Em reunião com bispos do CELAM Papa Francisco fala de “golpe suave” em alguns países da América Latina

Em reunião com a presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) – órgão colegiado dos bispos de toda a América Latina – na última quinta-feira, dia 19 de maio, o  Papa Francisco advertiu que "pode ​​estar acontecendo "golpe de estado suave” em alguns países da região.

Reunião do Papa Francisco com presidência do CELAM - Foto: L'Osservatore Romano

Segundo o portal de notícias “Religião Digital”, da Espanha, (veja a notícia no original AQUI) no encontro com a cúpula do episcopado latino-americano o Pontífice também se mostrou consciente das críticas que tem recebido, incluindo de alguns cardeais, que “não conseguiram entender” de forma correta sua exortação apostólica “Amoris Laetitia” sobre o amor na família. O Papa recordou aos representantes do CELAM que a interpretação correta do Amoris Laetitia é a do cardeal Schönborn.

A tradução da reportagem é de nossa autoria e responsabilidade:


Na quinta-feira, a festa de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, o Santo Padre Francisco recebeu às 11H45, na sua biblioteca particular, os membros da Presidência do CELAM. Estavam presentes o cardeal Rubén Salazar Gómez, arcebispo de Bogotá, presidente; Dom Carlos Collazzi, bispo de Mercedes, Uruguai, primeiro vice-presidente; Dom José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís do Maranhão (Brasil), segundo vice-presidente; o cardeal José Luis Lacunza Maestrojuan, bispo de David, Panamá, presidente do Conselho de Assuntos Econômicos; Dom Juan Espinoza Jiménez, bispo auxiliar de Morelia, México, secretário-geral  e o padre Leonidas Ortiz, da Diocese de Garzón, Colômbia, secretário-assistente.

A implementação da encíclica Evangelii Gaudium

Quando o cardeal Ruben Salazar, depois de apresentar uma saudação em nome da Presidência, pediu ao Santo Padre como deseja que o CELAM atue, ele imediatamente respondeu: "implementar a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium", especialmente tudo o que se refere aos leigos. Por 50 anos ou mais foi dito que "esta é a hora dos leigos", mas parece que o relógio está parado (referindo ao Concílio Vaticano II - nota do tradutor).

O Papa recomendou especialmente a leitura e a aplicação da carta dirigida ao Cardenal Marc Ouellet, presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, em 19 de março, dia de São José, por ocasião da recente Assembleia que este organismo realizou em março, em Roma, sobre "o compromisso indispensável dos leigos na vida pública dos países latino-americanos."

O coração da "Amoris Laetitia" é o amor na vida familiar

O Cardeal Salazar fez referência ao diálogo mantido na segunda-feira com embaixadores latino-americanos acreditados junto da Santa Sé, sobre a Exortação Amoris Laetitia. O Papa respondeu que o coração da Exortação é Capítulo 4: o amor na vida familiar, fundamentado no décimo terceiro capítulo da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios.

E o mais difícil de ler é o capítulo 8. Alguns, disse o Papa, se deixaram aprisionar por este capítulo. O Santo Padre está muito consciente das críticas de alguns, incluindo cardeais, que não conseguiram compreender o significado evangélico de suas declarações. E ele afirma que a melhor maneira de entender este capítulo está sob o âmbito da apresentação feita pelo Cardeal Christoph Schonborn, arcebispo de Viena, na Áustria, um grande teólogo, membro da Congregação para a Doutrina da Fé, muito familiarizado com o a doutrina da Igreja.


Congresso sobre o Jubileu Extraordinário da Misericórdia
A presidência do CELAM também se referiu aos preparativos que estão sendo feitos para o próximo Congresso sobre o Jubileu extraordinário da Misericórdia, organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina - CAL e o CELAM. Este Congresso será realizado em Bogotá, Colômbia, de 27-30 agosto de 2016, com o slogan, "Que um vento impetuoso de santidade percorra o próximo Jubileu extraordinário da misericórdia em todas as Américas". O Papa ficou satisfeito com esta informação e encorajou os bispos da América Latina a aderirem a esta grande celebração.

A preocupação do Papa para a América

O Santo Padre expressou preocupação com os problemas sociais dos países da América Latina em geral. Está preocupado com a eleição nos EUA por falta de uma atenção mais viva à situação social dos mais pobres e excluídos.

O Papa está preocupado com os conflitos sociais, econômicos e políticos na Venezuela, Brasil, Bolívia e Argentina. Atualmente, segundo o Papa,  pode estar ocorrendo um "golpe de estado suave" em alguns países.

Francisco está atento com as carências do povo haitiano e a falta de diálogo entre as autoridades dos países que compartilham a ilha, Haiti e República Dominicana, para encontrarem uma solução jurídica para os migrantes e apátridas. Ele se preocupa acerca da interpretação do que é um Estado laico e o papel da liberdade religiosa para algumas autoridades mexicanas.

O Papa encorajou os representantes da CELAM a ver o progresso que está ocorrendo no processo de paz na Colômbia; também incentivou a sua próxima viagem a este país para fazer uma visita pastoral a um povo que foi atingido pela violência e que precisa tomar caminhos que de perdão e reconciliação.


O Papa Francisco fica entusiasmado quando começa a falar sobre a Pátria Grande que é a América Latina e dos esforços que não devem cessar para alcançar uma maior integração de nossos povos. Para isso, é necessário acertar posições mais próximas para que se restabeleça o diálogo social e a busca conjunta de soluções para superar os desafios do mundo de hoje.

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Nota: o mais importante nessa reportagem feita por um veículo da imprensa internacional (que não é especializado em política) é o destaque na matéria em relação a preocupação do Papa com os golpes que ocorrem na América Latina. Isso mostra que a narrativa acerca da similaridade do modus operandi da tomada de poder pela elites latino-americanas que ocorreram no Paraguai, Honduras e, agora, no Brasil, tem fundamento e é objeto de preocupação do Pontífice. Nos últimos dias, assistimos pelo menos três vezes o Papa se referir a situação do Brasil: num encontro com Adolfo Perez Esquivel; noutro, com Letícia Sabatela e a juíza Kenarik Boujikian Felippe e, agora, com o CELAM.

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