O papel da imprensa e outras impressões


Inúmeras e variadas são as análises dos resultados das eleições deste ano. Isto é muito bom e positivo. Com o avanço das redes sociais, os comentaristas de plantão, principalmente alguns velhos donos da verdade – que tentam emplacar seus pontos de vista lastreados numa “unanimidade burra” (favorável aos interesses das grandes elites detentoras do poder econômico) – encontram contrapontos que enriquecem o debate e, em última análise, aprimoram a democracia – que deve conviver, respeitar e promover as diferenças.
Este aprendiz de comentarista político, que observa nas redes sociais um espaço para vocalizar seus pontos de vista, também entra nesse mercado persa – onde há liberdade de expressão dos artistas –, mas que para muitos não passa de uma arena do opinódromo. E qual o problema?
As redes sociais estão incomodando... Não é a toda e sem motivos que alguns veículos da grande mídia começam uma campanha para deslegitimá-las. Como é difícil conviver com a pluralidade, principalmente num país que também não fez a sua “reforma agrária” no campo da comunicação social! O público já não espera que a opinião publicada seja determinante da opinião pública. Cada vez mais as nuances e incertezas acerca do que é publicado aparecem nas novas mídias. Antes, como não havia muita diversidade de fontes informativas, tudo o que a imprensa dizia não enfrentava o criticismo de hoje. Os jornalistas e os meios de comunicação perdem o lugar de oráculo da verdadeQue bons ventos!
Uma grande renovação
De maneira geral, e quase unânime – como sempre –, a grande mídia – que representa os interesses da direita conservadora brasileira – afirma que o grande vencedor das eleições deste ano foi o “gato de olhos verdes”, (Eduardo Campos), que driblou o “sapo barbudo” (Lula). Cansados de apostar suas fichas no PSDB (de Serra, FHC, Aécio e companhia) – que têm dado sinais de enfraquecimento nos últimos pleitos –,os grandes veículos de comunicação precisam eleger novos “salvadores da pátria”. Primeiro criaram a “Liga da Justiça”, ao eleger os juízes imaculados do Supremo como os novos referenciais da moral e ordem públicas. Depois, tentaram emplacar o “batman” (Joaquim Barbosa) – transformando o menino pobre e negro no herói nacional. Tudo com o objetivo de influenciar as eleições. Parece que a estratégia não “colou”.
O povo – “essa gentalha do andar de baixo” (na opinião de boa parte da elite e da classe média) – já não se deixa manipular facilmente, como nos tempos dos coronéis – e atualmente esses donos das capitanias hereditárias da grande imprensa.
Então, vamos colocar mais lenha na fogueira. O que essas eleições trazem de novo? Um país mais plural, representado pelo crescimento da votação dos chamados partidos nanicos. A busca insana para formar grandes coligações – sem levar em conta quaisquer preceitos ideológicos ou éticos – fez com que pequenos partidos conseguissem alcançar o coeficiente eleitoral. A Câmara de Belo Horizonte, por exemplo, tem representantes de 16 partidos. Nas capitais, temos um quadro partidário mais amplo, que supera a bipolar disputa entre PT e PSDB, suplantando também partidos tradicionais, como o PMDB e o DEM.
Em termos partidários, o PMDB ainda detém o maior número de prefeituras. Mas continua um partido que se sustenta por causas de suas elites locais; um partido sem grande expressão nacional (mas fiel da balança nas grandes disputas). O PSDB dá sinais de enfraquecimento (não só pelo fato de ter perdido na maior cidade brasileira, mas pelo desencanto geral da população em relação aos seus quadros e à falta de uma proposta alternativa de poder). O partido tem, ainda, uma configuração nacional, mas novo racha se avizinha na disputa entre o núcleo duro paulista e outros grupos, como o liderado pelo senador Aécio Neves. O PSD, de Kassab, representa a direita que tenta se renovar depois da vexatória derrocada do DEM (que é um morto-vivo, mesmo com a vitória de ACM Neto, em Salvador). O PT teve crescimento considerável e, hoje, é o partido de expressão nacional mais potente. Porém, a grande renovação nos legislativos e nos executivos sinaliza que se o partido não escutar “o clamor das urnas” poderá trilhar os mesmos caminhos de outras grandes forças políticas que experimentam a derrocada.
A quem interessa a demonização da política?
As vitórias do PSB devem ser encaradas com ressalvas: dizer que Márcio Lacerda, prefeito reeleito de BH, é socialista é o mesmo que acreditar que Marx fora um devoto de São José Operário. Ademais, a vitória de Geraldo Júlio em Recife deve ser analisada para além do apadrinhamento de Eduardo Campos. Lá, ao contrário de São Paulo, a interferência de Lula foi danosa para o PT – que poderia, noutro contexto, ter dado trabalho ao socialista. No caso de Fortaleza, a participação dos irmãos Ciro e Cid Gomes na campanha socialista foi decisiva para a vitória de Roberto Cláudio.
Daqui, das Minas Gerais, nenhuma novidade: o quadro eleitoral praticamente se definiu no início do segundo turno e qualquer liderança local que queira “cantar vitória” não terá seu discurso sustentado na realidade. Em Contagem, uma aliança duvidosa e pragmática definiu a vitória de Carlin Moura (estranho num mesmo lado termos newtistas, ademiristas, aecistas e comunistas – um verdadeiro “balaio de gatos”). Em Juiz de Fora, a vitória Bruno Siqueira, do PMDB, e em Montes Claros, de Ruy Muniz, do PRB, estavam anunciadas (sendo que em Montes Claros o apoio de Aécio Neves consolidou a vitória de Muniz). A surpresa veio de Uberaba. Apesar do apoio explícito de Aécio Neves e Márcio Lacerda, o candidato do PSB foi derrotado e Paulo Piau, do PMDB, foi eleito.
Um fato importante: os votos nulos, brancos e abstenções somam quase ¼ do eleitorado. Isso é preocupante. Em certa medida, uma pauta altamente negativa sobre a política – capitaneada pela mídia –, somada à propaganda incisiva do TSE acerca de um “voto limpo” são elementos que podem ter corroborado nesse contingente de brasileiros que parecem desacreditar da possibilidade de transformações sociais pela via das eleições. Numa democracia representativa, cujo suporte principal se dá no processo das eleições, isso é uma luz amarela incandescente que deve preocupar as lideranças da política institucional, a sociedade civil, os poderes constituídos e também os veículos de comunicação. A quem interessa a demonização da política?
O eleitor não está apático
Outro ponto que merece atenção especial é a pauta embutida no discurso religioso e moralista que vem recrudescendo nas últimas eleições. Esse é um fenômeno preocupante porque não contribui para o aperfeiçoamento da nossa cambiante democracia, sequer aponta para um discurso e prática propositivos. Ancorados num pragmatismo eleitoreiro – que usa a religião como bastião da salvação nacional (ao invés de atribuir a política como locus do aperfeiçoamento social) –, líderes de diversas denominações religiosas adentram num campo pantanoso que vai do incitamento ao ódio contra minorias às promessas impossíveis de serem alcançadas nessa vida...
Para 2014, o cenário ainda é nebuloso. Não dá para fazer qualquer análise futurológica, apesar dos analistas de plantão apontarem um quadro definido de disputa entre o PT e o PSDB. A grande renovação nas câmaras municipais, o despontar de novas lideranças e também a boa renovação nas eleições para prefeitos indicam que o eleitor – que optou por manifestar-se nestas eleições – não está apático no processo eleitoral.
O certo é que as alianças que se avizinham podem definir o cenário. Se, por exemplo, Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB) lançarem candidaturas separadas com o objetivo de forçar um segundo turno na disputa com o PT (independentemente do candidato ser Dilma ou Lula), a disputa será eletrizante. Ainda mais dependendo de como se comportarão os pêndulos do PMDB e do PSD.

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