Feliz ano velho: 2017 tem tudo para ser pior.


Não pretendo ser mais realista que o rei. Mas, não adianta entrarmos nesse clima infantilizado de final de ano. Achar que num passe de mágica as pessoas, o mundo, os golpistas mudarão. Acreditar que com crendices, rezas e rituais teremos a intervenção cósmica, ou divina, a resolver milagrosamente os nossos problemas sociais, políticos, econômicos...

Entendo que um pouco de ilusão, fantasia e fuga da realidade tornam-se ingredientes importantes para suportar a dureza da vida e dos fatos. 

Nessa época, o final de ano, há uma “tentação” de acharmos que os milagres existem (a começar pelo fantasioso papai Noel). Ou que vale apostar todas as fichas numa esperança de esperar (que tudo mude para melhor, sem esforço pessoal e comunitário) ao invés de esperançar-se (ou seja, juntar-se com os outros para fazer algo diferente). Esse clima produz sujeitos passivos, poliqueixosos e irresponsáveis, à medida que a solução para os problemas do cotidiano são transferidos para o outro; ou são direcionados para o além.

Porém, tudo indica que a curto prazo, no campo da política, não há razões para sermos otimistas. E só não vê quem não quer:

1.    Temer e sua camarilha implementaram um golpe imprevisível e, desde então, iniciaram um programa de desmonte do estado sem precedentes.

2. Para atenderem as expectativas dos rentistas e do Tio Sam, os verdadeiros ganhadores do golpe, estão a implementar uma agenda que inclui violentos cortes nas áreas sociais (a garantir o superávit, visando o pagamento da dívida aos especuladores); de entrega do patrimônio público a alienígenas (privatizando a preço de banana os bens públicos, como fizera anteriormente FHC); de desmonte da indústria e da pesquisa nacionais (para manter o país na condição de colônia eternamente explorada); e, ainda, a imposição de regras trabalhistas e previdenciárias similares ao capitalismo do século XIX (cuja mentalidade dos burgueses à época era a exploração máxima da classe trabalhadora, de maneira que pudessem garantir o lucro absurdo e manter a massa operária dependente). Realmente, a começar pelo lema do governo golpista, “ordem e progresso”, parece que retornamos ao século XIX, quando a classe dominante, na Europa, se manteve insensível às condições de precarização e deterioração da vida do trabalhador, preferindo ignorar a imensa dívida social, pois não se sentia atingida pelas desventuras dos pobres. Era mais cômodo e fácil fingir que nada acontecia e tratar os trabalhadores e os pobres como se não fossem seres humanos. Esse é o retrato do Brasil sob Temer.

3.  Para navegar em céu de brigadeiro, Temer, o decorativo, estará alinhado aos tucanos – que formam o núcleo duro de seu governo -, e aos setores do banditismo político incrustados no Congresso Nacional: o centrão, aquela facção forjada por Cunha para chamar de sua; a bancada BBB e a turma do PMDB, os coronéis da velhaca política nacional.

4.  O golpista continuará tendo o apoio amistoso da juristrocracia nacional. Para tanto, contará com um Ministério Público Federal que, nos dizeres de Eugênio Aragão, “se ideologizou, se apaixonou pelo fetiche criminalista, e relegou muitas de suas funções mais preciosas em nome de um fortalecimento da perseguição penal. Com isso, ele deu uma guinada para a direita e hoje é profundamente conservador”.  Sob o atual ministro da justiça, terá uma Polícia Federal transformada numa polícia política, sem controle e de ação enviesada e não-republicana. A partir do STF terá um judiciário que confirma a sina da justiça desse país: sempre serviçal da casa grande.

5.  Com a patrocinadora do golpe, a mídia antidemocrática, manipuladora, sem controle social e alçada à condição de produtora da agenda política brasileira, Temer será generoso, despejando dinheiro público, com faz em doses cavalares neste final de ano. Até capa de princesa já ganhou para a sua “bela, recatada e do lar”.

6.  No próximo ano, pelo andar da carruagem, mais uma vez em parceria com a juristocracia, há condições ideais para que a mídia continue a exercer seu papel de chantagista e definidora da produção da tal agenda política nacional.

7.  Por outro lado, Moro e Gilmar Mendes, os parceiros queridinhos da mídia tupiniquim e dos verdadeiros ganhadores do golpe, continuarão no centro das disputas políticas. Essa é a república brasileira atual: o centro das decisões políticas foi deslocado dos poderes que têm no voto a referência e se instalou num poder autocrático, hermético e distante daqueles que são a origem e a razão do poder: o povo. A instabilidade provocada por esses atores do judiciário e policiais é proposital para manter o sistema político frágil e poroso, permeável ao controle e às chantagens dos interesseiros, numa democracia de baixíssima intensidade.

8.  As imensas perdas de patrimônio e da renda do empresariado nacional serão compensadas com o arrocho salarial e a precarização das condições de vida dos trabalhadores. Como nossos empresários e comerciantes sempre pensam no imediato, nas férias em Miami e no próprio umbigo, continuarão incapazes de prever o tamanho do fosso no qual estão sendo lançados. Os capitalistas exógenos terão condições ideais, em pouco tempo, de comprar a preço de banana os restos, ou seja, os despojos da indústria e do patrimônio nacional dilapidados pela sanha dos golpistas.

É pouco previsível, a curto prazo, que esse cenário dantesco sofra alterações substantivas, ainda mais se considerarmos que no plano internacional grassa o recrudescimento da direita conservadora, cuja “onda azul”, aqui bem caracterizada pela cor do tucanato, espraia-se mundo afora.

Não se sabe se esse alargamento do conservadorismo é refluxo de um capitalismo que urra para sobreviver. Afinal, o capitalismo rentista produziu um esgotamento que pode ser percebido em várias dimensões: do ecossistema, da política, da economia baseada na especulação e no rentismo, das instituições tradicionais - incapazes de dar respostas a uma sociedade cada vez mais complexa. Além disso, em seu formato especulativo e rentista da atualidade, o capitalismo destrói as comunidades e as minorias étnicas e sociais.

Portanto, é preciso inscrever o golpe ocorrido no Brasil dentro dessa dimensão político-econômica mais ampla para que possamos perceber suas dimensões e consequências e escaparmos das análises minimalistas ou panfletárias, que não dimensionam perspectivas mais amplas e complexas para o seu enfrentamento.

Ademais, haja vista nosso tipo de sociedade (proposital e culturalmente despolitizada, com uma cidadania pouco ativa, acostumada com um estado assistencialista e “naturalmente” patrimonialista e elitista) é pouco provável que uma reação surja através de grandes mobilizações sociais.

Como o imprevisível é componente real das disputas em curso pelo controle do golpe (envolvendo os três poderes e outros atores interessados nos desmonte do estado), restará alguma perspectiva de mudança do cenário, a médio prazo, se houver a (pouco provável) união dos campos progressistas.

Mas, não nos enganemos. Não é pulando ondas, orando tresloucadamente ou queimando fogos de artifício que teremos um 2017 melhor...

Então, pelo menos por enquanto, feliz ano velho!


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