quarta-feira, 16 de março de 2016

Lula e a superação do jogo no qual todos perdem


 A entrada de Lula no governo Dilma é motivo de críticas ácidas à direita e à esquerda. Para alguns, trata-se de “tábua de salvação”; para outros, o começo, para valer, de um governo que atende as demandas de setores da esquerda. Uma liderança que colocará em prática o plano de governo apresentado por Dilma aos brasileiros na campanha de 2013.

O fato objetivo é que, até agora, o aprofundamento da Operação Lava-Jato (que começou muito bem, mas depois bandeou para a discricionariedade e arbitrariedade, com ações seletivas do juiz Sérgio Moro, a omissão na correção de rumos pelos tribunais superiores, a cobertura enviesada e criminosa da mídia nativa e a radicalização dos discursos) derivou numa enorme erosão do sistema político. E, na democracia, a anulação das instituições políticas abre caminho para todo o tipo de aventura.

A bem da verdade, todos estão perdendo com a situação atual. Ao contrário da papagaiada midiática, que só atribui perdas para o PT, Lula e Dilma, o fato é que as oposições não têm projeto de país e agenda capaz de suplantar a devastação político-econômico-ética e encontra-se na mesma situação de desespero. Nesse caos, perdem também as empresas, com o aprofundamento da crise econômica; perde a sociedade (e principalmente os mais pobres) com o aumento da inflação, desemprego, etc. Somente um cego político ou um “fiel de partido”, incapaz de enxergar para além do próprio nariz, pode aplaudir esse jogo no qual todos, indistintamente, estão perdendo. Inclusive, o sistema de justiça, cada vez mais questionado e deslegitimado pela ação inconsequente de alguns magistrados e membros do Ministério Público, amparados, como sempre, pelo sistema policial da casa grande.

A delação de Delcídio acabou com as esperanças de alguns próceres da oposição de saírem ilesos dessa guerra de destruição de instituições e de reputações. É hora de negociar uma saída política e ética para o país.

Pois bem: Lula, com seus defeitos e qualidades, tem ainda um grande capital político. Não obstante a desconstrução fascista de sua imagem pela mídia e por setores obtusos da oposição, pesquisas de opinião não deixam dúvida de sua liderança. E uma das virtudes de Lula é, exatamente, sua capacidade de negociação. Até mesmo as oposições reconhecem seu carisma nessa ceara.

Não esperemos por milagres. Nem atribuamos a Lula a missão quixotesca de resolver sozinho o imbróglio atual. Mas, a sua entrada em cena poderá serenar os ânimos. 

E, se os principais atores políticos tiverem um pouco de juízo e pensarem no Brasil, e não nos seus interesses pessoais, corporativos ou imediatos, o ex-presidente poderá se tornar peça fundamental na costura de uma aliança para a superação da crise pela via da política, ao invés da saída judicial ou policial.

Todos poderão ganhar. Inclusive as oposições que terão tempo para saírem do furacão e do discurso vazio, oportunista e virulento e, com responsabilidade, poderão elaborar um projeto para o país. E disputa-lo no tempo certo; ou seja, nas eleições de 2018.

Por fim, não podemos aceitar que um juiz de primeira instância pode tudo, inclusive violar a lei, impunemente. Será que as instâncias superiores do judiciário (que poderiam controlar arroubos autoritários) estão covardemente amedrontadas e imobilizadas pelo tribunal supremo midiático e reféns da opinião publicada? Se isso ocorre, a justiça brasileira está flertando com a ditadura da toga.

Se quisesse agir dentro da legalidade, o Sérgio Moro sequer autorizaria a gravação. E, no limite da irresponsabilidade, enviaria a gravação para o STF analisar e tomar providências. 

Na democracia, a imprensa, notadamente a rede globo, e o judiciário não são partidos políticos.

Sérgio Moro quer fazer justiça com as próprias mãos. Comporta-se como um fora da lei. Isso é inaceitável e repugnante!

Lembrar de Ruy Barbosa é importante: "a pior ditadura é a do judiciário".





Bartira Macedo de Miranda Santos: A caça ao Lula, o combate à corrupção e o juiz que está escrevendo o epitáfio do direito processual penal brasileiro


A próxima cartada de um dos segmentos da coalizão conservadora, a casta jurídica, virá, em breve, via OAB. O novo presidente da entidade e boa parte dos presidentes das seccionais querem o impeachment a qualquer custo. 

Ainda bem que a casta jurídica não comporta todos os advogados e advogadas. Muitos, inclusive dentro da OAB (que tem importantes contribuições à democracia brasileira), como a querida amiga Bartira Macedo De Miranda Santos pensam e agem para além dos interesses corporativos e na defesa do estado democrático e de DIREITO (para todos e todas). 

Por isso, sugiro seu excelente artigo:

Por Bartira Macedo de Miranda Santos – 16/03/2016
Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar…
O espetáculo midiático que se tornou os processos da chamada Operação Lava Jato, com sistemáticas violações ao devido processo legal desde o seu início, e que culminou com a transmissão ao vivo da condução desnecessariamente coercitiva do ex-Presidente da República Federativa do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, e o desastroso pedido de sua prisão preventiva, nos mostra que, ao menos para o processo penal, a Idade Média não terminou. Está-se a reproduzir uma estrutura de poder penal inquisitorial em que, escolhido o acusado, passa(va)-se a procurar as provas da sua culpa e, em seguida, a executar a sentença de morte (real ou simbólica), exatamente como se caçavam as bruxas. Milhares delas foram julgadas, condenadas e mortas. Para os inquisidores daquela época, havia na bruxaria um perigo muito grande, que precisava ser combatido e eliminado. A emergência do combate ao mal, representado pelas bruxas, abria caminho para o exercício do poder de punir sem limites, para toda sorte de atrocidades e violações. Atualmente, a bruxaria é substituída pelo combate à corrupção.
O objetivo deste artigo é indagar se, após a denominada operação Lava Jato, ainda teremos uma parte do ordenamento jurídico brasileiro ao qual poderemos chamar de “Direito Processual Penal”, caracterizado pelos devidos limites ao poder punitivo.
A caça às bruxas
Os historiadores das ideias penais atribuem a Heinrich Kramer e James Sprenger a proeza de terem instaurado a primeira estrutura discursiva do poder punitivo. Isso porque o livro Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras ou Martelo das Bruxas), escrito entre 1485 e 1486, o terrível manual dos inquisidores, ensinava como reconhecer uma bruxa, como combater os malefícios causados por elas e como julgá-las. Evidentemente, nos dias atuais, não parece crível a existência de bruxas, mas, no século XV, duvidar da existência delas era crime de heresia; aquele que ousasse defender uma mulher acusada de bruxaria, tornava-se, necessariamente, acusado de ser seu cúmplice. Muitos maridos, filhos e pais foram mortos tentando defender suas esposas, mães e filhas. Havia uma histeria coletiva. O livro foi best-seller durante mais de duzentos anos, tempo no qual foi o mais publicado depois da Bíblia. Estima-se que foram vendidos cerca de trinta mil exemplares nos países de língua inglesa, espalhando-se como uma praga. É, pois, o livro que apresenta um primeiro discurso punitivo integrado (que(m) punir, porque punir e como punir) e que instaura uma estrutura discursiva que ainda hoje persiste, consubstanciado na busca da verdade e na luta do bem contra o mal/pecado/crime, diante de uma grave emergência que põe em perigo toda a sociedade.
As bruxas eram, sobretudo, mulheres livres,  que expressavam poder, detentoras de saberes médicos, políticos ou religiosos, velhas, viúvas, solteiras, camponesas, parteiras ou curandeiras, conhecedoras de ervas e anatomia, e que, diante de algum insucesso ou catástrofe, eram acusadas de serem culpadas por, p. ex., crianças que nasciam mortas, tempestades, pragas, doenças, corrupção ou, simplesmente, de dançarem nua à luz do luar ou de voarem à noite. Tudo isso era considerado indício de bruxaria e bastava uma notícia vaga de que em tal lugar existia bruxa para dar início a um procedimento.
A primeira parte do Malleus Maleficarum apresenta argumentos e evidências que provam a existência das bruxas. A segunda parte, ensina o clero como reconhecer a bruxaria em sua própria comunidade. A terceira parte, a mais infame de todas, constitui um verdadeiro manual jurídico, um guia prático de como acusar, torturar, condenar e matar uma bruxa. Na maior parte, não bastava enterrá-las. Era preciso queimá-las e espalhar as suas cinzas para que não emergissem das sepulturas. Há vários casos em que as filhas também eram acusadas e queimadas tais como suas mães, pois se acreditava que desde cedo toda filha de bruxa era iniciada nas artes da feitiçaria.
Henrry Kramer mais tarde ficou conhecido como o mestre da manipulação. Ele foi o verdadeiro autor doMalleus Maleficarum e inseriu o nome de James Sprenger, uma autoridade eclesiástica, para impingir credibilidade ao livro. Kramer também falsificou uma “nota de aprovação” da Universidade de Colônia, Alemanha. Kramer ainda inseriu no livro, a Bula do Papa Inocêncio VIII, que ele comprou no ano de 1484, que não faz nenhuma referência ao Malleus Maleficarum, mas que conferia aos autores Henry Kramer e James Sprenger amplos e ilimitados poderes para prender e punir qualquer pessoa, de qualquer classe social, sem qualquer impedimento. Tais poderes eram necessários – diziam – para afastar os obstáculos que tornam morosos a “boa” obra dos Inquisidores, empenhados em não deixar viver nenhuma bruxa. O “sucesso” do livro ajudou a enviar 60 mil vítimas à morte.
O fato é que o Malleus Malleficarum é um dos livros mais ultrajantes da história da humanidade e não podemos esquecer que as mulheres torradas nas fogueiras da Inquisição o foram sob acusações que hoje sabemos vis e que haviam muitos outros interesses religiosos, políticos, econômicos e estruturais por detrás de cada acusação de bruxaria e de cada comunidade atingida pelo pânico do medo das bruxas, seus julgamentos e condenações atrozes. Estava sendo moldada a sociedade moderna patriarcal e a correspondente submissão das mulheres.
Quando cessou a caça às bruxas, no século XVIII, houve grande transformação da condição feminina. Conforme Rose Marie Muraro, a sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição. É com a caça às bruxas que se normatiza o comportamento de homens e mulheres, tanto na área pública como no domínio privado. No final do século XVIII, a sociedade de classes já está constituída, com trabalhadores dóceis e que não questionam o sistema.
O combate à corrupção
Os discursos legitimadores do poder punitivo da Idade Média ainda permanecem e podemos percebê-los cada vez que se quer justificar a violação de direitos de determinada pessoa ou grupos. Embora haja transformações no seu conteúdo, trata-se de uma estrutura discursiva que não muda. Nas palavras Zaffaroni:
Desde a Inquisição até hoje os discursos foram se sucedendo com idêntica estrutura: alega-se uma emergência, como uma ameaça extraordinária que coloca em risco a humanidade, quase toda a humanidade, a nação, o mundo ocidental etc. e o medo da emergência é usado para eliminar qualquer obstáculo ao poder punitivo que se apresenta como a única solução para neutralizá-lo. Tudo que se quer opor ou objetar a esse poder é também inimigo, um cúmplice ou um idiota útil. Por conseguinte, vende-se como necessária não somente a eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou obstaculizam o poder punitivo, em sua pretensa tarefa salvadora.
O discurso de combate à corrupção, por exemplo, assim como a “caça às bruxas” e todo discurso bélico no interior do sistema punitivo, encerra um sufocamento das liberdades individuais e o aniquilamento das garantias processuais devidas a toda pessoa humana. A função política do juiz penal seria a de justamente conter esses arbítrios e garantir o devido processo legall. Afinal, não podemos exigir dos criminosos que não cometam crimes, mas é de se esperar que os agentes da lei a cumpram.
Contra as trevas da justiça penal da Idade Média ergueu-se todo um arcabouço teórico após o Iluminismo, e, a partir, principalmente, da obra de Marques de Beccaria, Dos delitos e das penas, de 1764, passou-se a cultivar um direito penal liberal e um processo penal de feição acusatória, com regulação e devida limitação ao poder punitivo, conferindo direitos e garantias aos acusados. Desde o Código Criminal do Império do Brasil, de 1830, e o Código de Processo Criminal do Império do Brasil, de 1832, o nosso Direito tem, formalmente, inspiração liberal; embora, na prática, a lei sempre tenha feito o controle social penal da senzala e dos que saíram dela. No entanto, nunca faltou a luta pela efetivação dos direitos, pela liberdade, pela igualdade e pelo fim da opressão das classes sociais mais desfavorecidas. Tampouco estamos a salvo de golpes que ponham em perigo os parcos passos dados em direção a uma sociedade efetivamente democrática.
Porém, ao invés de se ampliar as garantias e a efetividade dos diretos individuais no interior do sistema penal para a universalidade dos réus, nos procedimentos da “Lava Lajato” está-se distribuindo violação de direitos para os “vips” (políticos e classes dominantes), recém alcançados pelo sistema de justiça criminal. A histeria coletiva que se apropria do discurso do combate à corrupção, vendido pela mídia como o grande problema nacional, que, dizem, põe em perigo toda a nação, vai justificando a mitigação dos direitos individuais e o recrudescimento do sistema penal em prejuízo do corpo social e de sua capacidade de se opor ao arbítrio judicial.
O que caracteriza o poder punitivo é justamente o exercício da força sobre o “outro”, considerado como perigoso e inimigo da sociedade; sem limites, chegamos à completa barbárie ou a estágios pouco civilizados, sem predomínio do Estado de Direito. A emergência do combate à corrupção está sendo o pretexto para a violação das leis e da Constituição. Mas, afastado o Estado Democrático de Direito, está aberto o caminho para que o sistema penal seja utilizado para interferir nos rumos políticos do país. O combate à corrupção passou a ser o grande pretexto para um golpe de estado.
Pois bem, em artigo publicado no dia 26/02/2016, o atual presidente do Conselho Federal da OAB, Claudio Lamachia, acredita que estamos em uma encruzilhada: ou acabamos com a corrupção, ou ela acaba com o Brasil. Nesse ponto ele tem razão: não parece possível acabar com a corrupção, mas é possível que o combate à corrupção acabe com as estruturas democráticas do Brasil. Segundo ele, é preciso “passar o país a limpo e depurar a classe política” e “esta é uma oportunidade ímpar para estabelecermos um novo padrão ético em nossa política e sociedade”. Anunciando um novo apocalipse, encerra o artigo apresentando-se para defender os interesses da sociedade, sem bandeiras partidárias. Resta-nos indagar quem faz parte da sociedade que ele se compromete a defender e que governo serviria a essa sociedade senão o que foi legitimamente eleito. Acaso estava se anunciando uma nova era?
Eis que o tom escatológico se confirmaria em seguida. Em seu discurso de posse, Claudio Lamachia anunciaum novo contrato social e insiste que precisamos da depuração da política nacional. Afirma que “algo deve ser feito, e rápido”. Afinal, “não podemos perder tudo o que, a duras penas, construímos até hoje”. E mais: “Colegas, a vida nos ensina que há uma hora de partida mesmo quando não há lugar certo para onde ir. É o marchar da história, é o caminhar da humanidade. Devemos dar o primeiro passo! A hora do Brasil começar a superar essa paralisia é agora!”.
Extremamente intrigante o discurso do novo Presidente da OAB, lido agora, alguns dias após a notícia da ilegal e abusiva condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o posterior tragicômico pedido de prisão. Enquanto o país, atônito, tentava compreender o que se passava, o Presidente da OAB protocolava um pedido de cópia da Delação Premiada do senador Delcídio do Amaral, que sequer havia sido homologada pelo STF; apressava-se em buscar subsídios para um possível pedido de impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Muitos lamentam o fim das fogueiras! O Presidente da OAB demonstra-se decidido pelo impeachment, resta apenas encontrar um fundamento.
O discurso de posse do presidente da OAB, prevendo tempos difíceis, já convocava a advocacia brasileira a cerrar fileiras com a OAB Nacional para “retornarmos a tradição brasileira de conciliação nacional”. Como quem previsse um clima de guerra, o presidente decretava: “o nosso compromisso é reunificar o Brasil”. Como assim, o país está dividido? Diz: “Está na hora de colocarmos todos os atores da sociedade brasileira na mesma mesa para conversar”. Ora, que atores? Mas não é só. “Que o Ministério Público faça a sua parte, apurando as responsabilidades civis e criminais”, “que o cidadão brasileiro faça seu dever de casa e expurgue da vida política todos aqueles políticos que não honraram a sua confiança”, “enquanto isso o Brasil tem que avançar”, “seguir em frente”. E ainda faz referência a uma guerra civil: “da sangrenta Guerra Civil norte-americana se extraiu a síntese daquilo que mais tarde se tornaria a nação mais poderosa do planeta”. E arremata: “Todos teremos que inicialmente perder um pouco para mais adiante todos ganharmos muito”. Por fim: “É hora de mudarmos os destinos do Brasil”.
O Presidente da OAB, instituição que tem por tradição defender as liberdades democráticas e as garantias fundamentais, num primeiro momento defendeu a legalidade da condução coercitiva do Ex-Presidente Lula. Diante da perplexidade da comunidade jurídica, de feição democrática, voltou atrás no dia seguinte, quando afirmou que a condução coercitiva foi desnecessária e que “não se combate o crime cometendo outro crime, que é o descumprimento das leis”.
Outros juristas tiveram falas imediatas bem mais corajosas e enfáticas na defesa do Estado Democrático de Direito. Enquanto uma legião de bestializados comemoravam a coerção do Ex-presidente, os processualistas começaram e explicar o absurdo da ilegalidade que se praticava.
O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, foi enfático: “Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado”. Colocando os pingos nos “is”, o Ministro afirmou que a condução coercitiva foi um ato de força, o que é um grande retrocesso. Juízes não são legisladores, nem justiceiros. Não se avança atropelando as regras básicas.
Dizer que o ato praticado pelo juiz Moro foi um ato de força significa dizer mais que um ato não dotado de legalidade. Muito menos se trata de uma dissidência doutrinária. Não foi um ato construído a partir de uma interpretação mais autoritária da literalidade legal, como vinham parecendo as decisões dos processos que envolvem a Lava Jato, confirmadas pelos tribunais. Ao contrário, expressa um julgador que não considera e não se vincula ao ordenamento jurídico ao qual ele deveria estar submetido. Um ato de força é um ato arbitrário, um ato de poder, bem típico do “eu prendo e arrebento”.
A Idade Média não acabou, pois ainda não saímos do “eu prendo e arrebento”. Talvez a coisa mais terrível que possa acontecer para alguém é sofrer um ato de exercício ilegal de poder. O Delegado, na Delegacia, num momento de ira ou de sanha contra alguém, determina “prende e arrebenta”. E, se der chance e oportunidade para o Promotor, ele manda prender e arrebentar também. Se for juiz, nem se fala, a todo o momento se decretam milhares de prisões sem a devida fundamentação. Esse exercício de poder penal existe há 1300 anos. Quem é pobre, favelado, negro, sabe o que é isso. E o irônico é que até nisso o povo tem o que se identificar com o Lula e o Lula tem a se identificar com o povo (povo = povão), porque nem mesmo ostentando o histórico de ex-chefe político da nação, o ex-Presidente Lula se livrou da truculência, do arbítrio e da audácia de um juiz de primeiro grau. Foi tratado como qualquer “zé-mané”, porque contra “zé-mané” é assim mesmo, eles prendem e arrebentam. O arbítrio se manifesta na intolerância com a Presidente legitimamente eleita: insatisfeitos com o seu governo, procura-se formas de antecipar a sucessão presidencial, burlando-se as eleições democráticas.
Sergio Moro, o juiz que está escrevendo o epitáfio do direito processual penal brasileiro
Há um sem número de artigos científicos sobre as arbitrariedades cometidas nos processos da Lava Jato, abordando, por exemplo, o uso da prisão preventiva como forma de coação para forçar delações “premiadas”, a imoralidade do instituto da delação premiada, violação dos limites da competência territorial, em que se vê uma verdadeira autoproclamação do “juízo universal da corrupção” e conduções coercitivas sem previsão legal; não é o caso de repeti-las aqui.
Em alguns pronunciamentos, o Juiz Moro pede apoio popular para levar adiante a sua “tarefa”. Circula um vídeo em que ele, ao final de uma palestra, diz:
“Eu estou vinculado aos fatos, às provas e à lei. E é isso que eu vou fazer nos meus processos, seja para absolver o inocente, seja para condenar o culpado. E eu me disponho a ir até o final nos meus casos. Mas esses casos envolvendo graves casos de corrupção, envolvendo figuras públicas poderosas, só podem ir adiante se contarem com a opinião pública e da sociedade civil organizada. E esse é o papel dos senhores!”.
Ora, o palestrante não precisava pedir apoio popular para cumprir a lei. O apoio popular é necessário para golpes, para mudanças de regimes, para um “novo contrato social”, como disse o Presidente da OAB. Porque aí, numa guerra civil, “todos teremos que inicialmente perder um pouco para mais adiante todos ganharmos muito”. É que em todo golpe, é preciso o apoio popular – por bem ou por mal – para a consolidação do novo regime. Caberia à OAB, representante da sociedade civil, “dar o primeiro passo”? “Mesmo quando não há lugar certo para onde ir?” Era disso que falava o presidente da OAB quando dizia que “o nosso compromisso é reunificar o Brasil”? “O que está em jogo é o futuro do país”?
O que faz a decisão do Juiz Moro, sobre a condução coercitiva do Ex-Presidente,  gerar tanta discussão e polêmica não é tanto o que ela diz, mas, sobretudo, o que ela não diz. O que ela diz não importa tanto porque o seu conteúdo não enseja uma discussão hermenêutica como ponto crucial: os dispositivos legais invocados não são aplicáveis, logo, não é o caso de se debater se está ou não correta O ponto central da polêmica é que a decisão não foi jurídica, não havia base fática para a aplicação da norma invocada (o Juiz não estava vinculado aos fatos, às provas e à lei). A decisão foi um ato de vontade, um voluntarismo solipista (Streck) que expõe o quanto estamos inseguros no direito de não sermos presos ou processados fora dos casos e formas que a lei permite. Essa é a gravidade da decisão e o motivo porque ela abala o Estado de Direito e nos põe diante de uma ditadura do Poder Judiciário. A decisão tem aparência de jurídica, tem forma jurídica; a árvore de Natal está lá, mas pesa o ponto de partida: um ato de poder e força, que se traduz em opressão e arbítrio, que expõe a falta de limites éticos no uso do poder punitivo e que transforma o processo penal em mera burocracia punitiva, como instrumento ideológico para se exercer poder político. E isso põe em discussão a configuração do processo penal, do judiciário e do próprio Direito.
Alexandre Morais da Rosa escreveu o artigo “Como é possível ensinar processo penal depois da operação ‘lava jato’?” (Conjur, em 04/07/2015). Nele, o autor afirma que coexistem, a partir de critérios diferenciados, sistemas processuais inconciliáveis em território nacional. O autor refere-se a recentes mudanças legislativas, como a delação premiada, a leniência e até, há mais tempo, a transação penal da Lei dos Juizados Especiais Criminais, pelas quais precisamos repensar como ensinamos processo penal, já que esses institutos mudam a lógica do processo penal tradicional. Antes, o mesmo autor já havia escrito “Para entender a lógica do Juiz Moro na Lava Jato” (Empório do Direito, 07/05/2015), na qual explica como Moro, a partir do direito comparado, de maneira sofisticada, promoveu a construção de seu sistema de aplicação do direito, afastando vários princípios constitucionais que ele entende que não devem ser aplicados. A Constituição da República é democrática demais para as concepções de Moro. Alexandre Morais da Rosa deixa claro que não compartilha os entendimentos do juiz da Lava Jato, mas explica a sua lógica. O problema é que o Malleus Maleficarumtambém tinha a sua lógica e suas regras, e foi com elas e com o apoio da autoridade papal que milhares de mulheres foram condenadas à morte, por um “nada” elevado à condição de maior mal da Terra.
Em resposta ao artigo de Alexandre, Lenio Luiz Streck escreveu “Como (não) se ensinava processo penal antes da ‘Lava jato’. Eis o busílis!” (Conjur, 09/07/2015), e foi certeiro: “não se ensina depois… porque não se ensinou antes”. Lenio é enfático em não aceitar o problema da decisão como um jogo de poder, ou seja, um ato de força ou um ato de escolha do juiz. O autor explica que, dos anos 1980 para cá, ocorreu uma transição não muito bem-feita, pois, após a promulgação da Constituição, deveríamos ter iniciado uma filtragem nos Códigos e nas posturas dos juristas, mas, lamentavelmente, pouquíssimo se alterou na dogmática processual-penal. É preciso compreender que antes dos juízes existe uma estrutura chamada “direito”, que não pode depender da minha ou da sua opinião pessoal.
Lenio tem razão: “Ou eu tenho um direito, ou eu não tenho – se eu tenho, o Poder Público tem o dever de reconhecê-lo. Não importa minha posição social. É assim que funciona em arranjos democráticos. E isso não pode depender da opinião que eu e você temos a respeito disso”.
A decisão de Moro contra Lula foi grave porque revela o exercício desmedido e ilimitado do poder punitivo, que se concentrou nas mãos de um único julgador, por meio de quem vai se rompendo, em alta velocidade, todas as barreiras contra o arbítrio.
Como bem disse a Associação Juízes para a Democracia (AJD), “não se combate a corrupção, corrompendo a Constituição”. Em um Estado Democrático de Direito, a atuação do juiz é pautada pela Constituição e pelas leis. Ninguém está acima da lei. É preciso respeitar a ordem democrática e de sucessão governamental. Nenhum outro ramo do Direito está mais intrincado com a democracia e a cidadania do que o Direito Processual Penal.
A sociedade brasileira conquistou, na Constituição de 1988, um amplo sistema de princípios, direitos e garantias para um processo penal acusatório, de feição democrática, como deve ser em países civilizados. Onde o acusado não pode, efetivamente, se opor à pretensão punitiva estatal, onde não há separação das funções de acusador e julgador, onde não há um sistema de limites ao poder punitivo, não há direito processual penal, mas mera burocracia punitiva e procedimento inquisitorial.
A encruzilhada que vivemos é esta: ou reafirmamos o Direito Processual Penal em prol de uma sociedade democrática, onde os acusados serão julgados conforme as regras do devido processo penal constitucional; ou poderemos ler nas decisões judiciais “Aqui jaz o Direito Processual Penal” e, com ele, a democracia.

Bartira
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Bartira Macedo de Miranda Santos é professora de Direito Penal e Direito Processual Penal da Universidade Federal de Goiás, é Pós-doutoranda pela PUC-GO e bolsista Capes. Autora do livro Defesa Social: uma visão crítica, 2015, pela Coleção Para Entender Direito (www.paraendetenderdireito.com.br).
Fonte: emporiododireito.com.br
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terça-feira, 15 de março de 2016

Cidadania nas Ruas e nas Redes: os desdobramentos das manifestações

ÁUDIO: 

Uma avaliação crítica sobre as manifestações do último dia 13 é o tema desta edição onde o professor  e filósofo Robson Sávio destaca o  que mudou em relação às anteriores. 


Perfil dos manifestantes em Porto Alegre


Ele ressalta que grande parte dos manifestantes, majoritariamente da classe média,  já não aceita mais os políticos de direita como Aécio Neves e Alckmin. 

E segundo ele, o mais grave é o fato de que muitos brasileiros acham que a saída da crise está no campo judicial e policial e não no político: " um erro sem tamanho e com consequências imprevisíveis."

Texto produzido pela Rádio Sinpro Minas.

CLIQUE AQUI E OUÇA >>>


domingo, 13 de março de 2016

Ditadura do Judiciário

Sem desdenhar os protestos ocorridos em 13/03 (até porque o direito à manifestação deve ser respeitado), uma primeira conclusão podemos chegar após o encerramento dos atos públicos: apesar de pequeno aumento no número de participantes, a base social das manifestações, não obstante o maciço investimento midiático e judicial na sua promoção e convocação, não aumentou significativamente. Observamos, majoritariamente, o mesmo segmento mais obtuso da classe média, sem novas adesões... 

A novidade é que diminuíram as demandas do tipo "intervenção militar", mas aumentaram aqueles que rejeitam todo o sistema político. Bolsonaro e Moro foram as vedetes. Com o sistema político em frangalhos, os radicais de direita poderão capitalizar esses segmentos da classe média sem referência. Oportunidade para "salvadores da pátria" se apresentarem no cenário...

A questão da classe média é complexa. Lula foi eleito com o apoio dessa classe. Parte dos eleitores da classe média decepcionou-se com o PT e alguns bandearam para o radicalismo de direita. Acontece, que sem o apoio da classe média um governo dificilmente se sustenta.



Fonte: Datafolha, 14/03


Há, ainda, uma janela de oportunidade, talvez a última, para Dilma Rousself liderar uma guinada à esquerda, criando condições objetivas para que os trabalhadores (que até agora assistem passivos) possam entrar como atores decisivos nesse jogo de disputas reais e simbólicas.

Ou, numa saída mais liberal-democrática: uma recomposição negociada do sistema político, com líderes de diversos partidos, criando condições mínimas de governabilidade. Na democracia representativa há que se restabelecer a legitimidade das instituições: partidos, governos, etc.

Por outro lado, a coalizão de direita, mesmo sem controle de seus seguidores (vejam os atos hostis contra Aécio e Alckmin, na Paulista do Texas brasileiro e contra Malafaia, em Brasília) mais cedo ou mais tarde poderá virar o jogo. Não se pode projetar as consequências de uma ruptura democrática.

Aliás, para mim, o fato político mais relevante dessas manifestações, pelo seu simbolismo, foi a expulsão de Aécio e Alckmin da Avenida Paulista. Fica evidente que parte dos manifestantes, majoritariamente da classe média, já não aceitam a liderança desses dois políticos. Mas, o grave problema nesse fato é que para muitos a saída é no campo judicial e policial e não no campo político. Um erro sem tamanho e com consequências imprevisíveis...

Um elemento na análise que merece toda a atenção. Os passos dados por Janot (o rei do xadrez) e Moro nas próximas semanas poderão liquidar o jogo e não se sabe qual lado sairá vencedor. E, o pior: se o lado vencedor terá legitimidade e condições objetivas para governar. 

Hoje, o jogo está muito mais nas mãos desses dois atores do judiciário (altamente políticos) que poderão definir os rumos da crise. 

Muitos segmentos sociais, como as elites da OAB, MP e Judiciário e das polícias; políticos denunciados por corrupção de variados partidos; mídia e segmentos conservadores da classe média querem uma saída judicial e policial. Mas, a única saída possível na democracia é o fortalecimento das instituições, seus atores, com vistas a um pacto negociado, sem interrupção da ordem institucional. O resto é golpe... 


Lembrar de Ruy Barbosa é importante: "a pior ditadura é a do judiciário".

Atualizado em 14/03
Atualizado em 28/03

sábado, 12 de março de 2016

POR QUE NÃO VOU ÀS RUAS HOJE?


Defendo o direito às manifestação. Respeito e não tenho ódio dos que pensam diferentemente de mim. 

Mas, por que não vou às ruas hoje?

a) Porque respeito as regras do jogo democrático e os resultados das urnas: eleições ocorrem a cada quatro anos e a soberania popular está acima de quaisquer interesses pessoais, políticos, partidários;




b) Porque só acredito na justiça que age com isonomia: ou a lei vale igualmente para todos ou não é justiça;



c) Porque não acredito na grande mídia: trata-se de um poderoso ator político historicamente a serviço dos donos do capital; a mídia brasileira nunca foi e não é democrática;

d) Porque os principais líderes dessas manifestações fazem parte do roll dos políticos mais corruptos, violentos e mesquinhos deste país;

e) Porque defendo o legado dos últimos anos: diminuição das desigualdades; ampliação de direitos; acesso universal às políticas públicas; defesa do patrimônio nacional;

f) Porque o discurso de combate à corrupção sempre foi usado (contra Getúlio, JK, Jango e outros) quando as elites empresariais e midiáticas foram pegas com a "boca na botija" para se safarem das suas responsabilidades;

g) Porque penso que a política se dá pela negociação e respeito ao adversário e nunca pela eliminação do oponente: isso é fascismo;

h) Porque não acredito em soluções milagrosas vindas de partidos e políticos que não têm compromisso com os mais pobres, as riquezas nacionais e a justiça social;

i) Porque não acredito no binômio "lei e ordem": trata-se de recurso historicamente usado pelas elites para manipularem, controlarem e oprimirem o povo e, simultaneamente, saquearem o patrimônio público;

j) Porque o uso da violência real e simbólica, do medo e da mentira como estratégias de persuasão e imposição de uma verdade é tática fascista, de quem não é democrata;

l) Porque os discursos do ódio e da vingança cegam mentes e corações, impedem a racionalidade e não podem levar ninguém, nem a Nação, para um caminho bom e seguro;

m) Porque não concordo com pessoas que defendem redução da maioridade penal, revogação do estatuto do desarmamento, pedido de intervenção militar, demandas por caça às bruxas e impeachment sem motivação clara e irrefutável;

n) Porque os rumos de um país não pode ser decidido por meia dúzia de políticos inescrupulosos, alguns promotores e juízes com perfis messiânicos, os oligopólios da mídia e empresariais e parte da classe média que exige a retomada de seus privilégios, em detrimento da ampliação de direitos para todos(as);

ENFIM, porque acredito que a saída para a crise depende do desarmamento dos espíritos para a busca de soluções que beneficiem o país e não um grupo que historicamente se locupletou das riquezas nacionais e do suor do trabalhador brasileiro...



Atualizado em 13/03/2016 às 8h30min e 14h30min

sexta-feira, 11 de março de 2016

RÁDIO UFMG EDUCATIVA: Segurança Pública



Minas Gerais registra queda no número de vítimas de homicídios em 2015. 

Para especialista a redução não significa que a tendência é permanente de redução. 

Entrevistado: Robson Sávio, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Puc-Minas.


Ouça a reportagem de Vinicius Luiz, no link abaixo:



Onde chegamos...

Imagine um estado que se autointitula democrático e DE DIREITO onde qualquer promotor ou juiz, imbuído de paranoia higienista, xenofóbica, racista ou messiânica resolve, a seu bel-prazer, transformar sua caneta numa forquilha...

Nesse país, as instâncias superiores do judiciário (que poderiam controlar arroubos autoritários) estão covardemente amedrontadas e imobilizadas pelo tribunal supremo midiático e reféns da opinião publicada.

Plutocratas vomitam discursos de ódio, vingança e morte repercutidos em doses cavalares pela imprensa fascista. 

Junte-se, aqui, o aparato de repressão, historicamente constituído para a manutenção do establishment, a agir, também, de forma seletiva e repressora.


E a leis? As leis são meros instrumentos discricionários, usadas pelas elites das castas jurídicas para proteger uns e incriminar/eliminar outros, seletivamente.


Esse é o Brasil atual. 

Aqui, observamos uma coalizão que se robusteceu em meio à crise política e econômica nos últimos dois anos, liderada por políticos vingativos e pueris como Aécio, Serra, Caiado, Bolsonaro, Paulinho da Força, Alckmin, Cunha, Agripino, entre outros; por uma mídia serviçal do rentismo global e por alguns juízes, promotores, policiais, empresários e banqueiros de visão colonialista, messiânica e autoritária.

Segmentos da classe média, ávidos de vingança (ao invés de exigiram a ampliação da cidadania para todos), invejam e odeiam a ascensão social dos empobrecidos e engrossaram o coro dos revoltados on e off line porque querem o retorno de privilégios de classe e odeiam a ideia da igualdade de direitos.

Essa coalização midiático-política-empresarial-policialesca-jurídica-mediana ao invés de apresentar um projeto político para o país, tenta, a qualquer custo, reimplantar a república dos homens de ben$$$.

Do outro lá, observamos um governo federal perdido; um Congresso macartista; uma coalizão governista perversa e traíra; uma esquerda dividida, sem um discurso coeso; movimentos sociais ainda dispersos, sem agenda unificada. 

Grupos radicais, de direita e de esquerda, ajudam a atear fogo para todos os lados. A "lei e a ordem", todos sabem, é o estratagema que justifica a ação autoritária do andar de cima...

Mas, a iminência da perda de direitos poderá, mais cedo ou mais tarde, mexer com os brios dos "bons e mansos cristãos da terra de santa cruz" que, dificilmente, aceitarão o açoite da casa grande cabisbaixos, como ocorria outrora. 

Será que os tempos da "paz dos túmulos" ficaram para trás?

quarta-feira, 9 de março de 2016

A transferência de Dom Darci para Diamantina

Dom Darci José Nicioli

Não sou porta-voz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nem do Vaticano. Mas, como cristão bem informado posso opinar sobre a transferência do bispo auxiliar de Aparecida, Dom Darci José Nicioli, para a Arquidiocese de Diamantina.

Ao contrário das notícias divulgadas em variadas fontes, certamente fruto da imaginação de seus autores, a transferência do prelado não tem nada a ver com o lamentável episódio ocorrido no último domingo, quando Dom Darci numa missa no Santuário Nacional de Aparecida, depois de falar em pisar a cabeça da serpente durante a homilia, concluiu a oração dos fiéis dizendo: “Peça, meu irmão e minha irmã, a graça de pisar na cabeça da serpente. De todas as víboras que insistem e persistem em nossas vidas. Daqueles que se autodenominam jararacas. Pisar a cabeça da serpente. Vencer o mal pelo bem por Cristo nosso senhor. Amém”.

Todos interpretaram que se tratava de clara alusão a Lula. Dois dias antes da pregação do bispo, o ex-presidente havia se comparado a uma jararaca ao comentar a operação da Polícia Federal que o impôs uma condução coercitiva. Ironizando o fato, Lula afirmou que não mataram a “jararaca” pois teriam acertado o rabo e não a cabeça.

A transferência de Dom Darci já tinha sido decidida dias antes pelo Papa Francisco, acolhendo o pedido de renúncia apresentado por Dom João Bosco Oliver de Faria, pelo fato de ter completado 75 anos de idade, em conformidade com o cânon 401, parágrafo 1º, do Código de Direito Canônico. A mudança já tinha sido comunicada à Nunciatura Apostólica brasileira e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e se realizaria independentemente do fato ocorrido no domingo, dia 06/03. Dizer que o Papa Francisco interviu nesse caso é usar inadequadamente o nome de Francisco a provocar mais cizânia. E isso não é correto. Serve somente para exaltar ainda mais os ânimos...


E, por falar em Diamantina, essa Arquidiocese ficou muito conhecida no Brasil durante o episcopado de Dom Geraldo de Proença Sigaud. 

Dom Sigaud empreendeu uma enorme cruzada contra o que denominava “a influência das ideias comunistas no Brasil”. Tal empreitada levou-o a escrever uma Carta Pastoral, intitulada “Catecismo Anticomunista”, com larga difusão no país. ( Veja aqui).

Juntamente com Dom Antônio de Castro Mayer e Plínio Corrêa de Oliveira escreveram o livro "Reforma Agrária, Questão de Consciência". Segundo os autores, uma reforma das estruturas sociais levaria o Brasil rumo ao comunismo.

Dom Sigaud foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Nas décadas de 1960 e 1970 era um crítico ferrenho do chamado clero progressista, confrontando-se em várias ocasiões com Dom Hélder Câmara, chamado pela imprensa brasileira de “o arcebispo vermelho”.

Ainda na biografia de D. Geraldo de Proença Sigaud consta sua nomeação como secretário do Coetus Internationalis Patrum, grupo liderado Dom Lefebvre, contrário as influências progressistas do Concílio Vaticano II. Lefebvre e outros três bispos foram excomungados em 1988. Em 2009, durante o pontificado do Papa Bento XVI, o Vaticano removeu a excomunhão dos quatro prelados da Fraternidade São Pio X. (Veja aqui).

Que a histórica Diamantina, com a chegada de Dom Darci, seja reconhecida daqui para frente por outras histórias...

PS: a transferência de Dom Darci tem gerado todo o tipo de interpretação. Para uns, trata-se de promoção; para outros, de castigo. A bem da verdade, nem uma coisa; nem outra.

É importante esclarecer que  nomeação  ou a transferência de um bispo é um processo longo e bastante cuidadoso que envolve desde a consulta do clero, passando pela consulta ao episcopado de cada país, num procedimento coordenado geralmente pelas Nunciaturas Apostólicas (representações do Vaticano em cada estado nacional) , antes da definição do Papa. Assim sendo, diferentemente do senso comum e a não ser em casos excepcionalíssimos, o Pontífice nunca toma medidas dessa natureza de forma discricionária, numa canetada.



terça-feira, 8 de março de 2016

Religare - Conhecimento e Religião sobre paz e justiça social

Frei Leonardo Aureliano: o bispo e a jararaca

Sobre o episódio ocorrido na Basílica de Aparecida, no último domingo, 06/03, gerador de intenso debate nas redes sociais, a motivar o jogo rasteiro da acusação mútua, do ódio, da vingança, da troca de ofensas gratuitas e outros  radicalismos (inclusive entre aqueles e aquelas que se autointitulam cristãos), sugiro o texto do Frei Leonardo Aureliano que, com clareza e honestidade, mostra os equívocos de uma pregação inoportuna e o perigo do discurso enviesado, a propiciar todo o tipo de interpretação, dos líderes religiosos. 

No ano da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, temos que ter a capacidade e a generosidade do perdão...

Leia o artigo:

A missão da Igreja, se ela quiser ser fiel Àquele que reconhece como seu mestre, é denunciar as injustiças e o pecado e anunciar, por palavras e obras, o Reino de justiça e de paz proposto por Jesus. Serviço nada fácil, porque discernir qual seja a vontade de Deus num mundo cada vez mais complexo é muito exigente. Assim, todo padre, mesmo honesto e bem intencionado, é sujeito ao erro. Isso se aplica ao objeto do qual tratarei, mas também a estas linhas. Refiro-me ao caso que invadiu as redes sociais esta semana: o bispo que domingo passado, em Aparecida, rezou para que os fiéis esmaguem a cabeça da serpente.

A serpente pode ser aquela que tentara Adão e Eva e, como castigo, receberia da descendência da mulher um pisão na cabeça. Os católicos entendem que o Sim de Maria à proposta de ser Mãe de Jesus Cristo seja essa pisada na cabeça da serpente, ou de Satanás. Mas não é só isso… naqueles dias Lula falou de si mesmo como Jararaca. Então fica fácil entender a quem o bispo se referia.

O quarto domingo da quaresma, ocasião em que, neste ano, a Igreja lê a parábola do filho pródigo foi o cenário no qual Dom Darci, bispo auxiliar de Aparecida, depois de falar em pisar a cabeça da serpente na hora da homilia, concluiu a oração dos fiéis dizendo: “Peça, meu irmão e minha irmã, a graça de pisar na cabeça da serpente. De todas as víboras que insistem e persistem em nossas vidas. Daqueles que se autodenominam jararacas. Pisar a cabeça da serpente. Vencer o mal pelo bem por Cristo nosso senhor. Amém”. Clara alusão a Lula.
A frase de Dom Darci foi logo compartilhada com euforia por vários sites católicos, mormente reacionários – os mesmos que se queixam dos padres ligados à teologia da libertação por imiscuir-se em política, demonstrando que o problema para eles não estaria em falar de política, mas em colocar-se à esquerda.

Para ajudar a aclarar as coisas, convido você a considerar alguns pontos:
• A alusão à serpente destoa da liturgia daquele dia. Certamente, a Liturgia não é algo engessado, mas assisti mais de uma vez toda a celebração pelo YouTube e não consegui encontrar o nexo entre a ideia de pisar a cabeça da serpente e as leituras propostas para aquele dia.

• A oração dos fiéis, mesmo sendo um momento no qual a comunidade é convidada a orar por suas necessidades e pelas do mundo, não é um balaio onde se pode jogar qualquer coisa. A função do presidente da celebração é ajudar no seu andamento e concluí-la recolhendo os pedidos apresentando-os por Cristo, no Espírito Santo, ao Pai.

• Rezar para os cristãos pisarem a cabeça daqueles que se auto denominam jararacas é frase perigosa num Brasil, dividido entre “petralhas e tucanalhas”, cheio de hostilidades e fundamentalismos.

• O lugar também é por demais significativo. A Basílica de Aparecida é uma das Igrejas mais importantes do mundo. Algo dito ali tem muito mais peso do que a pregação de um padre numa igrejinha do interior a meia dúzia de pessoas.

Não estou dizendo que o bispo esteja necessariamente errado em sua posição contra Lula, ele tem todo direito de pensar assim – pensar e talvez contar para os amigos. Mas publicizar tal pensamento numa missa mais atrapalha do que ajuda no crescimento da ainda imatura democracia tupiniquim. No Estado democrático brasileiro os criminosos, depois de investigados e julgados, com presunção de inocência e amplo direito de defesa, devem receber a pena que lhes é devida que não inclui ter a cabeça esmagada.


Frei Leonardo Aureliano, OFM

Roma, 7 de março de 2016

Fonte: Site Franciscano.org.br (http://www.franciscanos.org.br/?p=105496) 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sistema de justiça da Casa Grande tem juízes que merecem respeito e admiração

Sou um crítico feroz, como é notório, do nosso sistema de justiça da casa grande. 

Mas, reconheço que existem juízes que não se deixam seduzir pelos holofotes globais e dos homens de ben$$$. 

Recomendo este vídeo com uma AULA MAGNA do Ministro do STF Marco Aurélio de Mello sobre o respeito que a justiça deveria ter aos direitos humanos e constitucionais.

"Não se avança culturalmente tocando um procedimento de cambulhada. Não se avança adotando um critério de plantão para uma determinada situação jurídica. (...) O instituto da condução coercitiva (...) pressupõe para ser acionado que alguém intimado não compareça; não atenda o chamamento judicial. E isso não ocorreu em relação ao ex-presidente Lula.E o mais sério, tudo se ocorreu em relação a uma pessoa que duas vezes foi eleita pelo povo. O que ocorrerá com um cidadão comum? O que nós poderemos ter amanhã ou depois quanto a este ou aquele acusado?"




domingo, 6 de março de 2016

José Luiz Quadros de Magalhães: GOLPE!

Prof. José Luiz Quadros da Magalhães

Para o poder econômico, e outros poderes que a este poder sustentam, o importante não é viver em uma democracia, é claro, mas que as pessoas inocentemente acreditem viver em uma. O mesmo vale para o estado constitucional. O que vemos acontecer de forma grave e agressiva é um teatro, onde a forma oculta o conteúdo. Julgamentos, processos, becas, carros de polícia e ternos e gravatas, parlamentares, jornais, televisão... todo um aparato tragicômico ridículo para justificar o desrespeito à vontade popular e o desmonte de um projeto de transformação social. A “casa grande surta quando a senzala aprende a ler”, vemos escrito nos muros e camisas.
Parece que não há mais espaço para os “golpes de estado” no estilo da década de 1960 e 1970. Tanques de guerra nas ruas, prisões sem mandado judicial, torturas escancaradas, parecem não agradar a maioria da opinião pública do mundo. Claro sem generalizações, pois ainda vemos isto em alguns lugares do planeta. Os golpes hoje são mais sofisticados. Lembremos que a ditadura empresarial/militar a partir de 1964 preocupou-se com uma representação teatral da ditadura com a existência de dois partidos políticos, um Congresso funcionando (depois de várias cassações), e o judiciário aberto e controlado ideologicamente. Claro que todas as medidas foram tomadas para que o partido de oposição não chegasse ao poder (com senadores biônicos, nomeação de prefeitos e governadores), assim como fizeram, inclusive, uma Constituição (autoritária e ilegítima) para reforçar o teatro da “democracia” e “estado de direito”.
Aquele teatro mal feito foi aperfeiçoado. A mídia foi toda tomada e perdeu qualquer pudor quanto a manipulação, distorção e encobrimento de fatos. Existe mais tecnologia para encantar as pessoas, e o teatro do absurdo é permanente. Prisões espetaculares, o nosso FBI dando show, juízes justiceiros como nos seriados de TV, helicópteros e discursos inflamados.
O golpe em curso no Brasil conta com Juízes que agem contra a Constituição, extrapolando sua função constitucional, investigando, punindo, agindo como polícia política; promotores e delegados vinculados a partidos políticos (como no Paraná e São Paulo) que agem ao estilo dos piores regimes totalitários, e uma mídia que não informa mas faz campanha aberta contra pessoas, partidos, ideias e instituições. Este aparato, somado a uma guerra econômica de desestabilização, cria todo um contexto para enganar e aprisionar a opinião pública propositalmente desinformada, especialmente nas classes média e média alta, além da chamada nova classe média, contaminada por lideranças políticas religiosas, que usam da fé para enganar, ganhar dinheiro e criar uma massa de seguidores religiosos para a política, ao pior estilo das teocracias.
Todo este aparato foi cuidadosamente criado para manter privilégios e para servir interesses econômicos poderosos. A questão não é corrupção. Claro que não. A guerra é global e muito pesada. A questão passa pela entrega de nossas riquezas. A questão é abaixar mais uma vez a nossa cabeça diante do império do norte. A questão é manter a colonialidade presente em nosso ser, nossa subordinação a Europa e aos EUA. Toda vez que o Brasil levantou sua cabeça e exerceu sua soberania, o Império nos colocou para baixo, destruiu nossas lideranças, e continuou saqueando nossas riquezas. A história se repete com incrível semelhança: Getúlio Vargas, João Goulart, Lula.
O mais incrível é a capacidade de levar as pessoas, e as Forças Armadas, a acreditarem que a parceria com os Estados Unidos, que entregar o nosso Petróleo, nosso minério, nossas montanhas, nossa riqueza, pode ser algo a favor do Brasil. Como que entregar o pré-sal e destruir uma grande empresa nacional pode ser algo a favor do Brasil? Estamos vivendo, além de um golpe, uma invasão do país. O projeto é destruir toda possibilidade de soberania. As pessoas e instituições encarregadas de proteção da soberania precisam atuar.
Como entender o processo em curso?
Algumas dicas:
1) Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) viveram uma época de grande crescimento econômico enquanto Europa e EUA entraram em grave crise.

2) Os BRICS criaram instituições internacionais que permitiriam (e podem permitir) que estes países, pudessem trilhar um caminho de soberania econômica independente das potencias que mandam no mundo há 500 anos, desde o início da invasão da América pelos europeus.

3) Na América Latina foram eleitos governos, nos últimos quinze anos, que recuperaram a soberania sobre as riquezas nacionais, melhoraram a vida das pessoas, permitiram o acesso do povo a informação, educação e saúde. Os dados são da ONU e qualquer pessoa pode acessar no link do PNUDH. São fatos, e não discursos.

4) Foram criadas instituições importantes sem a presença dos EUA ou Europa que permitiriam (permitirão) o desenvolvimento e fortalecimento da América Latina e Caribe, como a CELAC e UNASUL.

5) A perspectiva de crescimento do BRICS apresentava-se muito maior e com perspectivas de crescimento muito superiores ao crescimento da Europa e EUA.

6) Foi construído o Porto de Muriel em Cuba para facilitar o comércio internacional.

7) Centenas de Campi Universitários foram criados no Brasil e Venezuela. A Unesco declarou o fim do analfabetismo na Venezuela e no Brasil 60 milhões de pessoas mudaram de vida para melhor.

8) A China constrói o Canal da Nicarágua para não depender mais dos EUA e do seu canal do Panamá.

9) Os governos de esquerda na América Latina se expandem e apresentam crescimento econômico importante como acontece com a Bolívia.

10) Um novo constitucionalismo plurinacional, plural, diverso e radicalmente democrático surge e cresce no Equador e Bolívia.

11) A esquerda cresce na Europa com o insucesso das políticas neoliberais, o desemprego e desespero crescente.

12) A presença brasileira e chinesa na África cresce e temos vários contratos com Sudão, Líbia (o país que tinha o melhor IDH da África antes das invasão e destruição por parte da OTAN).
Estes são só alguns fatos. 
PERGUNTA: SINCERAMENTE, SEM QUALQUER MANIQUEÍSMO, MAS PERCEBENDO UM MUNDO DE CONCORRÊNCIA DE INTERESSES DENTRO DO SISTEMA CAPITALISTA, VOCÊS ACHAM QUE EUROPA E EUA ACEITARIAM PERDER A HEGEMONIA GLOBAL CALADOS?
Resta saber de que lado os golpistas no Brasil estão, e claramente não é do Brasil e do povo.
Qual a resposta dos EUA e EUROPA.
1) Redução do preço do Barril do Petróleo a níveis muito baixos, o que inviabiliza ou ao menos dificulta países como Venezuela, Equador, Rússia, Brasil e o nosso pré-sal.

2) Guerra econômica e desestabilização política no Brasil, Argentina, Venezuela, Rússia entre outros.

3) Controle da grande mídia antinacional e guerra ideológica diária em todos os espaços. Reparem que nem em transmissões de futebol a ideologia e a crítica aos governos populares são poupadas.

4) Invasão da Líbia e Síria. Invasão da Ucrânia. Desfazimento dos contratos da Líbia com o Brasil e China, primeiro ato do novo governo da Líbia apoiado pelos EUA, Inglaterra, França e Espanha.

5) Ideologização e instrumentalização de parte do Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, com ações seletivas.

6) Encobrimento ideológico de ações políticas de desestabilização por meio de um falso discurso neutro da luta contra a corrupção.
Em meio a tudo isto, um grupo de pessoas, perdidas em meio à guerra ideológica, são levadas às ruas contra o Brasil, e os nossos interesses, empurrados pela desinformação generalizada, a confusão e o ódio de classe, incentivado permanentemente. Triste, perigoso e interessante é a contaminação das Polícias, que vindo do povo se volta contra este e contra o país. Interessante como que brasileiros, que se dizem patriotas, pedem a intervenção militar contra o Brasil (?!). 

Estudar, compreender o que se passa é possível e necessário. As Forças Armadas têm a função constitucional de preservar a soberania. Jamais poderia intervir para destruir a soberania como querem alguns poucos desinformados. Estamos sob ataque estrangeiro: a guerra é ideológica e econômica, e o grande inimigo é a desinformação. A solução é mais democracia, participação, informação e mobilização, urgente.
Fonte: Por José Luiz Quadros de Magalhães, em seu blog.