domingo, 11 de abril de 2021
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Religião, política e poder nas eleições 2020: uma pandemia, num imenso pandemônio

Há uma série de variáveis que devem ser consideradas nas eleições deste ano. A primeira, e mais importante, é o efeito da pandemia no pleito. A mudança do calendário eleitoral é a face visível da influência pandêmica. Porém, o debate sobre a efetividade das administrações municipais no enfrentamento da doença, associado com o comportamento das lideranças dos municípios em relação às posições dos governos estadual e federal durante a crise sanitária certamente mobilizarão parte das pautas e debates eleitorais.
Mas, não nos enganemos: o resultado das eleições tende a ser definido por questões objetivas que estão relacionadas ao contexto de cada município (as políticas públicas de saúde, educação, transporte, moradia, etc.), mas, também e não menos importante, com os apelos emotivos, relacionados a crenças, percepções e sentimentos que candidatos e partidos costumam utilizar, em doses cavalares, nos pleitos municipais.
Por isso, é muito importante observarmos alguns elementos que podem caracterizar essa eleição como uma disputa a reconfigurar não somente a política municipal, mas a política nacional.
1. A participação de lideranças ligadas às igrejas, principalmente neopentecostais: há claramente uma disputa eleitoral que se consolida no campo religioso. As pautas morais se constituem no principal instrumento de alavancagem de candidaturas e de políticos eleitos ligados ao chamado neopentecostalismo. Estudos e depoimentos apontam um projeto político de tomada de poder do Estado por algumas igrejas evangélicas.[1]
Tendo como base dados iniciais divulgados pelo TSE, o portal UOL identificou pelo menos 5.555 candidatos que usam alguma referência religiosa no nome da urna. Contudo esse número despreza candidatos que não declararam sua filiação religiosa em seu registro eleitoral.
Evangélicos têm disputado vários postos na política nacional e também na política municipal. Nas eleições para conselheiros tutelares, no ano passado, por exemplo, chamou a atenção o interesse de religiosos e membros de igrejas na ocupação de lugares estratégicos na arena política: dezenas de igrejas inscreveram seus representantes nas eleições para os Conselhos Tutelares. Os temas morais, importantes na pauta da defesa de criança e adolescentes, mobilizaram os candidatos dessas igrejas.
Na avaliação da mídia empresarial, a disputa se dava entre católicos e evangélicos, e espelhava o crescimento de igrejas protestantes no Brasil[2]. A eleição para conselheiros tutelares explicitou uma “batalha religiosa” em curso no Brasil. Nos últimos 20 anos, a bancada evangélica no Congresso Nacional triplicou: a atual legislatura conta com 195 dos 513 deputados, o equivalente a 38% do total de parlamentares. “A atual bancada evangélica é a mais governista dos últimos cinco mandatos presidenciais. 90% dos votos registrados pelos evangélicos foram a favor do governo (Bolsonaro)”.[3] E como se percebe, cada vez mais líderes, deputados e ministros ligados às igrejas evangélicas ocupam espaço nas áreas estratégicas do governo.
A utilização da religião, notadamente do cristianismo, tem caracterizado a nova extrema-direita global, como revelou recentemente o vaticanista Iacopo Scaramuzzi em um livro recém-publicado, intitulado Dio? In fondo a destra – perché i populismi sfruttano il cristianesimo (em tradução literal, Deus? No fundo à direita – Porque os populismos desfrutam do cristianismo), cuja capa estampa quatro dos principais expoentes desse fenômeno: Salvini, Trump, Bolsonaro e Putin.[4]
Não sem motivos, em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro usou o polêmico termo “cristofobia” que sinaliza uma estratégia eleitoral voltada ao público evangélico. Segundo Ronilso Pacheco, pastor evangélico e estudioso das religiões, o termo cristofobia vai ser usado como estratégia eleitoral decisiva nas próximas eleições.[5]
Mais recentemente, Bolsonaro evocou um lema do integralismo, “Deus, pátria e família”, num discurso para mobilizar sua base de apoio ultraconservadora e fundamentalista. O integralismo, diga-se de passagem, se constituiu no Brasil a partir da década de 1930 como uma espécie de “fascismo à brasileira”, com movimentos de viés religioso, e foi fundamental na construção de uma base social para o golpe militar de 1964. Portanto, manipulação da religião parece se constituir numa das tônicas dessas eleições.
Há uma pequena reação de candidaturas religiosas progressistas articuladas por coletivos evangélicos. É preciso acompanhar esse movimento.
2. Outro grupo não menos importante que está bastante coeso na disputa eleitoral deste ano, também associado a questões religiosas, é ligado ao militarismo. Segundo o portal G1, “a eleição de 2020 já é a disputa municipal com o maior número de candidatos policiais e militares dos últimos 16 anos. Em números absolutos, são 6,7 mil postulantes aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador em todo país, superior ao total registrado em 2012. O aumento dessas candidaturas também é de 12,5% em relação à eleição de 2016.” Esses números podem ser ainda maiores porque há casos de policiais ou militares que se autodeclaram apenas servidores públicos.[6]
Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que o segmento militar está muito associado ao bolsonarismo.[7]
Há que se observar que alianças entre o neopentecostalismo e o militarismo se dão em várias frentes. A bancada intitulada BBB (Bala, Bíblia e Boi) é o caso mais emblemático. Mas, não é somente isso. Reportagem da Revista Fórum, de janeiro de 2020, intitulada “Igreja Universal cria seu exército particular com recrutamento de PMs” apresenta um vídeo institucional da “Universal nas Forças Policiais (UFP)”, braço da igreja de Edir Macedo nas “Forças de Segurança Pública, Forças Armadas e órgãos governamentais”. Segundo o vídeo, a Universal atingiu 983.441 policiais e familiares no ano de 2019, em 73.526 palestras, eventos e cafés realizados, e doado 439.471 “Bíblias e literaturas”.[8]
Observemos que o governo Bolsonaro é claramente um governo militarizado. Como informou recentemente o El País, o Brasil de Jair Bolsonaro já tem, proporcionalmente, mais militares como ministros do que a vizinha Venezuela, onde há muito tempo as Forças Armadas abdicaram da neutralidade e se tornaram fiadoras da permanência de Nicolás Maduro no poder[9]. Isso sem contar os militares colocados em milhares postos-chave do governo brasileiro. Portanto, militarismo e religião são duas bases sociais importantes na disputa eleitoral deste ano que podem ajudar na reconfiguração a composição de forças política mais amplas. Não à toa, a guinada bolsonarista para o chamado “centrão” que acolhe boa parte dessas candidaturas aponta uma estratégia ambiciosa da extrema-direita no Brasil.
3. Um outro ponto importante a gerar prejuízos no processo eleitoral será, certamente, a utilização ampla das chamadas fake news. Não por acaso, notícias falsas são muito utilizadas por lideranças religiosas apelando para o universo simbólico que envolve a fé, crença e a religião.
Apesar de o TSE ter agido preventivamente com uma série de parcerias com redes sociais e aplicativos de mensagem com vistas a identificação e punição de propagadores de notícias falsas, os especialistas têm alertado que esse “submundo” altamente apelativo dificilmente será controlado nas eleições. E, como se sabe por uma série de estudos nacionais e internacionais relativos a pleitos ocorridos na última década, a utilização de notícias falsas tem o poder de interferir no debate democrático, alterando resultados eleitorais.[10]
4. O discurso que combina criminalização da política com a ideia de renovação política é bem presente no imaginário do eleitor. Neste sentido, há que se observar que partidos do espectro da direita e da extrema-direita, principalmente novos partidos surgidos na última década, têm sido exitosos nas eleições justamente pela capacidade de apresentarem “novos” candidatos ou outsiders da política.
Em contrapartida, há pouca renovação de lideranças políticas a disputarem o pleito nos partidos de esquerda. Tais partidos ainda são muito apegados em candidaturas já experimentadas e que muitas vezes têm pouca possibilidade de sucesso eleitoral num ambiente tão polarizado ou já foram rejeitadas nas urnas. Além da pouca capacidade de renovação e do distanciamento das bases sociais, em geral, a preservação de quadros históricos parece orientar as burocracias partidárias da esquerda. Ou seja, a esquerda apresenta-se pouco criativa frente ao movimento ultraconservador que se organiza no Brasil desde 2013.
5. É importante registrar, por fim, um elemento novo nessas eleições municipais: as chamadas candidaturas coletivas, majoritariamente no campo progressista, que merecem toda atenção. Porém, há que se verificar, depois do pleito, a viabilidade desse tipo de candidatura.
Estes são alguns pontos que merecem atenção dos setores democráticos e progressistas neste pleito de 2020. Apesar de as eleições municipais, ordinariamente, focarem nos debates acerca dos temas municipais, há uma série de elementos que indicam articulações com o objetivo de ampliação das bases políticas de partidos do espectro conservador e ultraconservador. Não à toa, a aliança de ocasião com o “centrão” reposicionou o governo Bolsonaro no Congresso Nacional, arrefeceu os atritos com o Supremo e, sob o ponto de vista eleitoral, poderá significar um adensamento dessa base partidária com vistas às articulações para 2020.
Enquanto isso, há um “bate-cabeça” entre os setores progressistas e de esquerda. Portanto, essas eleições na pandemia apresentam-se como verdadeiro pandemônio. Sempre na esperança de que dias melhores virão...
[1] Neopentecostais e o projeto de poder. Veja em: https://diplomatique.org.
[2] A batalha entre católicos e evangélicos pelo domínio dos conselhos tutelares. Veja em: https://g1.globo.com/
[3] Bancada evangélica triplicou. Veja em: https://www.
[4] Extrema-direita: pautas moralistas unem religião e militarismo. Veja em: http://www.ihu.unisinos.
[5] Debate sobre cristofobia é estratégico para candidatura ultraconservadoras, avalia pesquisador. Veja em: https://brasil.elpais.com/
[6] Eleições 2020 terão o maior número de candidatos militares dos últimos 16 anos. Veja em: https://g1.globo.com/ politica/eleicoes/2020/ eleicao-em-numeros/noticia/ 2020/10/01/eleicoes-2020- terao-o-maior-numero-de- candidatos-militares-dos- ultimos-16-anos.ghtml
[7] Levantamento aponta que 41% dos praças da PM no país são bolsonaristas. Veja em: https://noticias.uol.com.
[8] Igreja Universal cria seu exército particular com “recrutamento” de PMs. Veja em: https://revistaforum.com.
[9] Brasil de Bolsonaro tem maior proporção de militares como ministros do que Venezuela. Veja em: https://www.bbc.com/ portuguese/brasil-51646346
[10] Notícias falsas ameaçam processos eleitorais na América Latina. Veja em: https://brasil.elpais.com/ brasil/2018/03/14/ internacional/1521060611_ 975112.html
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Extrema direita: pautas moralistas unem religião e militarismo
Em plena pandemia ressurgem fantasmas
insepultos, não enfrentados no período pós-ditadura e que habitavam o pântano brasileiro.
Há uma profusão de eventos a revelarem que um lodaçal autoritário, moralista e
hipócrita sustenta nossa sociedade (estruturalmente injusta, desigual, racista
e homofóbica).
Nesse atoleiro, o bolsonarismo
tenta avançar e fia-se em dois pilares: a caserna, a garantir o controle das
instituições da República, apesar de regurgitações do Congresso e do Supremo e
as igrejas, principalmente poderosas agremiações religiosas neopentecostais, a garantirem
a base social. E como, ocasionalmente, parte da sociedade está entorpecida por
migalhas de auxílios financeiros pandêmicos (que foram direcionados por Paulo
Guedes e equipe em doses cavalares aos bancos[1],
empresas[2] e
setores rentistas - a garantirem o apoio as elites ao governo de plantão), as
condições objetivas para o avanço do autoritarismo de viés moralista parecem
promissoras, nessa empreitada dos novos cruzados do século XXI.
Surfando nessa onda conservadora
e confiando no apoio de instituições religiosas obscurantistas e no
autoritarismo de caserna, Bolsonaro e seu grupo palaciano resolveram avançar no
charco movediço das chamadas pautas de costumes, conforme revelou reportagem do
domingo (13/09) da Folha de S. Paulo[3].
Armamento da população, criminalização da educação, da cultura e da ciência
(com incentivo à educação familiar) e a transformação de veículos automotores
em armamento para agradar brucutus da classe média são alguns dos projetos que
serão tocados no Congresso Nacional. Nada mais belicoso e ultrajante à dignidade
humana e, portanto, anticristão.
E por mais paradoxal que isso possa parecer, a base social para esse tipo de empreitada usa da religião. Aliás, o uso da religião tem caracterizado a nova extrema-direita global, como revelou recentemente o vaticanista Iacopo Scaramuzzi em um livro recém-publicado, intitulado “Dio? In fondo a destra – Perché i populismi sfruttano il cristianesimo” (em tradução literal, Deus? No fundo à direita – Porque os populismos desfrutam do cristianismo), cuja capa estampa quatro dos principais expoentes desse fenômeno: Salvini, Trump, Bolsonaro e Putin.
Em entrevista a Lucas Ferraz, no Intercept Brasil em julho deste ano[4], o estudioso do Vaticano argumenta que a exploração do cristianismo, católico e evangélico, tem como objetivo “louvar um passado supostamente glorioso, além de ter um forte apelo a todos aqueles perdidos com as crises econômica, política, cultural, da globalização etc.”. “O fenômeno opera atualmente numa rede global e é um dos pilares de projetos como o de Viktor Orbán e sua democracia cristã iliberal na Hungria, do recém-reeleito Andrzej Duda e sua tradição sacra na Polônia, de Matteo Salvini, que tentou se tornar homem forte do governo da Itália brandindo rosários e falando em nome de Maria, além de ter pavimentado a vitória de Jair Bolsonaro e seu ‘Deus acima de todos’”.
No Brasil, grupos religiosos
estão à postos para servirem de escudo à empreita moralista, justamente quando
se avizinha o pleito municipal. A estratégia, não por acaso, é que os dois
principais grupos que buscam ampliar o sucesso eleitoral (policiais e
religiosos), pretendem engrossar ainda mais as bases de cruzados moralistas[5]. Outro
não acaso: os dois grupos são as principais bases de apoio do bolsonarismo.
Enquanto isso, Damares, sua
equipe e grupos localizados estrategicamente em ministérios como o do meio
ambiente, educação e secretaria da cultura já agem há algum tempo arrancando
cercas jurídicas e até constitucionais, nas barbas dos “poderes que funcionam”,
para a boiada ultraconservadora passar. Vida de gado.
Nos últimos dias, lideranças
religiosas alinhadas à teologia da prosperidade (de um deus que abençoa aqueles
que gostam e têm dinheiro) e à teologia do domínio (assentada no pressuposto de
que o domínio da terra foi usurpado pelo diabo que, no delírio obscurantista de grupos
religiosos, são os comunistas, esquerdistas, socialdemocratas, cientistas,
progressistas, feministas, movimento LGBT+ etc.) apareceram com destaque na mídia
destilando veneno homofóbico[6], ou
seja, usurpando da pauta moral e de costumes para suscitar engajamento e adesão
nas redes sociais conservadoras.
Noutra frente de disputas reais e
simbólicas persiste a discussão das isenções fiscais a instituições religiosas
(apesar do veto presidencial de mentirinha)[7]. O controle
público das movimentações financeiras de igrejas é relevante porque muitas das agremiações
religiosas se transformaram em verdadeiras lavandeiras financeiras, como
afirmou a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz em entrevista à
Revista Fórum: “Lavanderias do dinheiro do crime passa por agremiações
religiosas. Onde é que você vai lavar o dinheiro do crime, você vai usar as
agremiações religiosas porque cada uma delas tem um CNPJ. Então você pode criar
uma casa de oração ali na esquina, lavar o dinheiro do crime e com isso também
produzir intolerância religiosa, destruição de terreiros nas comunidades populares”,
disse a especialista em segurança pública[8]. Isso
sem contar a falta de transparência e eventual desvio de recursos financeiros,
como denunciou o Ministério Público de Goiás em relação à construção da nova Basílica
de Trindade. [9]
Uma reportagem da Agência Pública
de agosto de 2020, intitulada “como o crime organizado tem explorado benefícios
concedidos a igrejas para operar seus negócios ilegais”, informa que “uma investigação
realizada por veículos de comunicação de dez países descobriu que, amparados
nas leis de liberdade de culto, algumas igrejas e líderes religiosos nas
Américas abusam da confiança de seus fiéis e cometem crimes como lavagem de
dinheiro e fraude”.[10]
Não é de se estranhar a notícia
do Portal G1, de 12/09, segundo a qual movimentações atípicas realizadas pela
Igreja Universal do Reino de Deus, totalizando quase R$ 6 bilhões[11]. A
Universal é uma dessas igrejas que mais ocupam cargos e espaços públicos.
Inclusive patrocinou a criação de um partido político, o PRB, que mudou de nome
(Republicanos) para surfar na onda da direita e extrema-direita[12].
Noutra reportagem da Agência
Pública, comprova-se que uma aliança de Edir Macedo com Bolsonaro envolve
presidência da Câmara, cargos no governo e perdão de dívidas às igrejas.[13]
Portanto, as relações entre
igrejas, grupos ultraconservadores na política (nos três poderes, diga-se de
passagem) e a utilização de dinheiro público e privado (dízimos e outras contribuições)
para fins ilícitos é algo que merece toda a atenção.
Por outro lado, alianças entre o
neopentecostalismo e o militarismo se dão em outras frentes. Reportagem da Revista
Fórum de janeiro de 2020 intitulada “Igreja Universal cria seu exército
particular com recrutamento de PMs” apresenta um vídeo institucional da “Universal
nas Forças Policiais (UFP)”, braço da igreja de Edir Macedo nas “Forças de
Segurança Pública, Forças Armadas e órgãos governamentais”. Segundo o vídeo, a Universal
atingiu 983.441 policiais e familiares no ano de 2019, em 73.526 palestras, eventos
e cafés realizados, e doado 439.471 “Bíblias e literaturas”.[14]
Esses são alguns dos sinais a
demonstrarem que a nova onda de ataques de grupos bolsonaristas, nesse novo
front de batalha, não se dará contra o Supremo ou o Congresso, mas contra os
poucos avanços no campo de direitos dos chamados grupos minoritários (mulheres,
negros, gênero), advindos com a Constituição Federal de 1988. Em artigo de maio
deste ano intitulado “armar o país: a guerra santa bolsonarista” já prevíamos
essa batalha político-religiosa. E a bancada BBB (bala, bíblia, boi) que não é
nova (e conta com o apoio do “Novo”), parece oferecer o armamento de ocasião ao
bolsonarismo.
O amálgama entre ultraconservadorismo
religioso e militarismo autoritário merece atenção nessa quadra da nossa história.
Portanto, os democratas precisam
olhar com bastante atenção para essa coalizão que une algumas igrejas e setores
militares (ressalvando que há militares e igrejas democratas e republicanos) e,
em muitas ocasiões, se associa às milícias, a revelar um perigoso pântano para
o pouco que resta de democracia e a recordar tempos pouco memoráveis já vividos
pela sociedade brasileira num passado recente.
[1]
Leia em: https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2020/08/325-bilhoes-bc-governo-prioriza-bancos-pandemia/
[2]
Veja em: https://economia.ig.com.br/2020-05-22/vamos-perder-dinheiro-salvando-empresas-pequenininhas-diz-guedes.html
[3]
Aqui: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/09/com-popularidade-em-alta-bolsonaro-tenta-emplacar-pautas-de-costumes-no-congresso.shtml
[4]
Veja em: https://theintercept.com/2020/07/27/entrevista-direita-populista-usa-cristianismo-para-criar-sentido-comum-e-respeitabilidade/
[5]
Veja em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/01/13/partidos-buscam-evangelicos-e-policiais-para-disputarem-capitais.ghtml
[6]
Aqui: https://catracalivre.com.br/cidadania/ana-paula-valadao-faz-fala-homofobica-e-culpa-gays-por-aids/
e aqui: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/na-igreja-nao-da-diz-pastor-andre-valadao-sobre-casais-homossexuais/
[7]
Veja aqui: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/09/bolsonaro-veta-anistia-em-tributos-a-igrejas.shtml
[8]
Veja em: http://www.ineac.uff.br/index.php/noticias/item/427-igrejas-tornaram-se-lavanderias-para-o-dinheiro-das-milicias
[9]
Veja em: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2020/08/21/mp-go-deflagra-operacao-que-apura-suspeita-de-irregularidades-na-afipe-responsavel-pela-basilica-de-trindade.ghtml
[10]
Aqui: https://apublica.org/2020/08/como-o-crime-organizado-tem-explorado-beneficios-concedidos-a-igrejas-para-operar-seus-negocios-ilegais/
[11]
Veja em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/09/12/mp-diz-que-igreja-universal-foi-usada-para-lavar-dinheiro-de-corrupcao-na-prefeitura-do-rio.ghtml
[12]
Acesse em: https://veja.abril.com.br/politica/prb-anuncia-mudanca-para-republicanos-e-sera-8o-partido-a-trocar-de-nome/.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Fascismo galopante: Bolsonaro é bode que repele e agrada
Observando o cenário sociopolítico e religioso no Brasil, nos últimos tempos, deparamos frontalmente com fatos que demonstram a urgência de se questionar o modelo que articula visceralmente o capitalismo (poder econômico) e uma democracia iliberal (poder político) com uma sociedade patriarcal-cristã-elitista.
No campo político-institucional, um governo militar-miliciano coligado com o que há de pior dos setores do cristianismo, empresariado, agronegócio e rentismo. Impulsionado por usurpadores de bens públicos e arrombadores, sem escrúpulos, das cercas e porteiras da Constituição e das leis, com forte apoio em segmentos moralistas e de mentalidade escravocrata da classe média privilegiada, em lideranças e instituições religiosas que depõem contra a ética cristã, em corporações judiciárias e outras semi-castas (profissionais liberais que se julgam elite), a coalizão no poder central soma-se ao fenômeno global da rearticulação da extrema-direita que, como uma ideologia autoritária sempre à espreita, ganha fôlego toda vez que são acentuadas as tensões e fragilidades sociais, notadamente num contexto de crise estrutural do capitalismo.
Como analisa Robert Kurz, a direita radical é filha legítima da democracia, porque “toda democracia produz como reação imanente ao fim do processo de modernização, com regularidade lógica, o novo radicalismo de direita em qualquer de suas variações”. (A democracia devora seus filhos. Robert Kurz. Rio de Janeiro: Editora Consequência, 2020, 172 pp). Assim, o extremismo de direita no centro do capitalismo, neste momento histórico, corresponde ao aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, sendo o novo radicalismo de direita filho legítimo da democracia de mercado, não uma excrescência.
Portanto, para além das questões conjunturais, trata-se de um processo histórico que se agudiza em sociedades periféricas marcadas por desigualdades e violências estruturais sempre maquiadas, naturalizadas e ratificadas pelas elites e setores conservadores da sociedade (como é o caso do Brasil).
É preciso superar o velho maniqueísmo que opõe o bem versus o mal e elege bodes expiatórios para purgar fenômenos sistêmicos, ao invés de enfrentá-los. Assim, Bolsonaro, em certa medida, não passa de um “bode malcheiroso na sala” que por um lado aponta à podridão de estruturas carcomidas por vícios históricos tolerados e compartilhados socialmente e que, mesmo assim, a exalar o odor putrefato, continua a mobilizar vários setores da sociedade, da política e da religião a comprovar que o “bode” não está sozinho. Ele, simplesmente, é o amálgama do velho (travestido de novo) que insiste em não morrer. Ou seja, Bolsonaro encarna o que parte significativa da sociedade, da política, da religião e da cultura sempre foi e continua sendo. Autoritarismo, racismo, misoginia, violência, vingança estão no ethos da nossa cultura; de todos os segmentos e classes. E esse é o monstro a ser enfrentado.
Isto posto, poderíamos apresentar, e não o faremos, um rosário de perguntas acerca dos limites do nosso modelo de sociedade, democracia, cultura política e religiosa.
Cidadãos e instituições poderiam fazer um esforço e pensar sobre isso...
sábado, 27 de junho de 2020
Acordão no horizonte sinaliza nova tentativa de pacto entre elites
terça-feira, 16 de junho de 2020
AUTORITARISMO E OBSCURANTISMO: A POLÍTICA DO GOVERNO BOLSONARO
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Armar o país: a “guerra santa” bolsonarista
