Democracia, tchau querida! O enredo dos golpistas


 Imagine um estado que se autointitula democrático e de direito onde qualquer promotor ou juiz, imbuído de paranoia higienista, xenofóbica, racista ou messiânica resolve, a seu bel-prazer, transformar sua sentença numa forquilha.

Nesse país, as instâncias superiores do judiciário (que poderiam controlar arroubos autoritários de magistrados eivados de interesses) estão covardemente amedrontadas, imobilizadas e/ou submissas ao supremo tribunal midiático e reféns da opinião publicada.

Plutocratas e privilegiados vomitam discursos de ódio, vingança e morte repercutidos em doses cavalares pela imprensa que enterrou os fundamentos do jornalismo e atua como um partido político conservador. 

Junte-se, aqui, o aparato de repressão, historicamente constituído para a manutenção do establishment, a agir, também, de forma seletiva e repressora contra movimentos e lideranças sociais e todos aqueles que ousam denunciar esse estado de coisas. 

E a leis? As leis são meros instrumentos discricionários, usadas pelas elites de uma juristocracia que se posta acima do bem e do mal, para proteger uns e incriminar, perseguir, amedrontar e, no limite, eliminar outros, seletivamente.

Esse é o Brasil atual. 

Aqui, observamos uma coalizão que se articulou a partir das jornadas de junho de 2013, revigorou-se após o pleito de 2014 e, em meio à crise econômica, conseguiu os ingredientes ideais para avançar no inimaginável: emplacar um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, conforme a perícia feita por técnicos do Senado Federal e divulgada nessa semana.

Alavancada por um complô político-parlamentar liderado por políticos vingativos, sem escrúpulos e pueris, tendo o apoio incondicional da mídia, serviçal do rentismo global, de uma justiça seletiva, além de empresários e banqueiros de visão colonialista e autoritária, essa coalizão determinou um enredo: o “jogo jogado” da deposição da presidenta, de forma inescrupulosa e violenta.

Com a conivência e/ou a omissão não menos conivente de segmentos da classe média, grupos de privilegiados ávidos de vingança a vociferarem palavras de ódio em relação à ascensão social dos empobrecidos, essa coalizão venceu o primeiro round da disputa e encontra-se insaciável pela deposição definitiva de uma presidente democraticamente eleita.

A coalização político-midiática-empresarial-policialesca-jurídica ao invés de apresentar um projeto de governo para o país e disputá-lo nas urnas, reimplanta, a fórceps, uma república dos homens de ben$: um governo à serviço do mercado.

O presidente interino não deixa dúvidas acerca dos negócios que representa: ao enviar a Medida Provisória de número 726/2016 ao Congresso deixou claro que seu projeto de poder está alicerçado na extinção de todas as políticas voltadas para a pauta da ampliação dos direitos, assim como a promoção da diversidade sexual e étnica. Para atender aos interesses dos atores mais conservadores destas plagas, tal medida tratou de extinguir todas as secretarias de promoção de direitos e o Ministério do Desenvolvimento Agrário com a desculpa esfarrapada de economia dos gastos públicos. Covardemente, na sequência, aquele que bradava acerca da necessidade de economia concedeu aumentos expressivos aos segmentos mais privilegiados e abastados das carreiras burocráticas e do judiciário. Simbolicamente é como dizer para o povo: de agora em diante, “aos amigos ricos o favor da lei; aos pobres, o rigor da lei.”

Militares já estão à espreita para entrarem em cena, conforme pode-se observar no decreto 8.793, de 29/06, assinado pelo interino Michel Temer e pelo Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) Sergio Westphalen Etchegoyen, o general que afirmou que o trabalho da Comissão Nacional da Verdade foi patético e leviano (veja aqui). 

As medidas regressivas na área social emanadas por um governo ilegítimo, conservador e elitista, apoiado por um Congresso absolutamente dominado por interesses privados e de mercado e um judiciário refém da mídia e da opinião publicada, numa sociedade assolada pela abissal desigualdade social, são tão violentas e autoritárias como a violência das armas nas ditaduras.

Nesta semana, o interino, na iminência de revoltas populares que poderiam pipocar a partir da perda de direitos de beneficiários de programas sociais, resolveu lançar um fantasioso “saco de bondades”. Mas, qualquer analista minimante atento sabe: um governante que não tem escrúpulo de se reunir clandestinamente com um deputado submerso na lama da corrupção não terá nenhuma inquietação em fazer qualquer negócio para garantir seu mandato por mais um ano e meio. E apoiado pelo Congresso mais atrasado e pífio da nossa história, poderá destruir o pouco que foi construído nos últimos anos em termos de proteção, assistência, promoção e amparo social. Sobram-lhe parceiros com a mesma índole nas duas casas legislativas do Congresso.

Para fechar a semana com a “chave de ouro dos usurpadores” tivemos a notícia que o PSDB não se empenhará na cassação de Eduardo Cunha. O que era dúvida agora é inquestionável. Os tucanos entrarão para a história como o partido que nasceu socialdemocrata e se tornou golpista, antissocial e de direita. Seus líderes atuais, enlameados até o pescoço, já não têm nenhum escrúpulo e pudor em acobertar quaisquer alianças alicerçadas nos fins (o poder a qualquer preço), independentemente dos meios.

Infelizmente, os "bons e mansos cristãos da terra de Santa Cruz”, que sempre estiveram alijados das discussões políticas (porque foram levados a acreditar no conto da carochinha segundo o qual política é coisa suja) aceitam cabisbaixos, ainda, e salvo alguns grupos sociais, o açoite que brota robustecido da casa grande, como ocorria outrora. 

Os golpistas fiam-se na velha estratégia da "paz dos túmulos”. Mas, golpistas não passarão!


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