A violência que nos iguala

O Brasil vive uma guerra não declarada. Os números da violência e da criminalidade são impressionantes. O total de mortes por causas externas (que, além de homicídios, inclui também acidentes, suicídios e outras causas não naturais) provocou no país cerca de dois milhões de mortes de 1980 a 2000 — o equivalente à população de Brasília. Em 82,2% dos casos (1,7 milhões), as vítimas foram do sexo masculino e a grande maioria, jovens.

A superexposição da violência na mídia, a perversidade dos criminosos que a cada dia sofisticam seus métodos encobrindo o terror do dia anterior, a banalização da vida e da morte, a ineficiência do poder público no combate e prevenção ao crime propiciam um estado de letargia coletivo, uma espécie de acomodamento covarde a espera do pior.

Desde os anos de 1980 a criminalidade violenta vem crescendo, notadamente nas grandes cidades com suas imensas regiões de grande vulnerabilidade social, em virtude do adensamento do tráfico de drogas. Enquanto se dizimavam milhares de vidas nos becos e ruas das favelas brasileiras, a sociedade assistia impávida a carnificina. Porém, como uma onda que espraia no lago ao atirarmos uma pedra, a violência foi ampliando seu raio de atuação. Em meados da década de 1990, os primeiros bairros de classe média começaram a sofrer com o problema. A criminalidade urbana foi tomando novos contornos: seqüestros, assaltos em plena luz do dia em agências bancárias, envolvimento de agentes públicos de todos os escalações da República. Era a criminalidade organizada mostrando sua face.

Hoje, nas principais cidades brasileiras todos somos reféns da violência e o medo nos une num sentimento coletivo. Não adiantam os muros altos, as câmeras de segurança ou os carros blindados. No espaço público as chamadas “balas perdidas” sinalizam que a violência está em todos os lugares e atinge todas as pessoas.

Por esse motivo, a classe média, nos últimos anos, começou a vocalizar seu protesto público. Provavelmente, porque passou a ser vítima dessa violência. E hoje, o problema, como mostram as pesquisas de opinião, aparece como o principal reclamo dos brasileiros.

Seria o niilismo, apregoado por F. Nietzsche (1844-1900), nosso destino histórico, desencadeado pela “morte de Deus”, ou seja, o vazio que se perfila no horizonte do homem ocidental depois do declínio do Deus da tradição metafísico-teológica cristã, com todas as certezas que este comportava?

Penso que não. Na verdade, há um lado positivo nesse dantesco cenário. A violência nos iguala. Todos somos reféns. Todos devemos lutar contra essa aparente impossibilidade de combatê-la.

A insensatez dos ricos, a incúria dos governantes e a omissão da sociedade agora estão em xeque. O problema passa a ser de toda uma nação que se aprisiona no espaço privado, pois o espaço público é terra de ninguém.

Se a violência nos iguala, juntemos nossas forças na construção de uma cultura da paz e da não-violência. Somemos nossas vozes nos protestos por um país decente, mais justo e igualitário. Não percamos essa oportunidade que, mesmo trágica, nos possibilita uma coesão nacional na construção de uma cidadania efetivamente para todos os brasileiros.

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