terça-feira, 7 de junho de 2016

Quando não se quer discutir os direitos das mulheres - Por Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira


         O fascismo no país é cada vez pior. O tempo todo tenta desqualificar qualquer luta social com os mais estapafúrdios argumentos, na intenção de fazer a população entrar em perturbação mental, caindo em quadro esquizoide (apatia, falta de interesse em relações sociais, no caso aqui analogicamente por vida política). A patologia, porém, serve só para os fatos conclamados em nome das minorias e para a retirada de direitos, como no caso do golpe com seu efeito cascata, cadenciado pela forma como as notícias e o debate público são conduzidos pelos donos da informação. Lamentável.

         Diante do estupro coletivo, fato questionado com desfaçatez ultimamente, de uma menina de 16 anos, um soco no estômago de qualquer pessoa um pouco dotada de sensibilidade, moveu-se a sociedade, mexeu-se no quadro esquizoide. As vozes feministas deram seu grito antes da mídia noticiar qualquer coisa, pois só as redes sociais deram notoriedade ao grotesco de um vídeo divulgando o estupro como se fosse algo perfeitamente sintonizado com a consciência coletiva, algo tão normal quanto dizer bom dia.

         Os fascistas esclarecidos, que não admitem, mas têm ciência do seu direitismo acerbo, e o fascistas não esclarecidos, que não admitem e não sabem que estão no fundo poço da humanidade seguindo diretrizes macabras, trataram de minimizar o fato. Dizem: que importância tem tal situação? Todos os dias mulheres são estupradas e ninguém diz nada, mulheres são mortas e agredidas sem cobertura e comoção? Verdade. Todos os dias acontece, assim como todos os dias as pessoas são assaltadas, assassinadas e sofrem outras formas de violência. Todavia, numa sociedade estruturada sobre a barbárie tudo isso vai se tornando corriqueiro, até que algum evento por suas características explode como um furúnculo em um corpo social de aparência saudável.

         Esquecem os donos desses argumentos toscos que, se eles não lembram, há vários movimentos sociais, há feministas por toda parte que diuturnamente lutam contra as mazelas às quais as mulheres são constrangidas. Contra a violência atuam em frentes diversas, nas comunidades por meio de ONG’s, nas escolas e nas faculdades com a educação formal, nas igrejas e onde mais se puder imaginar, como na militância virtual, no combate em defesa da narrativa feminina. Quem não sabe nada sobre essas coisas é quem dessas coisas não faz sua preocupação, raciocinando só a partir de fatos midiáticos. Por isso, os fascistas esclarecidos ao defenderem seus argumentos são perversos e os não esclarecidos são, infelizmente, ignorantes.

         Agora, com um estupro acontecido em um acampamento de trabalhadores sem-terra, na noite do dia 04, sábado, no Bairro Castro Pires em Teófilo Otoni, Minas Gerais, Luciano Henrique do Ceticismo Político desafia: “Agora é só observar o comportamento da mídia. Parece que vários órgãos, como a Folha, estão escondendo a notícia. Devemos exigir que eles tratem do assunto. E as feministas do PT devem ser pressionadas a se posicionarem. Enfim, depende de nós pressionarmos os adeptos de discursinhos hipócritas. Se eles realmente se importam com as vítimas de estupro, agora é o momento de provarem isso. Ou serem expostos em sua monstruosidade” (veja aqui).

         Banal demais para ser verdade e verdade de sobra para ser banal, a invectiva do blogueiro é um exemplo límpido de um posicionamento que não entende nada sobre a realidade na qual vivemos e desmerece a defesa das mulheres e seus direitos como se fosse uma farsa. O seu olhar é um caso que abarca amplo espectro do que temos visto de falas e discursos por aí. O reducionismo aparece como marca registrada. As feministas chamadas a dar satisfação são só do PT. Bom, tem mais feministas por aí que se indignaram e reclamaram do que aconteceu do que aquelas que estão no Partido. E depois do estupro coletivo não foi só esse perpetrado por acampados os únicos sofridos por mulheres. Além de tudo a escolha de um estupro vivido por uma mulher com acampados mostra a polarização desonesta dos últimos tempos. Há questões na vida que não se resumem em direita e esquerda. Há valores que transcendem tais binômios, ainda que possam ser assumidos mais por um lado do que por outro.

         A má-fé do blogueiro em sugerir um ato de pressão para ser noticiado o fato com ênfase em nome da validade da luta contra a cultura do estupro é um descalabro. É como se a única mulher defendida em todo esse tempo tivesse sido só aquela menina. E como se não houvesse nenhuma luta antes e a explosão de um fato dessa monta, para o qual os olhares se voltam assombrados, não devesse ter tido cobertura depois dos requintes de crueldade expostos, num ato de instrumentalização de proporções abomináveis.

         Para o blogueiro e outros que pensam igual, como Reinaldo Azevedo, que se recusa, em artigo publicado na Folha no dia 03, com muito cinismo, a dar o braço a torcer para entender o que seja a cultura do estupro, apesar da história já ser relativamente longa sobre essa discussão, o que houve foi só uma “estandartização” do estupro para dar publicidade à esquerda. A canalhice desse pensamento é deprimente. É uma rejeição à causa feminista e menoscabo bem ao modo de policiais que recebem mulheres agredidas por homens e ficam insinuando que estas gostam de apanhar. Atitudes deste naipe achincalham o movimento feminista e deixam a questão dos direitos das mulheres em último plano, lançando mão de um discurso no qual se sobressai a disputa de campos antagônicos. Desaparece a vítima. Inclusive o estupro lembrado pelo blogueiro é só uma tentativa de desmascarar um discurso. Se pode dizer que essa razão em face do ocorrido fede. Ele não se importa com a mulher. Seu objetivo, como em filmes de ação, é estar com alguém nas mãos para forçar o inimigo a fazer um movimento temerário para depois matá-lo e dizer com gozo que a luta pelos direitos da mulher e sua defesa é um “discursinho hipócrita” e monstruoso.

Confessando só nas entrelinhas a completa desconsideração pela vítima, essa forma de pressionar o movimento feminista e a esquerda, esta dita explicitamente, cai em armadilha indesejada: a admissão de que nunca olharam para a vítima, de que não se quer discutir os direitos das mulheres pela ótica feminista, mas só através de abstrações de um falso humanismo que mais esconde do que revela. Que um estupro tenha acontecido num acampamento dos sem-terra é lamentável e condenável para qualquer pessoa sensível ao mundo feminino, no entanto para quem propôs fazer pressão é só algo providencial para desnudar quem se rejeita e continuar estuprando as possibilidades da existência de uma cultura saudável e civilizada.


(Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Um sentido para a esquerda. Por: Pe. Magno do Nascimento Oliveira


         No Brasil vivemos da falta de sentido. Isso é bastante sério. Isso significa que não temos muita coisa em que acreditar, que a vida na melhor das hipóteses segue sem ânimo e sem destino, mendigando sobras de sentido pelas ruas de uma história escrita por quem nunca se preocupou realmente por constituir uma nação. Sim. Desde a chegada das caravelas por aqui, a questão do sentido foi relegada a segundo plano. O que se poderia querer dar para uma terra que enchia os olhos da ganância e alimentava a sede de explorar.

         Não se oferece sentido para quem se deseja explorar. Ao explorado se procura, na verdade, tirar tudo. E assim essa terra foi sugada, dilapidada, desconstruída em seus símbolos até sangrar e chegar a ter como signo máximo a própria exploração, e um complexo de inferioridade do qual se padece hoje de forma medular. No interior do brasileiro se articulam falas e imagens de um Brasil que jamais dará certo. É o famoso complexo de vira-lata. E ele está mais enraizado na percepção do indivíduo brasileiro do que se imagina.

Por princípio, por aqui, todo brasileiro é preguiçoso. O Brasil não cresce segundo essa imagem porque não trabalhamos. E o tal do “jeitinho”? O jeitinho brasileiro é a prova maior de uma identidade estruturada, segundo os brasileiros, para fazer funcionar o mundo dos mais espertos e caras-de-pau. E como todos são dados ao jeitinho, atávico em nós como o carnaval e a alegria, a guerra constante de todos os espertos se constitui em algo fratricida, num boicote social de larga escala. Nada funciona com essa situação jeitosa. Todo mundo que dar um jeitinho em algo e aí todos ficam desajeitados.

E o brasileiro de classe média gosta de declamar seu desejo de ir para fora dessas terras. Aqui nada funciona, pensa. Inclusive, fica procurando saber quais são suas raízes europeias. Afinal é bonito ter ligação com alguém, que veio de lá do outro lado, desde que não seja português. Melhor que sejam raízes buscadas na Itália, na Espanha, enfim, entre os que são menos culpados pela tragédia brasileira, farta de piadas. Tudo isso culmina num prato antidemocrático. Os ingredientes do patrimonialismo, do racismo negado, do elitismo mais pobre do planeta (cópia caricata de tudo do exterior, sem conteúdo), do fundamentalismo religioso e do preconceito de toda ordem dão um caldeirão tenso e denso de contradições.

Ora, a esquerda golpeada nos últimos tempos, para ser significativa, precisaria encarar e pesada tarefa de encontrar um sentido para o Brasil. Isso seria um sentido para a esquerda e suas lutas. Aliás, esse sempre foi o seu sentido, mas nem sempre explorado como sentido orgânico de sua performance social, teórica, também dependente de fora, de ideias burladas sem originalidade necessária para desencadear a revolução precisa para o homo brazilis.

As lutas sociais no Brasil não terão efeito se a democracia buscada não tiver em si a concreção do sentido, por estranho que isso pareça em tempos de afirmação da globalização, de uma nacionalidade que se entenda como possibilidade de ver uma imagem própria da nação, não ufanista, mas apreensível para o homem e a mulher destas terras. O Brasil ainda não se contempla no espelho, não arruma a própria roupa ao ver-se ou pentear o cabelo. Não consegue ter nenhuma vaidade. Por isso não se defende, se entrega logo e prefere, quando muito, entrar destrutivamente em processo autofágico.

Apesar da historiografia já ter tentado pensar nisso, no fundo ninguém sabe o que é o Brasil. Ninguém se identifica com o Brasil. Qualquer crise já é suficiente para todos pedirem para descer do Brasil e passar a compará-lo com o que parece ser ideal nos outros. Não se encontra um sentido dentro, só fora. Desta sorte, a questão para esquerda é política e cultural em suas intersecções profundas no terreno da ética. Da mesma forma que age politicamente, por outro lado o desafio é fazer da luta uma trajetória pelo direito de ser brasileiro, de ter pertença a uma cultura, que já possui significados latentes, mas sempre reiteradamente negados, por isso não patentes, claros para abraçar como bandeira a hastear contra tiranias.

         O brasileiro ainda não brasileiro amarga não ser nada. Sente náuseas de não ter significado, um sentido, de ser visto como espécime rara para aos olhos do mundo. Sente seu pedaço de terra como uma velha choupana. Só de vez em quando sente alegria, não orgulho, por algum fato inusitado. Os exploradores destas terras, do passado e do agora, só aprofundaram isso. A esquerda precisa entender que a contramão desse aprofundamento é o seu ir de encontro ao Golias. Se isso não acontecer a esquerda sempre se digladiará contra uma cultura do oportunismo, da mais valia da falta de caráter, facilmente assimilável pelas massas, elas duplamente sem caráter: sem características de fundo cultural enquanto identidade a defender e sem vergonha na cara. A questão não é só de direitos sociais, mas também de direitos culturais. É agir, pensar e agir.


(Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira)

sábado, 4 de junho de 2016

O Papa Francisco se preocupa com a situação política do Brasil. Será que ele está sozinho?

Fotomontagem. Da esquerda para a direita: Papa Francisco com Esquivel; com Letícia Sabatela e a juíza Kenarik; com os bispos do CELAM e, finalmente, recebendo o livro "Resistência ao Golpe")

Nos últimos dois meses, de fontes diversas e confiáveis, ignoradas solenemente pela mídia golpista, ficamos sabendo da preocupação do Papa Francisco com a situação política do nosso país. (Aliás, desde o início do ano passado o pontífice já teria se manifestado várias vezes junto a órgãos da igreja católica no Brasil acerca de sua apreensão com o desenrolar da crise política e econômica).

No final de abril, o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio nobel da paz em 1980, revelou, em entrevista ao jornalista Darío Pignotti, do jornal Página 12, que levou à presidenta Dilma Rousseff o apoio do Papa Francisco: “o papa Francisco está muito preocupado com o que está acontecendo no Brasil; tudo isso vai trazer consequências negativas para toda a região e teremos um grave retrocesso democrático”.

Ainda, segundo Esquivel, numa conversa sobre os acontecimentos no Brasil, o Papa afirmou que o impeachment não passa de um golpe brando. O papa também teria lhe dito que Dilma é uma mulher honesta, denunciada por corruptos.

Poucos dias depois, em 9 de maio, a atriz Letícia Sabatella e a juíza Kenarik Boujikian Felippe participaram de um encontro oficial com o papa Francisco, no Vaticano. Na ocasião, entregaram a ele uma carta denunciando a ilegalidade do impeachment da presidenta. A carta foi assinada pelo advogado Marcello Lavenère, membro da Comissão Justiça e Paz, um organismo ligado a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB). O texto considera o impedimento de Dilma um “golpe parlamentar de Estado”, manipulado pela mídia, sem fundamento legal e afirma que essa conjuntura poderá afetar outros países da América Latina. Na ocasião, o Papa, novamente, teria expressado inquietação com o desenrolar do processo golpista.

Em 19 de maio, numa reunião com a presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) – órgão colegiado dos bispos de toda a América Latina – o  Papa Francisco, mais uma vez, advertiu que pode ​​estar acontecendo "golpes de estado suave” em alguns países da região, notadamente se referindo às deposições arbitrárias de presidentes ocorridas em Honduras, Paraguai e, agora, em curso, no Brasil. Na ocasião, Francisco expressou sua preocupação com os problemas sociais dos países da América Latina em geral.

Num encontro com juízes no Vaticano, nesta sexta, 03 de junho, o Papa Francisco recebeu um exemplar do livro “A resistência ao golpe de 2016”, das mãos do procurador de Justiça Rômulo de Andrade Moreira, da Bahia.

Nenhum dos acontecimentos acima mencionados foram desmentidos pelo Vaticano. Portanto, podemos concluir que são informações fidedignas.

O Papa Francisco tem demonstrado, em reiteradas ocasiões, sua angústia em relação a uma onda direitista e neoliberal que está eliminando em diversos países as conquistas sociais alcançadas nas últimas décadas. Neste sentido, o Papa tem advertido com toda a firmeza acerca dos governos serviçais da atual fase do capitalismo rentista, especulativo e concentrador de riqueza e renda. Trata-se de um modelo político-econômico da “economia que mata”, do “capital transformado em ídolo”, da “ambição sem limites do dinheiro que comanda” tudo, nas palavras do Pontífice. Ora, o governo interino brasileiro encaixa-se milimetricamente nessa categoria.

Francisco já deixou claro que “a distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia; é um dever moral”. No encontro com movimentos populares, na Bolívia, ano passado, exclamou: "Digamos sem medo. Queremos uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. Tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco".

No caso brasileiro, acrescente-se o fato de o papa conhecer a presidenta Dilma. Ele certamente sabe que, apesar de erros na condução do governo, trata-se de uma mulher honesta e honrada. Situação diametralmente oposta em relação às coalizões que tocaram o “golpe brando”, formadas pelos grupos empresariais, políticos, midiáticos, judiciários e elitistas que, historicamente, sempre se locupletaram às custas do suor, da dor e do sacrifício dos pobres e dos trabalhadores brasileiros. Como revelara a Esquivel, “Dilma é uma mulher honesta, denunciada por corruptos”.

Conhecedor da história, do sofrimento e da exclusão social dos pobres, dos trabalhadores e das minorias nos países latino-americanos, o Papa não se omite em posicionar contrariamente ao “golpe brando” que, articulado através de conchavos de elites e em flagrante desrespeito ao voto popular, impõe no Brasil um governo neoliberal e elitista, comprometido com os interesses do capital e não das pessoas.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o momento atual

         Se por um lado o Papa Francisco tem deixado transparecer seu incômodo acerca do golpe brando em curso, o que acontece em relação a hierarquia católica brasileira?

Durante o ano passado e até o mês de abril deste ano, antes do início do processo de impedimento, a CNBB divulgou uma série de notas oficiais sobre o momento político nacional.

Em 8 de dezembro de 2015, um comunicado do episcopado brasileiro afirmava: “neste momento grave da vida do país, a CNBB levanta sua voz para colaborar, fazendo chegar aos responsáveis o grito de dor desta nação atribulada, a fim de cessarem as hostilidades e não se permitir qualquer risco de desrespeito à ordem constitucional. Nenhuma decisão seja tomada sob o impulso da paixão política ou ideológica. Os direitos democráticos e, sobretudo, a defesa do bem comum do povo brasileiro devem estar acima de interesses particulares de partidos ou de quaisquer outras corporações. É urgente resgatar a ética na política e a paz social, através do combate à corrupção, com rigor e imparcialidade, de acordo com os ditames da lei e as exigências da justiça”. (Grifos nossos).

 Outra nota, de 28 de outubro de 2015, conclamava: “somos todos convocados a assegurar a governabilidade que implica o funcionamento adequado dos três poderes, distintos, mas harmônicos; recuperar o crescimento sustentável; diminuir as desigualdades; exigir profundas transformações na saúde e na educação; ampliar a infraestrutura, cuidar das populações mais vulneráveis, que são as primeiras a sofrer com os desmandos e intransigências dos que deveriam dar o exemplo. Cada protagonista terá que ceder em prol da construção do bem comum, sem o que nada se obterá.  É preciso garantir o aprofundamento das conquistas sociais com vistas à construção de uma sociedade justa e igualitária. Cabe à sociedade civil exigir que os governantes do executivo, legislativo e judiciário recusem terminantemente mecanismos políticos que, disfarçados de solução, aprofundam a exclusão social e alimentam a violência, entre os quais o estado penal seletivo, as tentativas de redução da maioridade penal, a flexibilização ou revogação do Estatuto do Desarmamento e a transferência da demarcação de terras indígenas para o Congresso Nacional.” (Grifos nossos).

Em 10 de março deste ano, novamente uma nota oficial da entidade pontuava: “importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça”. (Grifos nossos).

A última das notas sobre o momento político, datada de 13 de abril, durante a realização da 54ª Assembleia Geral da entidade, afirmava: “a forma como se realizam as campanhas eleitorais favorece um fisiologismo que contribui fortemente para crises como a que o país está enfrentando neste momento. Uma das manifestações mais evidentes da crise atual é o processo de impeachment da Presidente da República.Conferência Nacional dos Bispos do Brasil acompanha atentamente esse processo e espera o correto procedimento das instâncias competentes, respeitado o ordenamento jurídico do Estado democrático de direito. A crise atual evidencia a necessidade de uma autêntica e profunda reforma política, que assegure efetiva participação popular, favoreça a autonomia dos Poderes da República, restaure a credibilidade das instituições, assegure a governabilidade e garanta os direitos sociais.” (Grifos nossos).

Porém, sabe-se que durante essa assembleia geral, ocorrida entre os dias 6 e 15 de abril, em Aparecida (SP), houve uma intensa discussão entre o bispado acerca das interpretações da crise política brasileira e o processo de impeachment. Visões e discursos diametralmente opostos fizeram do encontro, segundo fontes extraoficiais, um dos momentos mais tensos da hierarquia católica nas últimas décadas. Impactados com a tensão e receosos de uma quebra da colegialidade (um arranjo político que mantém, formalmente, a unidade do episcopado nacional), parece que a CNBB optou por um silêncio sepulcral desde então.

Não obstante, cabe uma primeira indagação: tendo em vista os posicionamentos da CNBB, expressos nas notas acima mencionadas, e frente às várias ações e medidas anunciadas pelo governo interino, que implicarão em cortes nos programas sociais (atingindo frontalmente os mais pobres), precarização do emprego e da previdência (atingindo os trabalhadores, aposentados, beneficiários do Benefício de Prestação Continuada e pensionistas), restrição de direitos, criminalização de grupos e movimentos sociais, haveria uma palavra do episcopado brasileiro em relação às medidas anunciadas pelo governo interino?

A ação política da Igreja católica, a ampliação das bancadas evangélicas e o recrudescimento dos discursos religiosos moralistas e fundamentalistas

É fato que a Igreja católica tem perdido prestígio político nos últimos tempos, apesar de se manter como instituição com grande credibilidade, conforme atestam pesquisas sobre confiança nas instituições. Por outro lado, fala-se muito da atuação conservadora e fundamentalista da bancada evangélica nos governos e parlamentos. Mas, a bem da verdade, o tradicionalismo moral que tem marcado a atuação da Frente Parlamentar Evangélica, por exemplo, só avança, em boa medida, graças ao apoio daqueles parlamentares que se autodeclaram católicos.

Segundo pesquisa feita pelo Portal G1, no início dessa legislatura, o catolicismo era a religião predominante entre os 513 deputados federais. De 421 deputados que responderam ao questionário proposto numa enquete pelo Portal, 300 (ou seja, 71,2%) se declararam católicos. Outros 68 (16%) afirmaram ser evangélicos, oito (1,9%) disseram ser adeptos do espiritismo e apenas um deputado (0,23%) afirmou ser judeu. Outra pesquisa, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), apontou que a bancada evangélica tem 75 deputados federais e três senadores. Portanto, cerca de 15% dos deputados são da bancada evangélica. Significa que os outros 85% não são evangélicos. (Leia mais sobre esse tema, aqui).

De acordo com Magali Cunha, docente da Universidade Metodista de São Paulo - que estuda e pesquisa a bancada evangélica -, o movimento de protagonismo dessa bancada em direção ao conservadorismo é um capítulo recente da história do parlamento brasileiro: “é o forte tradicionalismo moral que tem marcado a atuação da Frente Parlamentar Evangélica, que trouxe para si o mandato da defesa da família e da moral cristã contra a plataforma dos movimentos feministas e de homossexuais e dos grupos de Direitos Humanos, valendo-se de alianças até mesmo com parlamentares católicos, diálogo historicamente impensável no campo eclesiástico”.

Em relação à ação da Igreja católica na política institucional, atualmente os clérigos são proibidos de exercerem mandatos políticos. Se o fizerem, devem pedir temporariamente licença do exercício da ordem sacerdotal.  A Igreja católica estimula os chamados “leigos” a exercerem os cargos públicos nos governos, parlamentos e partidos políticos. Porém, tal estímulo não implica numa ação efetiva com vistas a incidir na escolha, acompanhamento e avaliação daqueles “fiéis” que são eleitos e assumem cargos e funções públicas.

Na “vida como ela é”, como dizia Nelson Rodrigues, sabe-se que apesar de oficialmente a Igreja católica não apoiar partidos nem candidatos, os arranjos informais, principalmente em períodos eleitorais, são comuns na relação entre clérigos e candidatos de variados partidos. Os apoios de parte substantiva do clero ocorrem de diversas formas e estratégias, desnecessárias de serem descritas aqui.

Note-se, também, que o discurso de isenção política da hierarquia católica acaba por favorecer, em grande medida, uma postura descomprometida com aqueles políticos e partidos que, tradicionalmente, são beneficiados por uma legislação político-eleitoral altamente favorável à eleição e manutenção em cargos públicos dos caciques partidários e das elites político-econômicas não comprometidas com transformações sociais. Acontece, que o seguimento de Jesus Cristo, para ser genuíno e autêntico, exige participação ativa no trabalho de transformação da sociedade, conforme podemos observar na Doutrina Social da Igreja.

Para complicar ainda mais, os pouquíssimos candidatos eleitos que provêm dos setores populares e de movimentos sociais e eclesiais comprometidos com os mais pobres e excluídos acabam abandonados pela instituição, sob o argumento segundo o qual a Igreja não se envolve com a política partidária. O resultado dessa estratégia é perceptível: uma miríade de políticos eleitos, autodenominados católicos, cujas práticas nos governos e nos parlamentos são uma lástima e não representam, nem de longe, os ideais cristãos de justiça, solidariedade, igualdade, fraternidade, dentre outros.

O fato objetivo é que muitos governantes e parlamentares são eleitos com votos arregimentados em espaços eclesiais católicos. Nos governos e nos parlamentos significativa parte desses católicos tem se aliado às bancadas evangélicas, com interesses pouco confessáveis.

Diferentemente das Igrejas pentecostais e neopentecostais que assumiram uma postura francamente agressiva em relação à ocupação do poder, seja no executivo ou no parlamento, elegendo representantes, salvo exceções, com visões de mundo e sociedade conversadoras, machistas, moralistas e eivadas de preconceitos, a Igreja católica insiste na tese que não se mistura com política partidária.

Paradoxalmente, a os dirigentes católicos afirmam que a política é a arte do exercício do bem comum, mas, na prática, passam uma mensagem dúbia, que pode levar muitos fiéis a interpretarem a política como “coisa suja”.

Portanto, aqui, cabe uma segunda pergunta, tendo em vista os argumentos acima: será que a igreja católica não se envolve, mesmo, com a política institucional? Porque, e importante lembrar que o envolvimento político se dá pela ação ou omissão; pelo posicionamento ou não posicionamento, etc. Ou seja, ninguém, nem pessoa nem instituição, é neutro.


Por fim, tendo em vista as preocupações do Papa Francisco com a situação política brasileira; o fato de o governo interino ter anunciado uma série de medidas a penalizarem os pobres, trabalhadores, minorias e, finalmente, a postura liberal conservadora daqueles que se autodenominam católicos no Congresso, uma última pergunta: qual seria a mensagem da Igreja à sociedade brasileira neste momento após o início do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

sábado, 28 de maio de 2016

“Não vou deixar pedra sobre pedra"

Dilma concede entrevista ao Jornal da Record (27.10.2015)

No dia 27 de outubro de 2014, um dia após ter vencido as eleições, em entrevistas a telejornais (veja aqui), a presidente legítima e constitucional Dilma Rousseff fez a seguinte declaração: "Faremos um combate sem tréguas à corrupção. Nosso país não pode manter a impunidade daqueles que cometem atos de corrupção. Não vou deixar pedra sobre pedra. Eu vou fazer questão que a sociedade brasileira saiba de tudo".

Muitos brasileiros e, certamente, os grupos políticos (que historicamente assaltam o erário) e o partido da imprensa golpista não deram muita atenção a essa afirmação da presidenta. Seguramente, não conhecem a mulher de fibra, destemida e coerente que é Dilma. Todos fiavam nos velhos esquemas dos políticos tradicionais que adoram ameaçar, achincalhar, tripudiar dos adversários, mas, quando têm a faca no pescoço ou são pegos “com a mão da botija” afinam seus discursos, ficam mansinhos, mudam de opinião e cedem a todo o tipo de pressão para salvarem suas cabeças. Exemplo claro disso é o áudio de Renan Calheiros sobre a postura de Aécio Neves: “Aécio está com medo. [Me procurou dizendo]: 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'”

Os áudios divulgados nessa semana envolvendo Jucá, Sarney e Renan confirmam com toda a clareza que os machões da política nacional estão literalmente se borrando à medida que as investigações da lava-jato sobre corrupção (apesar de altamente seletivas) vão avançando. Sarney, a raposa que andava sumida (porque, como tal, articula nos bastidores) estava extasiado com a postura coerente da presidenta: “Ela [Dilma] não sai. Resiste... Diz que até a última bala”. Noutro áudio Renan diz: “ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável. ”

Como escrevi anteriormente (veja aqui), a começar pelas declarações bombásticas do senador Romero Jucá, o segundo homem-forte de Temer, porque o primeiro é Eduardo Cunha, as gravações divulgadas essa semana são uma cristalina confissão da farsa golpista. Não comprometem apenas o ex-ministro do planejamento do governo interino, seu grupo político (seria mesmo um grupo?) e os conspiradores do golpe. Atingem o sistema de justiça, notadamente o STF; confirmam a participação descarada da imprensa golpista no processo fajuto; apontam para um "eles", o PSDB (o partido que perdeu as eleições e não aceita a derrota) e, finalmente, comprometem o interino. Afinal, segundo Jucá, Temer foi citado como se tivesse sido consultado a respeito da criação de um "pacto" cuja finalidade seria acalmar a sociedade (qual sociedade?) que estava angustiada com os efeitos da operação lava-jato. Noutra gravação, o interino aparece, novamente: Sérgio Machado, em conversa com Sarney, alega que ajudou Temer  na campanha de 2012: "O Michel, eu contribuí pra ele. Ajudei na campanha do menino [Gabriel Chalita]. Até falei com ele num lugar inapropriado", diz Sérgio Machado. (Veja aqui).

Jucá já tinha afirmado que “Temer deveria fazer um governo de salvação nacional”. Para salvar os homens e as mulheres de bens, um pacto, “construído por uma nova casta pura” –  expressão de fazer inveja a Hitler -, acabaria com as investigações de corrupção que atingem vários políticos, inclusive os tucanos, na figura de Aécio, “o primeiro a ser comido". 

         À medida que o folhetim de corruptos e corruptores foi sendo confirmado nas conversas já divulgadas ficou claro que as coalizões golpistas também estão na corda bamba, porque não têm governança sobre o mar de lama que poderá emergir nas confissões de gravações que ainda podem aparecer, dependendo das fontes e seus inconfessáveis interesses. Afinal, o tal áudio de Jucá teria sido gravado em março. Por que só agora apareceu a gravação? Seria isso obra do acaso?

         O que está límpido até agora é que a promessa de Dilma Rousseff naquele 27 de outubro do ano passado não era tergiversação de político tradicional. A presidenta honrou sua palavra. Por incrível e kafkiano que pareça, Dilma é a única honrada nesse lamaçal putrefato.

Talvez, o maior legado até agora do governo Dilma, superando e muito nesse quesito o governo Lula, é o combate sistemático e profundo à corrupção generalizada que corrói nossas instituições políticas e o setor empresarial nacional.

Independentemente da reversão do processo fajuto, ilegítimo, ilegal e imoral do impeachment, o país e o mundo conheceu, pela primeira vez na história, que as instituições políticas (partidos, executivo, legislativo e judiciário), as grandes empresas e os oligopólios midiáticos, ressalvadas poucas exceções, são um antro de corrupção, mediocridade e patifaria, entre outros inúmeros adjetivos.

E, por falar em mediocridade, para fechar a semana com mais um escárnio produzido pelos membros do governo interino, ainda tivemos que assistir a boçal e patética audiência do ministro da (des)educação, que recebeu em seu gabinete um ator acusado de fazer apologia ao estupro. Uma afronta aos educadores e educadoras deste país (veja aqui). No dia seguinte a conversa, ficamos sabendo do estupro de uma jovem de 17 anos, por uma quadrilha de 33 trogloditas conscientes da barbárie. Num país onde a cada 10 minutos uma mulher é violentada e, segundo o Ipea, 70% das vítimas são crianças e adolescentes, tudo parece normal, natural e abençoado (porque alguns líderes religiosos rasgam elogios a políticos sexistas, misóginos e corruptos e outros assistem impávidos ao espetáculo grotesco). Esses episódios são sinais inequívocos do retrocesso civilizatório que vivenciamos nesses tenebrosos dias. Diante de tanta violência real e simbólica, o comodismo e a sombra da neutralidade não são aceitáveis do ponto de vista ético e moral. Em face a ameaças de violações de direitos sociais e econômicos da população, quem não se posiciona será vomitado pela história como um verme. E poderá, também, prestar contas a Deus. Afinal, lemos no livro do Apocalipse: “mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (cf. Ap 3,16).

Ainda ficamos sabendo do encontro do ministro da saúde interino com uma turma que defende, sem temor e pudor, a velha política da casa grande: direito constitucional para os ricos; direito penal para os pobres. E, mais, noticiou-se acerca do financiamento do PMDB, PSDB, Solidariedade e DEM ao MBL, um agrupamento que dispensa comentários. Tudo divulgado em doses homeopáticas pelo partido da mídia golpista, para não assustar o povo. De agora em diante, operações policiais e judiciais poderão cumprir um papel de abafar os inúmeros escândalos do governo interino. Como é notório, o fim da corrupção nunca foi e nunca será o objetivo do PMDB, do DEM e do PSDB.


Há poucos dias, enviei o currículo dos homens brancos, ricos e velhos que formam o gabinete interino para uma amiga, professora em renomada universidade no exterior. Sua resposta: “Oh! My God!” Realmente, é de assustar. E assim, o governo interino vai se notabilizando como o mais medíocre da história nacional.


Para todos os efeitos, a hipocrisia dos homens e mulheres de bens deste país está escancarada. Por mais paradoxal, o golpe, graças a firmeza de Dilma em manter sua palavra, está desnudando a entranhas de uma elite (política, midiática, empresarial, religiosa) violenta, corrupta, medíocre e perversa. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Uma afronta aos educadores e educadoras brasileiros



Tudo tem limite, diz o velho ditado popular. Porém, nessa semana chegamos a seguinte conclusão: o governo interino não tem limites. Aliás, não tem limites, pudor, ética, vergonha e por aí adiante...

Primeiro, as revelações de Jucá. Trata-se de uma confissão indubitável da farsa golpista que não compromete apenas o senador, seu grupo político (seria mesmo um grupo?) e os conspiradores do golpe. Atinge o sistema de justiça; confirma a participação descarada da imprensa golpista no processo fajuto; aponta para um "eles", o PSDB (o partido que perdeu as eleições e não aceita a derrota) e, finalmente, compromete o interino. Afinal, segundo Jucá, Temer foi citado como se tivesse sido consultado a respeito da criação de um "pacto" cuja finalidade seria acalmar a sociedade (qual sociedade?) que estava angustiada com os efeitos da Operação Lava Jato. Aliás, diga-se de passagem, o jornal alemão Ziet, comentando o escândalo das gravações perguntou, referindo-se ao governo ilegítimo: “regierung oder gangsterbande?” Tradução: Governo ou gangsters?

Depois, os áudios vazados de Renan e Sarney: velhacas (como dizia Ulisses Guimarães) raposas que operam no obscurantismo. Todos a confirmar o verdadeiro motivo do golpe: apear a presidenta Dilma do poder para que os usurpadores rifem o país. E tudo sob os auspícios das ninfas supremas. Não há como negar o óbvio ululante!

Agora, como se não bastassem tantas patifarias em série, vemos estampados nos sites de notícia a informação da audiência do titular da (des)educação (um sujeito cujo currículo não seria, por mérito, nem diretor de escola), com um ator pornô que foi levar "propostas de educação" para o ministro.

Não sou moralista como essa trupe conservadora que impediu recentemente, por exemplo, a distribuição pelo Ministério da Educação de material sobre educação sexual para as escolas. Não tenho nada contra atores pornô. Porém, o novo conselheiro do ministro da (des)educação há algum tempo atrás notabilizou-se por fazer apologia ao estupro em plena rede nacional de TV. Realmente, deve ser um grande especialista em educação do  governo interino!

O que vimos hoje é uma abissal afronta aos educadores e educadoras desse país. Um país cujo sistema educacional precisa de mais atenção, investimento e respeito por parte dos governantes e que recebe, deste (des)governo um tapa na cara despudorado.  

Indignação é insuficiente para expressar o sentimento diante de tamanha afronta. A organização que tomou o país está nos fazendo de otários; abusa da nossa paciência; provoca-nos cotidianamente. Apoiado por um oligopólio midiático-golpista que esconde, seleciona, manipula e mente acerca dos desmandos cotidianos, o governo interino tripudia o tempo todo dos milhões de brasileiros.

Uma coisa é certa: em pouco mais de uma semana temos certeza que se trata do governo mais medíocre e tacanho da história deste país.

         Tudo tem limite!

De Jucá para Rosa Weber, com carinho!

Fonte: Brasil de Fato Minas, edição 137, de 25/05/2016.

terça-feira, 24 de maio de 2016

No Facebook, página registra voz dos jovens inocentes mortos pela PM

Criada recentemente no Facebook, a página Últimas Palavras de Jovens Negros imortaliza a voz de jovens inocentes mortos pela Polícia Militar. As frases, como "Quero a minha mãe" e "Por que o senhor atirou em mim?", são acompanhadas pelo nome da vítima e uma descrição de cada caso. 
Luzia Souza, professora de História que cuida da página, crê que a sociedade não percebe que há um recorte racial nesses casos de violência. "Parece que a bala da polícia tem um sensor na ponta que só encontra jovem negro", afirma. A professora, que perdeu um irmão e um primo para a violência, aponta o papel da mídia na “naturalização” da violência policial contra jovens negros.

Do El País:
As últimas palavras de jovens negros mortos pela Polícia Militar são imortalizadas em página do Facebook

“Quero a minha mãe”, disse Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos. Provavelmente não foi a primeira vez que o jovem falou essas palavras. Mas foi a última. Em 23 de setembro de 2015 ele foi baleado e morto por policiais militares na comunidade Parque Alegria, no complexo do Cajú, no Rio de Janeiro. Testemunhas disseram que um grupo de PMs patrulhava o local, que conta com uma Unidade Policial Pacificadora, e se assustou quando a criança desceu correndo uma escadaria do bairro. Em seu bolso, 80 centavos para comprar uma bolinha de pingue-pongue. Após receber os disparos, Santana caiu e, segundo testemunhas disse suas últimas palavras: “Quero minha mãe”. Não deu tempo. Quando ela chegou, ele já estava morto. A frase, no entanto, foi imortalizada na página Últimas Palavras de Jovens Negros, criada recentemente no Facebook. O caso de Santana ainda está sob investigação.

“Nossa página tem por objetivo mostrar que esses jovens não eram, e nunca foram enquanto viveram, coisa sem valor”, diz um dos posts, que traça ainda um paralelo entre os métodos violentos da PM de hoje com o dos feitores e capitães-do-mato dos tempos da escravidão no Brasil colônia: “só trocaram o açoites por armas de fogo”. A iniciativa toca em uma antiga ferida do país que ainda está longe de cicatrizar: a maneira como a polícia por vezes age de forma arbitrária e ilegal nos bairros mais pobres. Nas periferias, onde não é necessário ter um mandado de busca e apreensão para entrar na casa de alguém, as balas não são de borracha e muitas vezes levar apenas um tapa na cara é o melhor desfecho para um enquadro.
As frases são acompanhadas pelo nome da vítima, uma breve descrição dos fatos e ahashtag #últimaspalavras. Algumas delas são simples, apenas gemidos ou gritos de dor, o último registro vocal de alguém prestes a morrer. “Mmmm....”, teria dito André Luís Parruda Goulart Siqueira Junior, 17, ao levar um mata-leão de um policial militar no dia 19 de março deste ano. Ele não resistiu e morreu sufocado. A versão oficial é que ele fugiu de uma abordagem da tropa, e precisou ser imobilizado.
“Parece que a sociedade não se toca que existe um recorte racial bem grande nisso, parece que a bala da polícia tem um sensor na ponta que só encontra jovem negro”, afirma Luzia Souza, a professora de História por trás da página. Moradora da periferia da zona leste, ela perdeu um irmão e um primo para a violência. A inspiração para a iniciativa veio de uma série de montagens semelhantes feitas tendo como base asmortes de jovens negros nos Estados Unidos em 2014 e 2015, que deu origem ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).
A professora aponta ainda o papel da mídia na “naturalização” da violência policial contra jovens negros. “Você percebe isso nas manchetes. Se é um jovem branco preso com droga, é ‘Estudante preso com droga’. Se é um negro, é ‘Traficante preso com droga”. Segundo Luzia, isso colabora para tornar as mortes de jovens negros “normais”. “É como se eles não tivessem humanidade, profissão, família, futuro...”, explica.
Outras frases da página refletem o espanto de quem foi baleado sem motivo algum por quem deveria ser responsável por sua proteção. “Por que o senhor atirou em mim?”, indagou Douglas Rodrigues, 17, após ser alvejado por um PM em 28 de novembro de 2013, na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo. Os policiais foram ao local para atender uma denúncia de “distúrbio da paz”. Quando o soldado Luciano Pinheiro Bispo foi sair da viatura para realizar a abordagem, sua arma disparou. Em nota, a corporação afirmou que “por motivo a esclarecer, houve disparo acidental, que atingiu um adolescente, de 17 anos, no tórax”. A morte de Rodrigues provocou uma série de protestos na região norte da capital, que culminaram com a interdição da rodovia Fernão Dias, três caminhões e seis ônibus queimado.



A morte de Douglas - e suas últimas palavras - deram origem a uma campanha contra a violência policial que se espalhou pelas redes sociais. À época, um grupo de artistas, entre eles o rapper Emicida, o cantor de funk MC Guimé e o dj Kl Jay, dos Racionais MC's, gravou um vídeo para dar visibilidade ao caso.
"Não precisa me matar, senhor...", teria dito Lucas Custódio, 16. Em 29 de maio de 2015 o jovem jogava bola com amigos quando foi abordado por policiais. Algemado, foi levado para um matagal na favela Sucupira, no Grajaú, zona sul de São Paulo, onde foi morto. Em um dos posts, os administradores da página dizem que querem “ecoar as vozes dos mortos para que cheguem a todos que não puderam ouvir naquele momento”. E elas chegam. Como um chute no estômago.
Fonte: Jornais GGN e El País.

domingo, 22 de maio de 2016

Em reunião com bispos do CELAM Papa Francisco fala de “golpe suave” em alguns países da América Latina

Em reunião com a presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) – órgão colegiado dos bispos de toda a América Latina – na última quinta-feira, dia 19 de maio, o  Papa Francisco advertiu que "pode ​​estar acontecendo "golpe de estado suave” em alguns países da região.

Reunião do Papa Francisco com presidência do CELAM - Foto: L'Osservatore Romano

Segundo o portal de notícias “Religião Digital”, da Espanha, (veja a notícia no original AQUI) no encontro com a cúpula do episcopado latino-americano o Pontífice também se mostrou consciente das críticas que tem recebido, incluindo de alguns cardeais, que “não conseguiram entender” de forma correta sua exortação apostólica “Amoris Laetitia” sobre o amor na família. O Papa recordou aos representantes do CELAM que a interpretação correta do Amoris Laetitia é a do cardeal Schönborn.

A tradução da reportagem é de nossa autoria e responsabilidade:


Na quinta-feira, a festa de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, o Santo Padre Francisco recebeu às 11H45, na sua biblioteca particular, os membros da Presidência do CELAM. Estavam presentes o cardeal Rubén Salazar Gómez, arcebispo de Bogotá, presidente; Dom Carlos Collazzi, bispo de Mercedes, Uruguai, primeiro vice-presidente; Dom José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís do Maranhão (Brasil), segundo vice-presidente; o cardeal José Luis Lacunza Maestrojuan, bispo de David, Panamá, presidente do Conselho de Assuntos Econômicos; Dom Juan Espinoza Jiménez, bispo auxiliar de Morelia, México, secretário-geral  e o padre Leonidas Ortiz, da Diocese de Garzón, Colômbia, secretário-assistente.

A implementação da encíclica Evangelii Gaudium

Quando o cardeal Ruben Salazar, depois de apresentar uma saudação em nome da Presidência, pediu ao Santo Padre como deseja que o CELAM atue, ele imediatamente respondeu: "implementar a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium", especialmente tudo o que se refere aos leigos. Por 50 anos ou mais foi dito que "esta é a hora dos leigos", mas parece que o relógio está parado (referindo ao Concílio Vaticano II - nota do tradutor).

O Papa recomendou especialmente a leitura e a aplicação da carta dirigida ao Cardenal Marc Ouellet, presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, em 19 de março, dia de São José, por ocasião da recente Assembleia que este organismo realizou em março, em Roma, sobre "o compromisso indispensável dos leigos na vida pública dos países latino-americanos."

O coração da "Amoris Laetitia" é o amor na vida familiar

O Cardeal Salazar fez referência ao diálogo mantido na segunda-feira com embaixadores latino-americanos acreditados junto da Santa Sé, sobre a Exortação Amoris Laetitia. O Papa respondeu que o coração da Exortação é Capítulo 4: o amor na vida familiar, fundamentado no décimo terceiro capítulo da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios.

E o mais difícil de ler é o capítulo 8. Alguns, disse o Papa, se deixaram aprisionar por este capítulo. O Santo Padre está muito consciente das críticas de alguns, incluindo cardeais, que não conseguiram compreender o significado evangélico de suas declarações. E ele afirma que a melhor maneira de entender este capítulo está sob o âmbito da apresentação feita pelo Cardeal Christoph Schonborn, arcebispo de Viena, na Áustria, um grande teólogo, membro da Congregação para a Doutrina da Fé, muito familiarizado com o a doutrina da Igreja.


Congresso sobre o Jubileu Extraordinário da Misericórdia
A presidência do CELAM também se referiu aos preparativos que estão sendo feitos para o próximo Congresso sobre o Jubileu extraordinário da Misericórdia, organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina - CAL e o CELAM. Este Congresso será realizado em Bogotá, Colômbia, de 27-30 agosto de 2016, com o slogan, "Que um vento impetuoso de santidade percorra o próximo Jubileu extraordinário da misericórdia em todas as Américas". O Papa ficou satisfeito com esta informação e encorajou os bispos da América Latina a aderirem a esta grande celebração.

A preocupação do Papa para a América

O Santo Padre expressou preocupação com os problemas sociais dos países da América Latina em geral. Está preocupado com a eleição nos EUA por falta de uma atenção mais viva à situação social dos mais pobres e excluídos.

O Papa está preocupado com os conflitos sociais, econômicos e políticos na Venezuela, Brasil, Bolívia e Argentina. Atualmente, segundo o Papa,  pode estar ocorrendo um "golpe de estado suave" em alguns países.

Francisco está atento com as carências do povo haitiano e a falta de diálogo entre as autoridades dos países que compartilham a ilha, Haiti e República Dominicana, para encontrarem uma solução jurídica para os migrantes e apátridas. Ele se preocupa acerca da interpretação do que é um Estado laico e o papel da liberdade religiosa para algumas autoridades mexicanas.

O Papa encorajou os representantes da CELAM a ver o progresso que está ocorrendo no processo de paz na Colômbia; também incentivou a sua próxima viagem a este país para fazer uma visita pastoral a um povo que foi atingido pela violência e que precisa tomar caminhos que de perdão e reconciliação.


O Papa Francisco fica entusiasmado quando começa a falar sobre a Pátria Grande que é a América Latina e dos esforços que não devem cessar para alcançar uma maior integração de nossos povos. Para isso, é necessário acertar posições mais próximas para que se restabeleça o diálogo social e a busca conjunta de soluções para superar os desafios do mundo de hoje.

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Nota: o mais importante nessa reportagem feita por um veículo da imprensa internacional (que não é especializado em política) é o destaque na matéria em relação a preocupação do Papa com os golpes que ocorrem na América Latina. Isso mostra que a narrativa acerca da similaridade do modus operandi da tomada de poder pela elites latino-americanas que ocorreram no Paraguai, Honduras e, agora, no Brasil, tem fundamento e é objeto de preocupação do Pontífice. Nos últimos dias, assistimos pelo menos três vezes o Papa se referir a situação do Brasil: num encontro com Adolfo Perez Esquivel; noutro, com Letícia Sabatela e a juíza Kenarik Boujikian Felippe e, agora, com o CELAM.