Sobre eleições, bodes expiatórios e golpistas enrustidos


O filósofo e cientista político esloveno Slavoj Žižek é um grande pensador contemporâneo. Žižek nos ajuda a pensar algo muito importante: a unificação de todos os nossos medos (e/ou discursos do medo) numa (falsa) verdade é o grande objetivo que sempre moveu os ideais dos mais conservadores. Essa estratégia justificou o nazismo (os nazistas tinham horror dos judeus, dos homossexuais...) ou o golpe civil-militar de 1964 (medo do comunismo), por exemplo. 
A soma dos muitos medos (os verdadeiros ou aqueles construídos no imaginário social) é o ambiente propício para se criar um clima de pânico, instalar a desconfiança generalizada, propagandear uma insatisfação irracional, mesmo num ambiente institucionalmente normal e em funcionamento. A partir daí, pode-se construir os pseudo-heróis "salvadores da Pátria", do tipo Joaquim Barbosa (como ocorrera antes com Collor de Mello); justifica-se o injustificável (um terceiro turno eleitoral); elege-se bodes expiatórios lançando-os à fogueira, na condenação midiática (como ocorre em relação ao Partido dos Trabalhadores). 
Mesmo nos regimes ditos democráticos, a construção orquestrada do medo pelos segmentos cujos privilégios são colocados à prova pavimenta possíveis atalhos fáceis para o golpismo.
No Brasil, observamos esse processo: a construção é orquestrada via grande mídia (a eterna representante da Casa Grande). Junta-se e soma-se, propositadamente, num mesmo balaio corrupção  + Mensalão + Petrobrás + divisão do Brasil + bolivarianismo + inflação + comunismo. Enfim, aqueles que seriam os "males nacionais". Alguns desses males, intrínsecos à nossa tradição política patrimonialista e elitista agora são, com malandragem, creditados a um único responsável: o PT. Um partido que, lamentavelmente, diga-se de passagem, cedeu em boa medida ao canto da sereia do capital rentista e, como muitos outros partidos aqui e alhures, deixou-se enlamear na corrupção.Mas há uma diferença substantiva: o PT não tem o beneplácito da mídia e do Poder Judiciário que são os dois braços mais poderosos do establishment neoliberal na contemporaneidade. 
 A lógica no processo de criminalização do PT é simples: acopla no partido tudo que é perverso (como se fosse a encarnação do mal) e transforma, no imaginário coletivo, a agremiação num bode expiatório a ser extirpado, livrando todos os demais atores políticos corruptos e corruptores do juízo popular (e do juízo final, por extensão). 
Trata-se do resultado de uma excelente estratégia discursiva para unificar todos os "nossos medos". Tal estratégia já fora utilizada com muita perspicácia por Goebbels, como sabemos. 
Mas, voltemos a Žižek:  a partir da unificação dos medos é fácil acatar como verdade inequívoca o discurso do ódio, da violência, da eliminação a qualquer custo daquele que encarna os males e seus seguidores. No caso em tela, vale, inclusive, apelar ao golpe militar, ao terceiro turno, ao impeachment sem motivação justificável e de base legal (apesar dos pareceres de doutos politiqueiros travestidos de juristas).
Toda essa situação não pode ser desassociada do rescaldo odioso que ainda vigora no país depois das eleições, e não tem, efetivamente, nenhuma relação com a discussão do tema da divisão do país. Afinal, qualquer observador mais atento, percebe que são muitos os brasis. A diversidade e a diferença que pululam em todos os cantos desse país explicitam as riquezas social, cultural, étnica, política do Brasil, antes ocultadas pela arrogância dos separatistas do sul-maravilha. Pena que essa parcela de míopes brasileiros não percebe as várias e múltiplas facetas que caracterizam a riqueza cultural dessas plagas, desde seu nascedouro.
Neste contexto de tentativa de golpe, o papel das oposições é crucial. Pena que as oposições até hoje não apresentaram um programa, ou seja, um projeto para o Brasil. Uma pergunta óbvia: cadê o projeto para o Brasil das oposições? Como "santos do pau-oco", de joelhos jurando fidelidade aos princípios democráticos mas, efetivamente, conspirando contra a democracia, PSDB, DEM e aliados agem como baratas tontas. Limitam-se a navegar nas ondas artificiais criadas não por um segmento de oposição política ao governo (o que seria muito legítimo e desejável), mas por um grupo com intenções pouco confessáveis: o partido da grande mídia. 
É lamentável que em relação ao PSDB, partido que nasceu para consolidar a socialdemocracia, verifiquemos uma guinada que o aproxima dos golpistas (que são os mesmos de sempre). Não à toa, suas lideranças midiáticas deixam transparecer claramente o pouco apreço às regras do jogo democrático. Pergunta-se, então,  aos tucanos: representarão a direita, inclusive a direita antidemocrática? Continuarão em cima do muro in aeternum? Ou assumirão a postura coerente e propositiva de oposição ao governo eleito, a partir do respeito às regras do jogo e na defesa de um projeto político claro e transparente para o país?
Que os insatisfeitos com os resultados das eleições e com o PT busquem, pelas vias democráticas, portanto, pelas vias eleitorais, as mudanças que julgam necessárias. (Tais mudanças seriam ainda mais legítimas se nossas eleições não fossem tão contaminadas pela precedência abissal do poder econômico em detrimento do voto do cidadão. Mas, aqui é assunto para outro post).
Outro problema político vergonhoso, camuflado nesse cenário, é a intolerância, o racismo, o preconceito – principalmente de matriz socioeconômica -, o fascismo disfarçado de nacionalismo. Esses "demônios" saíram do armário (porque lá sempre estiveram) e seus adeptos (que comportam como massa acéfala) querem se impor, afrontando a democracia.
Infelizmente, alguns privilegiados de ontem não aceitam uma sociedade que tenta construir a igualdade de fato, para além da igualdade de direito. Querem se manter como diferentes, ostentando velhos privilégios da Casa Grande. Por isso, preferem Miami. Não conhecem a história, porque a conquista de direitos, mesmo lenta e gradual, é irreversível em qualquer sociedade minimamente democrática e plural.
A igualdade de direitos faz parte do processo de consolidação da cidadania e é fundamento da democracia. Não há democracia numa sociedade estamental, como era o Brasil até bem pouco tempo. 

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