Governo Obama, que apoiou o golpe, não deixa saudades


No último dia 10 de janeiro, Obama fez seu discurso de despedida. Repetindo a fórmula que deu certo nesses oito anos de governo, um pronunciamento cheio de frases de efeito (como aquela que alavancou sua primeira eleição: yes, we can) e uso apelativo à emoção do expectador.

Quando foi assunto à Casa Branca, pensávamos que ele seria um presidente capaz de alterar, mesmo que minimamente, a relação imperialista dos EUA com o mundo.

Com simpatia e muita mídia, sorriso farto no rosto, sempre posando de bom mocinho, ele cumpriu à risca o ritual de um presidente americano: promoveu guerras, apoiou golpes na América Latina (inclusive no Brasil), esteve do lado de Wall Street todo o tempo.

Durante seu governo, ficamos sabendo que a espionagem americana usurpa a independência e autonomia dos países, bisbilhota vidas de autoridades mundo afora e trama guerras, golpes e intervenções: especialidades de um país que se acha “dono do mundo”.

Como donzela traída depois que o episódio foi vazado, via Edward Snowden, Obama disse que reverteria essa política invasiva. Conversa para boi dormir!

No caso brasileiro, a reversão se deu no apoio escancarado ao golpe. E são vários os que confirmam essa empreitada norte-americana, depois que o governo Obama fez esses experimentos golpistas também em Honduras e Paraguai. Basta lermos os recentes depoimentos de Snowden ou nos vários textos e documentos publicados por Glenn Greenwald, que revelou os documentos secretos obtidos por WikiLeaks e disse: “Não tenho dúvida de que o Brasil é o grande alvo dos Estados Unidos". Também o famoso cineasta Oliver Stone, quando esteve aqui, ao passado, declarou: "[o impeachment] é, verdadeiramente, a definição de um golpe de Estado. E os Estados Unidos apoiaram. Eles reconheceram o novo governo imediatamente".

Mas, se quisermos, podemos recorrer ao especialista mais conceituado em política exterior do Brasil e suas relações internacionais, o historiador Moniz Bandeira, para entender a intervenção golpista dos Estados Unidos em nosso país: “Esse golpe, entretanto, deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os Estados Unidos tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina. O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil”.

Obama continuou sendo o “senhor da guerra” para a alegria da poderosíssima indústria bélica: somente em 2016, os Estados Unidos lançaram 26.171 bombas em sete países, disse o especialista norte-americano em política externa e segurança nacional, Micah Zenko, no site oficial do Conselho de Relações Exteriores. Deveria devolver o prêmio Nobel da Paz que ganhou quando o mundo achava que ele seria diferente e melhor.

Cumpriu seu papel de "imperador" da matilha rentista que domina o mundo. Sequer fechou Guantánamo (ícone das bárbaras violações aos direitos humanos, patrocinadas pelos guerreiros do norte).

É verdade a hostilidade de uma parte dos brancos racistas norte-americanos contra Obama; é verdade que ele criou o ObamaCare - uma conquista os segmentos mais pobres daquele país. É verdade que ele agiu com energia para evitar a intervenção contra o Irã. É verdade que seu segundo mandato foi inviabilizado por um Congresso conservador, que vetou praticamente todas as suas propostas. Isso não diminui suas responsabilidades e não atenua seus fracassos.

Internamente - numa democracia que é ótima para o americano de classe média, empregado e preferencialmente dono de uma arma -, Obama foi um bom presidente. (E também essa será, provavelmente, a avaliação dos estudiosos que adoram falar de democracia procedimental, diga-se de passagem).

Para os demais americanos, inclusive os pobres, os negros - que continuaram sendo mortos pela polícia americana - e os imigrantes que vivem em seu país, seu governo mantém a marca dos governos americanos do pós-guerra: controle e repressão. Aliás, os vários homicídios de negros pela polícia, durante seu governo, mostram que sequer no âmbito doméstico Obama quis (ou teve condições, sendo um pouco generoso) de escrever uma história diferente.

Em seu discurso, Obama falou muito de democracia. Acertou em algumas dessas frases de efeito, quando disse, por exemplo, que “a democracia pode cambalear quando entregue ao medo”.  Mas, sem ter muito a apresentar aos conterrâneos e ao mundo, apostou em ratificar o lugar de “lobo mau” para Trump (como se o mundo desconhecesse o pedigree do novo presidente americano). Para todos os efeitos, somos maduros o suficiente para entendermos que nem sempre a versão de Chapeuzinho Vermelho espelha a verdadeira história.

E por falar em democracia -  a menina-dos-olhos dos norte-americanos -, trata-se de um belo “conto da carochinha” que teimamos em acreditar. Cumprindo os ritos formais (eleições regulares, liberdade de expressão e opinião, mídia livre, poderes pretensamente autônomos), os regimes democráticos simplesmente institucionalizaram, nos últimos 30 anos, governos eleitos para servirem de prepostos daqueles que dominam o mundo: os rentistas que concentram riqueza e renda. Todos a serviço do grande capital.

Portanto, Obama será lembrado como o 44º presidente dos Estados Unidos. E, para nós, como o presidente cujo governo apoiou mais um golpe no Brasil. Sendo assim, bye, bye, Mr. Barack Obama!


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