Um sentido para a esquerda. Por: Pe. Magno do Nascimento Oliveira


         No Brasil vivemos da falta de sentido. Isso é bastante sério. Isso significa que não temos muita coisa em que acreditar, que a vida na melhor das hipóteses segue sem ânimo e sem destino, mendigando sobras de sentido pelas ruas de uma história escrita por quem nunca se preocupou realmente por constituir uma nação. Sim. Desde a chegada das caravelas por aqui, a questão do sentido foi relegada a segundo plano. O que se poderia querer dar para uma terra que enchia os olhos da ganância e alimentava a sede de explorar.

         Não se oferece sentido para quem se deseja explorar. Ao explorado se procura, na verdade, tirar tudo. E assim essa terra foi sugada, dilapidada, desconstruída em seus símbolos até sangrar e chegar a ter como signo máximo a própria exploração, e um complexo de inferioridade do qual se padece hoje de forma medular. No interior do brasileiro se articulam falas e imagens de um Brasil que jamais dará certo. É o famoso complexo de vira-lata. E ele está mais enraizado na percepção do indivíduo brasileiro do que se imagina.

Por princípio, por aqui, todo brasileiro é preguiçoso. O Brasil não cresce segundo essa imagem porque não trabalhamos. E o tal do “jeitinho”? O jeitinho brasileiro é a prova maior de uma identidade estruturada, segundo os brasileiros, para fazer funcionar o mundo dos mais espertos e caras-de-pau. E como todos são dados ao jeitinho, atávico em nós como o carnaval e a alegria, a guerra constante de todos os espertos se constitui em algo fratricida, num boicote social de larga escala. Nada funciona com essa situação jeitosa. Todo mundo que dar um jeitinho em algo e aí todos ficam desajeitados.

E o brasileiro de classe média gosta de declamar seu desejo de ir para fora dessas terras. Aqui nada funciona, pensa. Inclusive, fica procurando saber quais são suas raízes europeias. Afinal é bonito ter ligação com alguém, que veio de lá do outro lado, desde que não seja português. Melhor que sejam raízes buscadas na Itália, na Espanha, enfim, entre os que são menos culpados pela tragédia brasileira, farta de piadas. Tudo isso culmina num prato antidemocrático. Os ingredientes do patrimonialismo, do racismo negado, do elitismo mais pobre do planeta (cópia caricata de tudo do exterior, sem conteúdo), do fundamentalismo religioso e do preconceito de toda ordem dão um caldeirão tenso e denso de contradições.

Ora, a esquerda golpeada nos últimos tempos, para ser significativa, precisaria encarar e pesada tarefa de encontrar um sentido para o Brasil. Isso seria um sentido para a esquerda e suas lutas. Aliás, esse sempre foi o seu sentido, mas nem sempre explorado como sentido orgânico de sua performance social, teórica, também dependente de fora, de ideias burladas sem originalidade necessária para desencadear a revolução precisa para o homo brazilis.

As lutas sociais no Brasil não terão efeito se a democracia buscada não tiver em si a concreção do sentido, por estranho que isso pareça em tempos de afirmação da globalização, de uma nacionalidade que se entenda como possibilidade de ver uma imagem própria da nação, não ufanista, mas apreensível para o homem e a mulher destas terras. O Brasil ainda não se contempla no espelho, não arruma a própria roupa ao ver-se ou pentear o cabelo. Não consegue ter nenhuma vaidade. Por isso não se defende, se entrega logo e prefere, quando muito, entrar destrutivamente em processo autofágico.

Apesar da historiografia já ter tentado pensar nisso, no fundo ninguém sabe o que é o Brasil. Ninguém se identifica com o Brasil. Qualquer crise já é suficiente para todos pedirem para descer do Brasil e passar a compará-lo com o que parece ser ideal nos outros. Não se encontra um sentido dentro, só fora. Desta sorte, a questão para esquerda é política e cultural em suas intersecções profundas no terreno da ética. Da mesma forma que age politicamente, por outro lado o desafio é fazer da luta uma trajetória pelo direito de ser brasileiro, de ter pertença a uma cultura, que já possui significados latentes, mas sempre reiteradamente negados, por isso não patentes, claros para abraçar como bandeira a hastear contra tiranias.

         O brasileiro ainda não brasileiro amarga não ser nada. Sente náuseas de não ter significado, um sentido, de ser visto como espécime rara para aos olhos do mundo. Sente seu pedaço de terra como uma velha choupana. Só de vez em quando sente alegria, não orgulho, por algum fato inusitado. Os exploradores destas terras, do passado e do agora, só aprofundaram isso. A esquerda precisa entender que a contramão desse aprofundamento é o seu ir de encontro ao Golias. Se isso não acontecer a esquerda sempre se digladiará contra uma cultura do oportunismo, da mais valia da falta de caráter, facilmente assimilável pelas massas, elas duplamente sem caráter: sem características de fundo cultural enquanto identidade a defender e sem vergonha na cara. A questão não é só de direitos sociais, mas também de direitos culturais. É agir, pensar e agir.


(Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira)

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