Mídia e (de)formação da opinião



“Hoje o clima midiático tem suas formas de envenenamento. As pessoas sabem, percebem, mas infelizmente se acostumam a respirar da rádio e da televisão um ar sujo, que não faz bem. É preciso fazer circular um ar mais limpo. Para mim, os maiores pecados são aqueles que vão na estrada da mentira, e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação”. (Papa Francisco).

Uma das "pedras de toque" do bom jornalismo sempre foi – e continua sendo – a busca da imparcialidade, com o máximo de isenção possível na cobertura do cotidiano. Profissionais comprometidos com a ética e a verdade atuam por uma imprensa verdadeiramente cidadã e cumpridora dos ideais democráticos: a defesa da liberdade, da justiça e, principalmente, da verdade dos fatos, doa a quem doer...

À medida que o poderio econômico foi dominando a mídia e alguns ilustres “profissionais da pena” deixaram de ser ícones da verdade (muitos se transformando em prepostos dos patrões; outros, em animadores de auditório - portanto, de atores políticos para marionetes manipuláveis), presenciamos uma incestuosa relação no universo da comunicação de massa: parte do jornalismo subjugado às conveniências do grande capital, conformado com os interesses econômicos dos grandes oligopólios midiáticos, que determinam o que deve ser pautado, como, quando, de qual forma, recorte e viés, assim como o que deve ser publicado (melhor dizendo, publicizado — dado que o jornalismo virou ora  mercadoria, ora produto de entretenimento). Assim, o jornalismo dos grandes veículos de comunicação transforma-se em espetáculo, muitas vezes grotesco, a ser vendido de forma sensacionalista para o deleite do telespectador-consumidor.

As grandes redes de comunicação, as poderosas agências noticiosas, os grandes conglomerados da imprensa determinam o que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião pública. Denunciam veementemente qualquer tipo de censura e, paradoxalmente, aplicam a censura em todos os seus produtos midiáticos. Precisamos, urgentemente, de uma reforma agrária no ar; uma ocupação às capitanias hereditárias dos barões da mídia brasileira.

Há muito se questiona a isenção e a imparcialidade dos meios de comunicação. Por um lado, em virtude das relações imbricadas e promíscuas que envolvem os donos dos veículos (muitos dos quais, editores de suas empresas de comunicação) com setores conservadores e elitistas; por outro, pela fragilidade de parte de seus quadros profissionais, subjugados (e impotentes) frente às determinações patronais. Quem perde com essa situação é a democracia, que deixa de ter na imprensa o contraponto às mazelas sociais e políticas.

Restam esperanças: com a ampliação da internet e das redes sociais múltiplas vozes têm despontado no horizonte monofônico da comunicação brasileira. Que belos ventos!

Tenho acompanhado, com perplexidade e surpresa, a cobertura que a mídia tem dado às denúncias de corrupção que assolam frequentemente nossa República. A imprensa tem desprezado o aprofundamento das informações e demonstrado discricionariedade na cobertura. A guerra do bem  versus  o mal reproduz o velho estilo maniqueísta ( uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que dividido em dois, reduzindo os fenômenos humanos e sociais a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo; sendo que a simplificação nasce da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e/ou da pressa de entender e refletir sobre a complexidade de tais fenômenos.).  Quase não se fala, por exemplo, sobre os corruptores, os donos do capital por detrás dos políticos corruptos. Por quê? Será que a mídia deseja subjugar a opinião pública à opinião publicada?

Somos bombardeados com um vendaval de informações pontuais, muitas vezes descontextualizadas, passando a (falsa) impressão, por exemplo, de que todos os políticos e partidos são corruptos e desonestos. Ou que um partido é mais corrupto que o outro, ao apresentar somente um lado da informação, escondendo outras facetas de forma deliberada. Essa situação tem provocando um misto de histeria coletiva de caça às bruxas, expressa na raiva, ódio e desilusão em relação aos políticos em geral, e, por outro lado, um imobilismo cívico – a ideia de que este país não tem conserto.

Outro fenômeno que ressurgiu nas últimas eleições foi um misto difuso de ódio e vingança, fazendo da disputa eleitoral uma verdadeira guerra, quando o processo democrático da escolha dos representantes deveria ser tão e somente um embate civilizado e respeitoso de ideias, opiniões e pontos de vista sobre os rumos do país. A quem interessa um país esfacelado?

Frente a tanta (des)informação parece que estamos perdidos; que ninguém é honesto; que não vale a pena lutar pela ética, a verdade, a justiça. 

A mensagem subliminar seria, então, que vale a pena ser desonesto e chafurdar-se nas pequenas corrupções do dia a dia? É essa a mensagem sub-reptícia que nos é passada?

O pior dos mundos é quando os cidadãos não reconhecem na ética, na verdade, na mobilização social e na luta política os caminhos para as mudanças.

Quão limitadas e distorcidas são as opiniões de alguns de nossos principais jornalistas e âncoras que corroboram este cenário da desinformação. Ora, os jornalistas têm todo o direito de dar sua opinião e de expressar suas convicções. O que é incompreensível é a parcialidade de certos julgamentos midiáticos; uma espécie de condenação casuística sem a devida explicação dos argumentos que podem estar permeando os comentários de alguns dos nossos cronistas sociais e políticos, mestres em frases soltas e de efeito, que em lugar de explicar e informar acabam por confundir e desorientar ainda mais os cidadãos.

Como é possível que um mero comentário publicado em redes sociais, com expressões cifradas e sem a devida e responsável contextualização (muitas das vezes visivelmente lastreado no ódio, na inverdade ou na manipulação grosseira de fatos)   dito por "(de)formadores de opinião" mobilize ou bloqueie a agenda social e política; paute  a Justiça; determine a (in)ação do Congresso, sirva para manter por dias e semanas os mais sórdidos sentimentos replicados em doses cavalares em veículos diversos  e por aí afora? 


Ou o circo da notícia invadiu e manipula definitivamente a agenda pública no mundo do big-brother "da vida como ela é" ou nossas instituições republicanas atuam sordidamente motivadas  por alguns de seus porta-vozes agourentos da mídia tradicional. 


Mas não nos iludamos: afinal, de fato, a mídia é a porta-voz do grande deus dos nossos tempos, qual seja, do rentismo que subjuga as nações e corrói as bases das democracias. 

Comentários

  1. Artigo enfático, professor comentarista! Bem escrito, como sempre, mas faltam substantivos comuns e concretos no discurso heheh

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  2. Lamentável... uma pessoa que coloca até o curriculum aqui mostrando que, como diria minha avó, uma pessoa "estudada" que praticamente se auto-intitula "perito" como sociólogo, é totalmente incapaz de aceitar um comentário contrário à sua opinião. Imaginei que aqui era um blog sobre sociologia, mas me equivoquei... pois um sociólogo, no mínimo, saberia ouvir.
    Não se preocupe, depois deste episódio, não mais acessarei seu blog. Afinal, busco um sociólogo que discuta de forma sadia ao invés de excluir palavras de membros da sociedade que são contrários à sua opinião. Se quiseres, envio-lhe o link caso queira aprender algo na prática com outra pessoa que título ou universidade alguma conseguiu ensinar. Achei que, em pelo menos em um desses títulos, o sociólogo lutava pela igualdade de todos sem qualquer tipo de credo, raça e condição social. Será que a liberdade de expressão não está inclusa nessa igualdade? Ou, de acordo com suas atitudes, deveria ser igualdade de opinião?

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