JORNAL DE DEBATES - OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA: O crescimento da coalizão conservadora

 O "IMBRÓGLIO" POLÍTICO NACIONAL

Por Robson Sávio Reis Souza em 19/01/2016 na edição 886 do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA



À medida que o poderio econômico, com seus interesses políticos, foi dominando a mídia, presenciamos uma incestuosa relação no universo da comunicação de massa: parte do jornalismo subjugado às conveniências do grande capital, conformado com os interesses econômicos dos grandes oligopólios midiáticos, a produzir o que deve ser pautado, como, quando, de qual forma, recorte e viés, assim como o que deve ser publicado. Ou melhor, o que deve ser publicizado – dado que o jornalismo tem se transformado ora em mercadoria, ora em produto de entretenimento.
Assim, parte da cobertura jornalística dos grandes veículos de comunicação transmutou-se em espetáculo, muitas vezes grotesco, a ser vendido de forma sensacionalista para o deleite do cidadão, um receptor-consumidor acostumado à política do panis et circenses.
As grandes redes de comunicação, as poderosas agências noticiosas e os grandes conglomerados da imprensa determinam o que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião pública. Denunciam veementemente qualquer tipo de censura e, paradoxalmente, aplicam a censura em quase todos os seus produtos midiáticos na medida em que publicam somente o que lhes interessa, eliminando, por exemplo, as várias vozes que tentam ecoar no seio da sociedade.
A crise político-econômica e a coalizão conservadora
O preconceito, a luta pela igualdade racial, as discriminações religiosas e sexuais e tantos outros dilemas sociais geralmente não fazem parte da pauta da grande mídia, no Brasil. Por outro lado, a superexposição na mídia de vários tipos de crimes associados a preconceitos, sentimentos de vingança e desinformação acerca dos fenômenos da violência provocam uma banalização dos valores humanos.
Em relação à TV, veículo de comunicação com maior penetração social – apesar das emissoras funcionarem como concessões públicas, tendo como obrigação constitucional priorizar a informação, a cultura, as artes e a educação e, inclusive, a educação em direitos humanos –, na prática, a maioria absoluta desses veículos ignora esses temas.
Dois acontecimentos, explorados em doses cavalares pela mídia brasileira, se associaram no aprofundamento da crise político-econômica e institucional em 2015: a conflagração de uma coalizão de direita nunca antes eleita (forjada pelos partidos de oposição, notadamente PSDB, DEM e PPS) e a liderança de Eduardo Cunha, cujo modus operandi combina artimanha política, perversidade negocial e um caráter patologicamente perverso.
Comecemos pela análise das ações de Eduardo Cunha, um dos líderes da coalizão conservadora articulada na Câmara dos Deputados. Em 18 de junho do ano passado, quando começaram a aparecer as primeiras denúncias (dessa nova safra) contra ele, em um post, já previa: “Não subestimemos Eduardo Cunha” (veja aqui). Nesse texto, sustentava que Cunha, mesmo com a enxurrada de denúncias contra sua atuação o comando da Câmara, continuava liderando:
– inúmeros “revoltados” on e off line, em sua maioria filhos das elites tupiniquins, que desde o segundo turno das eleições de 2014 articulam um impeachment que cheira à golpe;
– políticos de variados partidos que não têm nada a perder, porque sempre jogam do lado do “quanto pior, melhor”;
– segmentos variados no seio da sociedade, do empresariado e da intelectualidade que sempre investiram tudo para a manutenção de um status quo elitista; ou seja, um país desigual e injusto social e politicamente;
– grupelhos religiosos raivosos que pregam uma guerra santa em nome dos seus interesses inconfessáveis;
– e, evidentemente, oligopólios da imprensa que, atualmente, ajudam na promoção da instabilidade política com vistas a respaldarem rupturas institucionais e que, qual folha de bananeira ao vento, sopram do lado mais conveniente aos interesses dos poderosos.
Uma agenda interesseira
Naquela ocasião, advertia que se não houvesse, rapidamente, uma ocupação dos espaços vazios de poder, Cunha poderia se tornar muito mais “musculoso politicamente” do que se encontrava naquele momento.
Sobre o caráter de Cunha, lembrava aos leitores que um homem que não tem nenhum escrúpulo atrai aventureiros, oportunistas e covardes de todas as espécies e, por isso, dele pode-se esperar tudo. E concluía: não subestimemos Cunha porque seu séquito não é desprezável, apesar de ser desprezível.
Enquanto isso, Dilma Rousseff continuava na berlinda, incapaz de articular uma coalizão que pudesse criar uma base de sustentação do governo. O desgaste da base de apoio do Planalto, notadamente do PT, ocorria em doses cavalares. Em parte, pelo oportunismo do próprio partido ao embarcar no jogo sujo da política eleitoreira, via financiamento empresarial das campanhas, além de aceitar em suas hostes o que há de pior na política; e também pela ação seletiva da Polícia Federal e da justiça da “casa grande”, via vazamentos seletivos da Lava-Jato, com a cobertura sempre enviesada, tendenciosa e, por vezes, criminosa da mídia tupiniquim, como ocorrido em várias capas de revistas de circulação nacional.
Por outro lado, o partido mais fisiológico do Brasil, o PMDB, foi-se fragmentando à medida que seus coronéis começaram a vislumbrar no impeachment uma saída para seus intentos pessoais. A vergonhosa e infantil carta do vice-presidente Michel Temer denunciava a desfaçatez desse aglomerado político-eleitoreiro alcunhado de partido.
Nas ruas, parcela da classe média, com alto poder de vocalização de sua agenda interesseira pela mídia tradicional, sua porta-voz de primeira hora, que gosta de bater panela inoxidável e acha normal Cunha continuar no poder, conseguiu pautar boa parte dos segmentos políticos que sustentam a ideia segundo a qual o impedimento da presidenta tem base de apoio popular.
A mídia e coalizão conservadora
Sob o ponto de vista institucional, passaram-se mais de cinco meses daquela nossa crônica sobre Cunha. E o presidente da Câmara continua dando as cartas do jogo político, não obstante o corretivo aplicado pelo Supremo Tribunal Federal no final do ano passado.
É claro que o governo Dilma continuou frágil em termos de negociação, articulação política e consolidação de uma base mínima de apoio no Congresso. Mas a “supremacia Cunha” só foi possível porque, além dos fatores anteriormente elencados, outros, como a consolidação de uma ampla coalização de direita, configuraram-se a ampliar e potencializar as fileiras do golpe.
Além dos representantes dos oligopólios midiáticos, diferentes grupos recrudesceram numa guinada à direita, nos últimos meses, robustecendo essa coalizão que começou a se estruturar desde os protestos de 2013, passando pela eleição de 2014 e, por fim, a eleição de Cunha como presidente da Câmara. Nesse momento, essa coalizão conservadora é formada por um grupo político, social e econômico muito bem estruturado. Fazem parte dela:
– os representantes do empresariado que sempre trataram o Brasil como uma colônia (e por isso têm suas residências em Miami);
– a bancada religiosa (salvo exceções) ultraconservadora e proselitista, cuja moral é a manipulação indecorosa em nome de um deus perverso (de e para poucos);
– a bancada policial e da bala (salvo exceções), que anda saudosa daqueles tempos em que os “representantes da lei e da ordem” agiam como capatazes impunes dos senhores da casa grande;
– parcela da classe média, com grande poder de vocalização de suas demandas (privilégios, e não direitos);
– um número bastante expressivo de parlamentares (não somente no Congresso, mas em outras casas legislativas nos estados e municípios) que se elegeram graças ao dinheiro sujo das eleições passadas.
Mas é preciso dizer que a mente ardilosa de Cunha só é tão brilhante porque, certamente, outras do mesmo “calibre” se somam na empreitada de inviabilizar o governo e, por consequência, possibilitar uma saída para as crises política e econômica. Minha hipótese é que nos bastidores da grande coalizão conservadora agem outras lideranças astutas e muito sagazes do PSDB, PPS, DEM e Solidariedade, associadas a um grupo bem articulado de cronistas, jornalistas e comentaristas políticos que tocam o piano de uma nota só (a crise).
Especificamente em relação a Aécio Neves, um dos maestros da sinfonia do caos, todos sabem que se trata de um personagem político que em hipótese alguma admite perder e, se a derrota for grande, não mede esforços para uma vingança nas mesmas proporções e dimensões. Aécio não aceitou a humilhação de sua derrota no pleito passado e não descansará nem terá nenhum limite para conseguir seu intento: ser presidente do Brasil. Para ele, isso não é um desejo; é uma sina e, como tal, será conquistada a qualquer custo.
Coloquem-se sob a liderança de Aécio e Cunha figuras como Ronaldo Caiado, Álvaro Dias, Agripino Maia, Roberto Freire, José Serra, Aloysio Nunes, Jair Bolsonaro, Mendonça Filho, Feliciano, Cássio Cunha Lima ou Paulinho da Força, entre outros. Qualquer um saberá que “nunca antes na história deste país” um grupo conservador, radical e raivoso esteve tão bem articulado e unido. Dê a esse grupo as cornetas dos jornais, redes de TV e outras mídias. Era tudo que desejava Carlos Lacerda em outros carnavais…
Mas há uma boa notícia no final desse enredo. À medida que a porta do armário que ocultava os saudosos do país da “casa grande e da senzala” vai sendo escancarada, observamos, às claras, quem serão aqueles(as) que se aliam ao gangsterismo político, ao oportunismo eleitoreiro, ao desprezo à democracia e suas regras mais basilares, ao jogo sujo e desleal do vale-tudo sem pudor, medida e ética.
Espera-se que, com uma votação aberta do processo de impeachment na Câmara, alguma dignidade possa imperar na consciência e nos votos da maioria dos deputados e deputadas. Afinal, os anais da história do Brasil também se encontram escancarados para registrar à posteridade essa página que marcará a narrativa da atual e das futuras gerações.
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Robson Sávio Reis Souza é filósofo, doutor em Ciências Sociais, especialista em comunicação social e professor da PUC Minas

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