidido nas urnas, em 2014. É imperioso mostrar que a presidenta Dilma, mesmo com falhas, fez um governo sério num quadro de endireitamento do Parlamento, aguda crise econômica e traições das mais perversas.

É claro que não estamos em 2002, mas se essa “onda” de esperança num país de e para todos e todas continuar espraiando para dentro e fora do Brasil teremos condições de reverter o golpe e recolocar o país nos trilhos da democracia.

Povo nas ruas e ideias novas precisam se articular num denominador comum da luta para reverter o golpe.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A mídia, o golpe e a pseudoguerra do bem versus o mal




À medida que o poderio econômico foi dominando a mídia, muitos “profissionais da pena” foram se subjugando aos interesses patronais e outros se transformando em animadores de auditório. Parte do jornalismo, ator político relevante na formação da “opinião pública”, tem se contentado com o apequenado papel de ventríloquo.

Presenciamos no Brasil uma incestuosa relação no universo da comunicação de massa: de uma maneira geral, o jornalismo domado às conveniências do grande capital sucumbe aos ditames dos donos dos oligopólios empresariais e midiáticos que determinam o que deve ser pautado, como, quando, de qual forma, com qual recorte e viés, assim como o que deve ser publicado (melhor dizendo, publicizado — dado que a produção da notícia se transformou ora em mercadoria, ora em produto de entretenimento). Assim, o jornalismo dos grandes veículos de comunicação decompõe-se em espetáculo, muitas vezes grotesco, a ser vendido de forma sensacionalista, eivado de interesses de classe, para o deleite do telespectador-consumidor desavisado.

Numa afronta colossal ao direito humano à comunicação, as grandes redes de mídia e as poderosas agências noticiosas escolhem, selecionam, manipulam e determinam o que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião pública.

Há muito se questiona a isenção e a imparcialidade dos meios de comunicação. Por um lado, em virtude das relações imbricadas e promíscuas que envolvem os donos dos veículos (muitos dos quais, editores de suas empresas de comunicação; outros tantos, políticos herdeiros da velha estrutura colonial e familiar) com setores conservadores, elitistas e golpistas; por outro, pela fragilidade de parte de seus quadros profissionais, submissos (e impotentes) frente às determinações patronais. Quem perde com essa situação é a democracia que deixa de ter na imprensa o contraponto às mazelas sociais, econômicas e políticas.

Acompanhamos, com perplexidade e surpresa, a cobertura que a mídia tem dado às denúncias de corrupção que assolam frequentemente nossa República. A imprensa tem desprezado o aprofundamento das informações e demonstrado discricionariedade e seletividade na cobertura. A guerra do bem  versus  o mal reproduz o velho estilo maniqueísta (uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que dividido em dois, reduzindo os fenômenos humanos e sociais a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo; sendo que a simplificação nasce da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e/ou da pressa de entender e refletir sobre a complexidade de tais fenômenos.).  Quase não se fala, por exemplo, sobre os corruptores, os donos do capital e os interesses econômicos por detrás dos políticos e empresários corruptos. E que a corrupção não é obra brasileira. Trata-se de uma grande engenharia multinacional, construída para manter e fazer funcionar o capitalismo rentista.

Somos bombardeados com um vendaval de informações pontuais, muitas vezes descontextualizadas, passando a (falsa) impressão, por exemplo, de que todos são, essencialmente, corruptos e desonestos quando, na verdade, o discurso do combate à corrupção funciona como lenitivo de salvaguarda da elite empresarial-midiática-política, historicamente envolvida até o pescoço com os malfeitos. Os brasileiros e brasileiras não são corruptos por essência, como a mídia quer que acreditemos. Mas nossas elites o são. Esse é o ponto. Essa mentira vendida como verdade (de que todos são, indistintamente, corruptos) tem provocando um misto de histeria coletiva de caça às bruxas, expressa na raiva, ódio e desilusão em relação ao sistema político e provocado um imobilismo cívico – a ideia de que este país não tem conserto. Portanto, entreguemo-lo para os ratos.

Outro fenômeno que ressurgiu a partir das manifestações de 2013 e se recrudesceu nas últimas eleições, em 2014, foi um misto difuso de ódio e vingança, fazendo da disputa eleitoral uma verdadeira guerra, quando o processo democrático da escolha dos representantes deveria ser tão e somente um embate civilizado e respeitoso de ideias, opiniões e pontos de vista sobre os rumos do país. A quem interessa um país no qual os cidadãos têm nojo da política?

Frente a tanta (des)informação parece que estamos perdidos; que ninguém é honesto; que não vale a pena lutar pela ética, a verdade, a justiça. A mensagem subliminar seria, então, que vale a pena ser desonesto e chafurdar-se nas pequenas corrupções do dia a dia? É essa a mensagem sub-reptícia que nos é passada por essa mídia venal e fascista?

O pior dos mundos é quando os cidadãos não reconhecem na ética, na verdade, na mobilização social e na luta política os caminhos para as mudanças.

O filósofo e cientista político esloveno Slavoj Žižek  nos ajuda a pensar algo muito importante: a unificação de todos os nossos medos (e/ou discursos do medo) numa (falsa) verdade é o grande objetivo que sempre moveu os ideais dos mais conservadores. Essa estratégia justificou o nazismo (os nazistas tinham horror dos judeus, dos homossexuais...) ou o golpe civil-militar de 1964 (medo do comunismo), por exemplo. E, agora, justifica a assunção de uma quadrilha ao poder. Depois de transformar uma mentira numa verdade (que somente o PT e seus quadros são corruptos), a mídia brasileira liderou a gangue que estuprou nossa democracia. Não é mera coincidência o fato de o sistema de justiça desdenhar os estupros reais, como o ocorrido no Rio de Janeiro, daqueles simbólicos, não menos violentos, como o ocorrido com nossa democracia. A justiça, enquanto sistema, não existe para produzir justiça; senão, para corroborar os intentos e perversões dos poderosos.

O fato, é que a soma dos muitos medos (os verdadeiros ou aqueles construídos no imaginário social) é o ambiente propício para se criar um clima de pânico, instalar a desconfiança generalizada, propagandear uma insatisfação irracional. A partir daí, pode-se construir os pseudo-heróis "salvadores da Pátria"; justifica-se o injustificável; elegem-se os bodes expiatórios lançando-os à fogueira, na condenação midiática para o gozo sempiterno de uma massa amorfa, porque sempre apartada da política.

Mesmo nos regimes ditos democráticos, a construção orquestrada do medo pelos segmentos cujos privilégios são colocados à prova pavimenta atalhos fáceis para o golpismo. Mas, voltemos a Žižek:  a partir da unificação dos medos é fácil acatar como verdade inequívoca o discurso do ódio, da violência, da eliminação a qualquer custo daquele que encarna os males e seus seguidores.

Outro problema político vergonhoso, camuflado nesse cenário, é a intolerância, o racismo, o sectarismo religioso, o preconceito – principalmente de matrizes étnica e socioeconômica -, o fascismo disfarçado de nacionalismo. Esses "demônios" saíram do armário (porque lá sempre estiveram) e seus adeptos (que comportam como massa acéfala) querem se impor, afrontando a democracia.

Infelizmente, alguns privilegiados de ontem e de hoje não aceitaram uma sociedade que caminhava, a passos lentos, na construção da igualdade de fato, para além da igualdade de direito. Querem se manter como diferentes, ostentando os velhos privilégios da Casa Grande. Por isso, preferem morar em Miami. Não conhecem a verdadeira história deste país, porque a conquista de direitos, mesmo lenta e gradual, é irreversível em qualquer sociedade minimamente democrática e plural.

A igualdade de direitos faz parte do processo de consolidação da cidadania e é fundamento da democracia. Não há democracia numa sociedade estamental, como era o Brasil até bem pouco tempo. E não há democracia quando a mídia se transforma em partido político a fomentar e dar suporte ao golpe e, agora, transformando-se em porta-voz do governo golpista.