segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A festa acabou: das Olimpíadas e da Democracia


Fonte: Internet
Nos últimos catorze anos o Brasil viveu uma grande festa democrática. Inclusão social, eliminação da pobreza extrema, crescimento da economia, distribuição de renda, inúmeras conferências de políticas públicas, povo na rua protestando e reivindicando direitos. “Nunca antes na história desse país” se respirou tanta liberdade, participação, diversidade e múltiplas vozes e cores despontando de todos os cantos desse país. Era uma festa demasiadamente contagiante para os gostos de uma elite ranzinza e azeda, como dizia Darcy Ribeiro.

Os governos do PT, de Lula e Dilma, apesar das muitas desventuras, proporcionaram a maior e mais duradoura festa democrático-popular do Brasil.

Essa festa está no ocaso. Paradoxalmente, deu seus últimos acordes naquela celebração da diversidade cultural, quando do encerramento da grande confraternização universal por ocasião dos jogos olímpicos.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas foram um sucesso. É claro que o Brasil tem muitos problemas. Mas, alegria e confraternização estão na alma do nosso povo e é bom celebrar. E só um cego que não quer ver, um fundamentalista de má-fé ou um fascista não reconhecem os principais atores responsáveis por esses feitos: Lula e Dilma. O povo sabe do papel decisivo de ambos e não há quem furte essas páginas e seus autores dos registros da história.

Uma das poucas vezes, em mais de cinco séculos, o espírito de vira-latas do brasileiro foi superado e o país passou a ser respeitado e valorizado no concerto das nações.  E foi por causa desse respeito e reverência que Lula, como um hábil embaixador, conseguiu trazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas para o país.

É preciso dois registros aqui: o primeiro, um repúdio veemente à mídia nativa, pífia e antinacional, que o tempo todo, antes da Copa e das Olimpíadas, jogou o país pra baixo e desdenhou da potencialidade deste povo, sempre a destacar o lado ruim dos eventos e, como ave agourenta, a projetar a catástrofe e o vexame. A mídia, essa sim, tem espírito, corpo e alma de vira-lata. Melhor dizendo, tem espírito de porco. É um atraso para o país.

Depois, é preciso dizer em alto e bom som que foi um presidente nordestino, operário e pouco escolarizado que teve a coragem de acreditar na capacidade do seu povo de realizar os dois eventos. Nunca antes um mandatário das elites teve essa coragem. As elites, de um modo geral, não acreditam no país e em seu povo. Ao contrário, têm vergonha do Brasil.

Aliás, um bom retrato das elites no poder pode ser sintetizado na figura do atual chanceler, José Serra. Como um poodle diplomático, rosna para os vizinhos latino-americanos e abana o rabinho para os norte-americanos. Certamente, ele e o governo golpista são gratos aos amigos do Norte que treinaram Moro e a turma do MP na empreitada para acabar com o Brasil, suas empresas, suas instituições políticas e a nossa democracia.

Lula, como já nos referimos em outro post (aqui), sempre trabalhou com a possibilidade da conciliação entre os ricos e os pobres. E não dimensionou o rancor, o ódio, a cobiça e a perversidade das elites (econômicas, sociais, políticas, jurídicas, midiáticas, religiosas) dessa Terra de Santa Cruz. Essas elites, quando estavam ganhando muito nos tempos das vacas gordas, com a economia em ascensão, suportaram os pobres nos aviões, nos shoppings centers e nas universidades. Mas, o tempo da reconciliação de mentirinha foi-se embora quando uma crise econômica adveio e a coalizão golpista e rancorosa resolveu violentar até os mais elementares pilares da democracia, o eleitor e o voto, para tomar de assalto o poder.

Agora, os estrangeiros – que sabem do golpe no país, porque essa narrativa foi vencida pelos democratas daqui com a ajuda da mídia de acolá – voltam para suas plagas. E o Brasil, depois dessa primavera, viverá seus dias de rigoroso inverno.

Quando setembro vier, os líderes da coalizão golpista imporão a fórceps o plano que foi reprovado nas quatro últimas eleições. Sem nenhum vínculo com o povo, porque não foram eleitos, os golpistas não têm qualquer compromisso com a democracia, com a Constituição e o estado de direito. E, como não temos a quem recorrer - nesses tempos de judiciário partidarizado, além de historicamente seletivo e elitista -, fica a pergunta: como será o amanhã?

Ordem e progresso” foi o lema escolhido pelo interino. É o mesmo lema do grupo que criou, também à força, nossa república. Naquele 1889, os donos da Casa Grande, descontentes com o Imperador - que não aceitava mais ser preposto dos latifundiários e dos militares – articularam o golpe e, triste coincidência, o povo ficou sem entender o que acontecia.

Para dar ares de modernidade e superação do antigo regime, esse lema positivista, autoritário e conservador foi criado para disfarçar os verdadeiros interesses golpistas, de ontem e de hoje: opressão aos pobres e trabalhadores, criminalização dos movimentos sociais e a ação arbitrária para controlar e aniquilar os inimigos criados artificialmente.

Assim, nossa república, desde seu nascimento, foi “coisa pública” em pouquíssimos momentos; na maioria do tempo foi coisa de e para alguns. Desses mesmos que agora estão no poder via um golpe a ser sacramentado no senado, à la Catilina.

A política do mocinho e do bandido está de volta. O ministro da Justiça do governo golpista, o tucano Alexandre de Moraes, nesses últimos dias, não poupou críticas às políticas de segurança pública baseadas em inteligência, diagnóstico e estudos. Defendeu, na contramão da história e do conhecimento, que os gastos do setor devem ser alterados para priorizar a compra de equipamentos bélicos. O passado recente de Moraes, sua atitude de beligerância com estudantes e movimentos populares, deixa evidente que o governo golpista adotará a política de confronto e de contraposição de forças. Quanta arrogância pensar que a batalha política se vence com a força das armas.

A metodologia para sustentar um empreendimento que surge com tanta violência, hipocrisia e manipulação é o uso da velha estratégia do controle social, via ação policial. E é isso, muito provavelmente, que fará, em doses cavalares, o governo ilegítimo daqui pra frente.

A festa da democracia acabou. Resta-nos, altivos, a resistência democrática.



sábado, 20 de agosto de 2016

Por que não comemoro o ouro da seleção masculina de futebol?


O Brasil é um país maravilhoso. Um povo bom. Uma cultura riquíssima. Muitos valores culturais e humanos. Porém, tem uma elite perversa. 

O futebol - uma "paixão nacional” - há algum tempo foi furtado pelos segmentos piores da nossa sociedade: a cbf, a globo, os patrocinadores, os jogadores milionários, os endinheirados. Tudo sendo transformado em mercadoria; puro consumo. 

Ouvir Galvão e Ronaldo falar na INSTITUIÇÃO SELEÇÃO BRASILEIRA me dá nojo... Me desculpem a franqueza.

E a paixão de uma nação passou a ser de e para poucos, nas arenas espetaculosas - desde a Copa - e nos canais fechados de TV. Quem estava torcendo, no velho Maraca, nessas Olimpíadas? Os brancos, ricos e poderosos que podem comprar ingressos caros; eventos para um público de elite. 

Em 1950, quando a seleção perdeu o final da Copa, era o povo que lotava o Maracanã. E o povo chorou... As fotos que registraram aquele momento mostram as múltiplas faces dos muitos brasis naquela ocasião... E agora? Quem estava lá?

A vitória do Brasil poderá ser usada como lenitivo para manipular o povo em tempos de governo golpista. Como em tempos pretéritos, exibirá para o mundo que tudo está bem no país. Os manipuladores de sempre, os globais e outros tantos, conhecem muito bem a arte de usar o futebol para tamponar os problemas nacionais.


Mas, nada está bem. Tudo está muito mal. Vencemos o desafio de organizar uma Olimpíada. Estamos perdendo, e feio, o jogo da Democracia. Um bando da pior qualidade tomou de assalto o poder e imprimirá mais sofrimento e dor ao povo deste país. 

Nas redes sociais o interino, de imediato, quis faturar. A reação popular foi imediata. Chega de tanta usurpação!

Espero que a vitória da seleção não sufoque uma insatisfação generalizada que toma conta do país. Inclusive que haja reação contra essa estrutura perversa de se apropriar das belas criações da nossa cultura popular, como o futebol, e transformá-las em produtos  para poucos.

Viva o povo brasileiro. Torço para o Brasil. Mas, para um Brasil de e para todos os brasileiros e as brasileiras. 

E não comemoro o ouro da seleção de futebol da cbf, porque acho que esse escrete não representa o espírito da nossa Nação.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O que temer em Temer?


Chargista Casso - Imagem da Internet

É ingênuo pensar que Temer é o grande articulador e tem sob controle a empreitada golpista. Muito pelo contrário, a personalidade cambiante do interino é, ao mesmo tempo, o grande perigo para a democracia e a maior vantagem para a coalizão usurpadora. Não poderia haver um político mais “perfeito” para servir como preposto dos verdadeiros donos do poder e mentores do golpe.  

Explico. A coalizão golpista, como já refletimos várias vezes, é formada pelos segmentos historicamente comprometidos com um modelo de país que garante a cidadania para apenas 25% da população. São os coronéis da velha política (liderados por figuras como Aécio, FHC, Cunha, Renan e os líderes da bancada BBB – boi, bíblia e bala), os empresários com mentalidade colonial, a mídia manipuladora e a serviço do capitalismo internacional e amplos segmentos autoritários, elitistas e altamente conservadores do judiciário, ministério público (e outros grupos jurídicos) e da classe média saudosa dos privilégios da casa grande.

Essa coalizão tem apoio internacional, pois é fundamental para o modelo capitalista manter países do porte do Brasil como colônias extrativistas. Por isso, as disputas em torno do pré-sal, da biodiversidade e da água doce. E um chanceler como Serra é como mel na chupeta para servir aos interesses alienígenas.

É neste contexto que devemos analisar a figura do interino. Sua maior qualidade para os mentores e executores do golpe é justamente sua grande fraqueza. Temer não tem o mínimo controle do governo; está nas mãos de figuras como Cunha, Padilha, Jucá, os caciques tucanos, coronéis do PMDB, banqueiros e empresários sanguessugas. É incapaz de gerenciar uma coalizão com tanto apetite e sanha em destruir o pouco que foi conquistado pelo povo desde a Constituição Federal de 1988. 

Guardadas as devidas proporções, o interino é uma espécie de mamulengo, um boneco que faz a mediação entre o povo, que deve ser distraído (porque ainda não sentiu no bolso os efeitos das medidas do governo de plantão) enquanto os operadores do golpe colocam em ação o projeto de governo e de país que tomou bomba nas quatro últimas eleições. Às favas a democracia!

Assim como os militares cumpriram o papel de “testa de ferro”, durante os 21 anos da ditadura, Temer, agora, exerce a função de excelente preposto das mesmas elites antidemocráticas deste país, de ontem e de hoje. Com uma vantagem: assunto ao poder por vias tortuosamente legais, com a anuência suprema (como também ocorreu durante a ditadura), Temer dá ares de legalidade a todo o processo golpista.

Por outro lado, é justamente essa fraqueza que torna o governo até agora interino muito perigoso à democracia. Um governante fraco e cambiante é facilmente controlado; é prontamente convencido, pelos verdadeiros dono do poder, a tomar medidas autoritárias e perversas, em nome da “lei e da ordem” (essa invenção dos ricos e poderosos incrustados nos parlamentos e no judiciário para oprimir, reprimir e controlar o povo). Alexandre de Moraes que o diga...

Quando exigimos a volta de Dilma não estamos desconsiderando esse cenário complexo no qual a correlação de forças, no momento, favorece o grupo que tomou de assalto o poder. O retorno de Dilma é condição para que não aconteça uma ruptura democrática. Mas, mesmo que a presidenta legítima retome seu mandato, uma utopia, não nos enganemos acerca da colossal capacidade de pauta e de veto da coalizão golpista.

Aliás, desde a metade do segundo mandato de Dilma, a presidenta já vinha cedendo ao grupo golpista, que se robusteceu a partir das jornadas de junho de 2013 e consolidou-se nas eleições de 2014.  Diferentemente dos políticos tradicionais, Dilma, num determinado momento, deu um “basta” ao grupo que impunha um caráter conservador ao seu governo. Desde então, foi vítima de chantagem e, posteriormente, do impeachment fajuto; essa invenção mal-ajambrada que os usurpadores articularam para arrombar nossa democracia.

No momento atual, enquanto os olhos do mundo estão voltados para o Brasil por causa das Olimpíadas, os líderes da coalizão no poder agem para manter certa aparência de normalidade. Não perceberam, por exemplo, que já perderam a narrativa internacional acerca do golpe. Como têm como sócios estratégicos os donos da mídia, creem que poderão tamponar todas as formas de resistência. Afinal, quando não há pudor nem temor, a barbárie humana não tem limites. A história é repleta de exemplos...

Mas, não tenhamos dúvida: sacramentado o golpe, quando setembro vier, a política dos fins que justificam os meios estrará em campo com todo o vigor para o deleite dos grupos que historicamente sempre trataram este país e seu povo como seus serviçais.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Cícero, Catilina e os traidores do senado brasileiro


Voltemos à Roma antiga. Estamos no ano de 63 a.C. Marcus Tullius Cicero, considerado o maior filósofo romano, tinha o cargo de cônsul, posto mais importante do Senado. Na ocasião, ele descobriu que um de seus colegas, o senador Lucius Sergius Catilina, organizava uma conspiração para assassiná-lo. O mentor do complô era um nobre arruinado por dívidas. Como sempre ocorre nas rodas do poder e da corrupção, Catilina contava com o apoio de outros homens ricos, brancos e militares que também tinham problemas financeiros e se articulavam  um golpe contra a República.

Ao ser informado dos planos de Catilina, Cícero convocou uma reunião do Senado e proferiu uma série de quatro discursos, que ficariam conhecidos como Catilinárias.

As Catilinárias são um exemplo de correção no exercício do poder público, dado que os discursos de Cícero passaram a ser referenciados sempre que um homem público atenta contra o interesse geral de uma Nação.

Nessa história do Senado romano, Cícero conseguiu sufocar a revolta de Catilina, postergando alguns anos a existência da República, que foi arruinada quando Júlio César invadiu a península itálica, em 49 a.C.

Infelizmente, não temos no Brasil um senador, com "S" maiúsculo, da estatura de Cícero. Mas, temos muitos que são iguais ou piores que Catilina. Para defenderem seus interesses e de seus mentores (os donos do dinheiro); para salvarem suas peles a qualquer custo (porque estão enlameados na corrupção); para manterem seus discursos hipócritas de moralistas sem moral, os catilinas do senado brasileiro crucificarão uma inocente e, com ela, a república e a democracia.

CÍCERO, SENADOR DA ROMA ANTIGA, DÁ UMA LIÇÃO DE DIGNIDADE PARA OS SENADORES QUE ABRIRAM O PROCESSO DE IMPEACHMENT CONTRA DILMA.

Como uma manada sem rumo e sem razão, crentes que estão acima das leis e do julgamento dos brasileiros e do mundo, os catilinas daqui estão com os ouvidos fechados a quaisquer argumentos a comprovarem a parcialidade, o oportunismo e a perversão de um julgamento sem base constitucional. Talvez, nem se tivéssemos no senado um político da estatura de Cícero se reverteria esse espetáculo de violência à democracia.

Ontem, as páginas da história brasileira foram, mais uma vez, borradas com o que há de pior nessa república: além do espetáculo patético no senado, quando ouvimos Aécio defendendo a democracia e outros tucanos e peemedebistas falando em respeito às leis, tivemos a absolvição pelo STF de Russomano e a confirmação, pelo PSC, da permanência de Feliciano na liderança daquele “partido”. Agora, só falta a Câmara Federal salvar Cunha, com o apoio explícito de Temer. A podridão e a degradação dos três poderes denuncia a decadência da república. O nojo e o asco que sinto em relação aos membros das nossas instituições republicanas faz com que meu estômago fale mais alto que meu cérebro. E isso não é bom...

Mas, voltemos ao senado. A história dos catilinas daqui será contada agora e sempre. Assim como os heróis são lembrados pelos seus exemplos, os políticos e magistrados pífios também entram nos rodapés das páginas da história para que recordemos que a desfaçatez, a desonra, a mesquinhez e outros vícios são os atributos dos traidores, dos hipócritas e daqueles que não merecem um pingo de respeito e consideração.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

No concerto das nações, o golpe foi explicitado


Foto: Mark Humphrey/ AP

O fato político mais relevante desses últimos dias não foi a revelação das propinas recebidas pelo interino e seu ministro das relações exteriores. Apesar do desdém da mídia nativa - manipuladora e venal -, o acontecimento mais importante, repleto de sentidos e significados, ocorreu na abertura dos jogos olímpicos, na última sexta-feira (05/08). Aos olhos do mundo, o golpe apareceu retumbante não nas vaias ao interino, mas na absoluta ausência de chefes de estado e de governo na cerimônia, no Maracanã (veja  também, aqui).

A disputa pela narrativa do golpe foi abafada violentamente no país. A coalização golpista - envolvendo líderes políticos, o Parlamento, a mídia, parte do empresariado, do judiciário e dos setores retrógrados da classe média - tentou a todo o custo impedir que os brasileiros percebessem o golpe à democracia, travestido no processo de impedimento de Dilma Rousseff. Pesquisas de opinião já comprovavam, na semana anterior, que o povo não engoliu o engodo. A rejeição ao governo de plantão é colossal.

Mas, a prova dos nove seria a recepção da comunidade internacional ao governo interino. Apesar dos esforços do Itamaraty em relativizar a possível ausência de líderes, muitos sinais externos já evidenciavam a rejeição dos democratas de todos os países a Temer e seu gabinete.

Mas, a reportagem do jornalista Jamil Chade do Estadão (aqui caiu como um torpedo na cabeça dos golpistas. O repórter, único a adentrar na área reservada às autoridades internacionais, constatou a derrota colossal, vergonhosa, estupenda do interino, seu chanceler e seu governo. Somente 18 chefes de estado presentes. Alguns, como Hollande, vieram para cumprir protocolo, porque a França tem interesse em sediar os jogos olímpicos no futuro. Outros, porque são membros do Comitê Olímpico Internacional. Os poucos presentes eram de países sem relevância no concerto das Nações. A ausência dos líderes dos BRICS, por exemplo, deixa claro o estrago que um golpe provoca nas relações internacionais. Da América Latina, nossos vizinhos, somente o argentino Macri, cujo governo retrógrado, conservador, autoritário e entreguista comunga com a turma do governo de plantão no país.

E como se não bastasse tamanho desdém da comunidade internacional, os poucos líderes presentes evitaram se encontrar com Temer. E mais: para a humilhação final e apoteótica, como um tiro de misericórdia, autoridades convidadas a ocuparem a área reservada ao presidente interino recusaram a “honraria”. Segundo o jornalista que descreveu a constrangedora cena, “o governo brasileiro tentou convidar os poucos líderes a ficar no principal camarote, ao lado de Michel Temer, presidente interino. Sem sucesso, o local foi preenchido por diversos ministros do governo e autoridades municipais e do governo do estado. Antes mesmo de terminar o evento e logo depois do desfile da delegação da França, o presidente François Hollande deixou o Maracanã, à francesa”. 

Hollande saindo à francesa. Um tapa na cara seria menos dolorido...

A foto do interino na abertura, solitário e desconcertado, sendo ladeado pelos amigos da empreitada golpista, mostrava o isolamento do governante de plantão...

Esse acontecimento, ignorado pela emissora oficial do golpe e pela mídia nativa e que só foi revelado pela reportagem do Estadão, por incrível que pareça, não deixa nenhuma dúvida. Os democratas que estão lutando em prol da democracia no país ganharam a narrativa acerca do golpe. Independentemente do resultado da votação do impeachment pelo Senado - o jogo jogado de políticos interesseiros que envergonham qualquer Nação -, a posteridade saberá o que ocorreu neste país quando uma turba tomou de assalto o poder, à revelia da deliberação popular.


Os apoiadores da sociedade democrática – que se baseia na prevalência da vontade expressa das maiorias – conseguiram sufocar aos olhos do mundo o golpe imposto por um grupo que a todo custo tenta solapar a democracia. Na disputa sobre quem serão os verdadeiros autores da História, o round internacional, ocorrido na abertura das olimpíadas, foi vencido por nocaute pelos defensores da democracia.  

sábado, 6 de agosto de 2016

Não nos iludamos com as vaias ao interino

Na imagem (internet),  Meireles,
o representante dos bancos no governo, aplaude Temer

Confesso: ontem vibrei quando ecoaram as vaias ao interino, durante os 10 segundos de sua aguardada alocução na abertura das Olimpíadas. 

É sempre prazeroso ouvir uma retumbante desaprovação pública a um político que não tem nenhum apreço à democracia, nem respeito ao eleitor e suas escolhas.

Mas, não nos enganemos. Ontem, no Maracanã, o público que vaiou Temer é do mesmo perfil socioeconômico e demográfico daquele que há algum tempo vaiou e vomitou impropérios contra a presidenta legítima e constitucional, Dilma Rousseff. Naquela ocasião, as vaias e os xingamentos de um banco de imbecis e covardes escancaram para o mundo que os segmentos abastados e de classe média conservadora no Brasil não respeitam a democracia, os representantes legitimamente eleitos e, no caso, não escondiam o nível de misoginia, preconceito, ódio e deseducação dessa parte de endinheirados e escolarizados. Dilma comportou-se estoicamente. Temer, ontem, postou-se como os machões da política nacional que, quando - muito raramente - são pegos com as calças curtas, agem como ovelhinhas e pedem arrego no colo da mamãe...

Portanto, as vaias de ontem não expressam a desaprovação do público ao presidente golpista, suas práticas, seu grupo, seu governo. Demonstram que segmentos majoritários de nossas elites econômicas, sociais, políticas, religiosas, culturais não têm nenhum apreço à democracia; criminalizam a política; não têm pudor em afrontarem as autoridades constituídas, principalmente quando seus interesses de classe são contrariados. Enfim, são segmentos poderosos que não estão comprometidas com governos que atuem em benefício público, social e coletivo.

Muito provavelmente, o que ocorreu ontem pode ser explicado a partir dos conceitos de comportamento coletivo, portanto espontâneos e pontuais, e/ou ações coletivas, que congregam interesses comuns (no caso, o desdém à política e à democracia), derivando na vaia apoteótica. Mas, certamente, não há motivação política na base do protesto - que cumpriu papel importante ao publicizar para o mundo o golpe em curso no país.

Não pensemos que será dos brancos, endinheirados, da zona sul carioca e dos turistas visitantes que superaremos o golpe e suas consequências à democracia brasileira.

Se a vaia a Temer aplacou um pouco nossa ira coletiva em relação ao interino, e desopilou nosso fígado, não nos deixemos iludir pela ocasião. A festa foi bonita; os brasileiros não precisam ter complexo de vira-latas, mas o fato político mais importante da abertura da Olimpíadas foi o descomunal desprezo da comunidade internacional ao governante de plantão. As inúmeras cadeiras reservadas às autoridades vazias; a pouca significância das autoridades presentes no evento e o desdém generalizado ao interino amedrontado mostraram que o mundo já rejeitou o golpe. Agora, só falta o Brasil...



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Os hipócritas também pagarão a conta do golpe



O colunista Janio de Freitas, em artigo publicado na Folha, escreveu “que o afastamento da presidente se faz em um estado de hipocrisia como jamais houve por aqui. (...) Uma hipocrisia política de dimensões gigantescas, que mantém o Brasil em regressão descomunal, com perdas só recompostas, se o forem, em muito tempo –as econômicas, porque as humanas, jamais.”

Os holofotes do jogo jogado do impeachment - desde o momento no qual um bandido, no comando da Câmara, com a conivência do Supremo, instalou o processo – estão todos voltados para o Congresso e, neste momento, no Senado, como se lá fosse o único palco dessa encenação ridícula. Mas, é preciso reconhecer que, não obstante o fato de termos um Parlamento majoritariamente ocupado por ratazanas, a falta de lideranças com credibilidade, respeito e reconhecimento nos campos político, econômico, social, religioso, artístico e intelectual impossibilitou uma saída democrática para a crise instalada desde 2013.

Sob o ponto de vista sociológico e político, as elites são os principais atores que orientam os rumos dos governos e da sociedade, porque têm grande poder de vocalização de seus interesses e, portanto, extensa capacidade de mobilizar, publicizar e definir a agenda pública.

O papel sociedade civil é central no tensionamento de processos políticos com vistas à ampliação da cidadania e dos direitos. Mas, as elites, queiramos ou não, são fundamentais para induzir o desenvolvimento social, político, econômico e cultural de qualquer sociedade.

O Brasil, apesar de historicamente dirigido por elites muito conservadoras - cujos grupos majoritários dessas elites têm fortes tendências antidemocráticas -, já teve expoentes que, em situações de crise intensa, conseguiram articular grandes concertações em torno de ideias e ideais capazes de produzirem significativos avanços sociais, econômicos, culturais, políticos...

Já tivemos na elite política referências como Ulisses Guimarães, Franco Montouro e Tancredo Neves. Hoje, os líderes bajulados pelas elites são Temer, Cunha, Aécio, Renan, Serra, Bolsonaro, Caiado...

Na cultura, orgulhávamos de personalidades como Guimarães Rosa, Antonio Candido e Chiquinha Gonzaga. Hoje, as elites batem palma para Reinaldo Azevedo e Alexandre Frota.

Tínhamos elites intelectuais do porte de Paulo Freire, Sérgio Buarque, Euclides da Cunha e Darcy Ribeiro. Hoje, as elites intelectuais cultuadas são Olavo de Carvalho e Lobão.

Já convivemos com economistas do porte de Roberto Campos e Celso Furtado. Hoje, segmentos mais visíveis das elites seguem as dicas econômicas de Rodrigo Constantino e Miriam Leitão. E já tivemos empresários que defendiam uma indústria nacional forte e geradora de riqueza e renda para o Brasil e os brasileiros. Agora, os homens de negócio dessa terra resolveram criar a filosofia empresarial do pato amarelo.

O espaço da liderança religiosa que era ocupado por figuras da estatura de Paulo Evaristo Arns, Helder Camara e Luciano Mendes de Almeida é protagonizado, agora, por vultos como Malafaia, Cunha, Malta, Macedo e Feliciano.

Lula é a última grande liderança política e social que teve a capacidade de movimentar uma ampla coalizão, num momento de bons ventos da economia - apesar de não ter enfrentado as grandes mazelas nacionais com reformas estruturais, quando presidente. Sonhou, como um operário que sempre fica devendo favores ao patrão, um bom cristão, que era possível conciliar o mundo do trabalho, historicamente oprimido, com o mundo das elites, historicamente privilegiado. Para tanto, arriscou a jogar o mesmo jogo das elites políticas tradicionais, historicamente comprometidas com a corrupção, o patrimonialismo, o clientelismo e a apropriação privada do espaço público. Acreditou, inclusive, que jogando o mesmo jogo dos políticos tradicionais seria poupado, com a crença que a justiça e as elites agiriam com isonomia, caso suas estratégias fossem delatadas. Todos sabemos o enredo dessa história...

Não obstante, Lula conseguiu avanços sociais e econômicos reconhecidos internacionalmente. Gostemos ou não, por uma década, sob sua liderança, os brasileiros sonharam com a possibilidade de uma sociedade na qual os interesses de classe poderiam se conciliar. E esse sonho começou a se transformar em pesadelo naquele junho de 2013, quando as ruas foram invadidas por hordas de interesseiros.

Provavelmente, por ter conseguido transformar a realidade social do país, apesar de algumas ações erráticas, Lula é caçado tresloucadamente por uma juristocracia, uma elite jurídica que, aliada aos outros segmentos conservadores das elites sociais, econômicas, políticas, religiosas e culturais sempre determinaram os lugares sociais a partir de seus interesses de classe.

E foi através de uma coalizão de amplos setores dessas elites conservadoras, com a participação descomunal da mídia, que uma engenharia golpista bem-sucedida foi sendo arquitetada, desaguando num processo fajuto de impeachment, cujo resultado qualquer mortal sobre a terra já tem conhecimento.

Os ricos e poderosos e os segmentos rancorosos e privilegiados da classe média - portanto, parte significativa das elites sociais, econômicas, políticas, culturais e religiosas -, são coniventes com o golpe. Creem que o governo que tomou de assalto a República manterá intactos seus privilégios. Não percebem que o golpe à democracia nos coloca na situação de uma sociedade atrasada e que esse retrocesso repercutirá negativamente na vida de todos os segmentos sociais.

Um golpe na democracia não é um jogo de soma zero, no qual uns ganham e outros perdem. Trata-se de uma involução social, política, econômica, cultural e ética que tomos, com intensidades diferentes, amargaremos nos próximos anos. Inclusive a classe média que sentirá, mais cedo ou mais tarde, os reflexos de um governo pouco comprometido com a Nação. Várias medidas anunciadas pelo governo interino sinalizam perdas de direitos que incidirão sobre todos os brasileiros, inclusive a classe média. É questão de tempo...

Portanto, o malsinado caminho do golpe punirá terrivelmente os trabalhadores e os pobres, mas certamente penalizará também os hipócritas que naturalizam e desejam invisibilizar essa violência estúpida à Constituição, ao estado de direito e à democracia, chamada impeachment.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O golpe passará. E o Brasil reencontrará seu caminho.

Fonte: Nani, para "Charge on line"


Uma horda tomou de assalto o poder no Brasil. Corruptos, misóginos, antidemocratas, ricos, brancos (e cristãos) se associaram numa extensa coalizão, passando por cima da Constituição e do Estado de direito.

Políticos com extensa ficha criminal associados com perdedores das eleições, entorpecidos pelo ressentimento e cujas delações os colocam próximos à prática do banditismo, e o Parlamento mais pífio e conservador da história republicana promoveram uma “congressada” em dois tempos: primeiro na Câmara, que além de baixa é repugnantemente fétida; agora, no Senado, sob a batuta de políticos que envergonham qualquer parlamento no mundo democrático, salvo exceções em ambas as casas legislativas. Sem crime de responsabilidade  caracterizado, os inquisidores, impávidos, julgam a presidenta impunes; uma ação iliberal, porque sequer as leis são respeitadas.

Uma mídia venal, partidária, antidemocrática e antinacional tratou de “vitaminar” a sanha golpista. Manipulações de todas as ordens, mentiras e ódio passaram a pautar o cotidiano de um jornalismo que se transformou ora em entretenimento para esconder ou escamotear os fatos; ora em espetáculo inquisitorial.

A justiça, eterna servidora da casa grande, tão corrupta e elitista quanto os demais poderes, tratou de pavimentar os caminhos para a empreitada golpista. A mais alta corte assistiu impávida um bandido comandar a abertura do processo de impeachment; e qual tribunal de ninfas castas, acovardou-se quando um juiz (cujas ações vingativas e discricionárias expuseram o modus operandi de togados que agem seletivamente e são verdadeiros sepulcros caiados), violentou a constituição permitindo a exibição, em rede nacional, de um grampo ilegal, a motivar a condenação tácita e pública da presidenta.

Empresários do pato amarelo e seus patinhos associados, patrocinadores de golpes no passado e no presente, injetaram dinheiro sujo para todo o tipo de financiamento dos aventureiros golpistas. Sempre beneficiados pelo modelo econômico (especulação concentradora de riqueza e renda) e tributário (que penaliza o consumidor e isenta os ricos) e pelas benesses dos subsídios governamentais, resolveram que, a partir de agora, o assalto à Nação será escancarado e sem pudor.

Segmentos perversos da classe média, que não aceitam uma sociedade justa e igualitária, se agregaram a lideranças religiosas, intelectuais e subcelebridades para contaminar as redes sociais de ódio e espírito de vingança. Criaram heróis nacionais que fazem Hitler retorcer no túmulo de inveja e construíram uma narrativa quase hegemônica a justificar o injustificável.

Rezando na cartilha dos interesses norteamericanos, que não aceitam a autonomia dos povos latino-americanos, os usurpadores de plantão estão prontos a entregarem nossas riquezas minerais, como o pré-sal; nossos recursos da biodiversidade e nosso patrimônio imaterial: potências que podem transformar esse país numa grande Nação.

Os partidos políticos, em sua maioria, se transformaram em gangues ávidas pelo poder a qualquer custo. Fins passaram a justificar quaisquer meios nas relações político-partidárias. Dispensam-se comentários sobre os caminhos trilhados pelos partidos de direita, aqui incluso o PSDB. Em síntese, flertam com o fascismo. Mas, é preciso registar que o PT foi dominado por grupos pragmáticos, políticos de péssima estirpe, interesseiros de todas as espécies que embarcaram quando o partido estava no poder e lá convivem se temor, nem pudor. Mostrou em reiteradas vezes que os ideais de seus fundadores na década de 1980 se transformaram em letra (quase) morta. Aqueles petistas coerentes, pouquíssimos e minoritários, que defendem uma refundação do partido, são vozes que clamam no deserto. O lema “o povo não é bobo, abaixo a rede globo” também poderá ser cantado para expurgar outros atores políticos. As eleições se avizinham...

Enquanto isso, o discurso e a prática fascistas vão tomando forma e vigor. O grupo usurpador tem uma agenda violentamente perversa contra os pobres, os trabalhadores, as minorias, o patrimônio público. Enfim, contra o Brasil e os brasileiros. Só aguardam a consolidação do golpe, do jogo jogado, para, de forma avassaladora, colocar em prática a política do desmantelamento do estado e da opressão social. Não medirão esforços para passar por cima daqueles que se colocarem no caminho, porque têm pressa em destruir o pouco que foi conquistado com duríssimo sacrifício pelo povo brasileiro desde a Constituição de 1988.

A maioria dos brasileiros ainda não entendeu o que ocorre. Não percebeu que o golpe não é contra uma presidenta, nem contra um partido. Apesar de desejarem destruir Dilma e o PT, os golpistas querem inviabilizar, definitivamente, a possibilidade real da construção de uma nação justa e democrática. Por isso, tanta pressa, tanta sanha, tanta violência, tanta cobiça, tanto ódio.

Independentemente de Dilma voltar ao poder, um número cada vez maior de brasileiros já entende: os golpistas mancham violentamente o presente da nossa história. Têm nome e identidade. Mas não têm, como outrora, o controle total da informação. Portanto, não poderão sufocar o advento da verdade. Não passarão!

Há muitos sinais de resistência. Os movimentos sociais estão se reativando. Os grupos historicamente oprimidos, como as mulheres, dão sinais de extraordinária vitalidade e engajamento cívico. E, certamente, quando os trabalhadores e os pobres perceberem que o pouquíssimo que conquistaram poderá ser perdido, aí teremos construído o caminho do retorno à democracia.

Os golpistas não entenderam que o acesso ao consumo nos últimos anos injetou nos trabalhadores desse país o vírus (ainda inativo) do inconformismo com a pobreza e a miséria. Uma pessoa que acostumou a ter um smartphone e uma TV de LCD, a comer carne, viajar de avião, frequentar shopping e universidade não aceitará nunca mais ser chicoteada pelos capatazes da casa grande. Isso explica o medo dos golpistas em relação a Paulo Freire e tanto desejo pela implementação da malfadada “escola sem partido”. Mas, a escassez (de trabalho, de possibilidades de consumo, etc.) e a miséria ativarão, mais cedo ou mais tarde, esse vírus (até agora) adormecido. A consciência coletiva produzirá distintos níveis de indignação. E a indignação será o instrumento das transformações. Esse é o grande temor dos golpistas.

Infelizmente, o pouco de consciência de pertencimento efetivo à Nação, ou seja, de sentimento e vivência da cidadania, veio pelos caminhos tortuosos do acesso ao consumo individualista; muito pouco contribuiu a educação e outras políticas públicas. Mas, seja como for, superaremos essa profunda violência a que fomos submetidos à medida que as pessoas se conscientizarem que a pobreza, a miséria e a desigualdade não são vontade de Deus; são imposições injustas de grupos de elite, inaceitáveis sob o ponto de vista ético, social, político e moral.

precipício momentâneo será de suor e lágrimas. Mas, o Brasil reencontrará a planície da democracia.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Uma cartilha para explicar o golpe


Depois do veredicto do Tribunal Internacional pela Democracia no Brasil, ocorrido no Rio de Janeiro nesta semana, que reuniu juristas de vários países para julgar a legalidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, concluindo que o processo, "nos termos da decisão de sua admissibilidade pela Câmara dos Deputados e do parecer do Senado Federal, viola todos os princípios do processo democrático e da ordem constitucional brasileira", e ainda a "Convenção Americana de Direitos Humanos e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, e constitui-se um verdadeiro golpe de Estado" (veja detalhes aqui), é preciso muito esforço para divulgar as consequências reais na vida das pessoas a partir do advento do governo interino.

Como ficou claro na última manipulação, entre tantas outras, da grande mídia, favorecendo o grupo usurpador (a fajuta pesquisa do Datafolha do último domingo, veja aqui), não será através do partido da imprensa golpista que o povo brasileiro, pelo menos no presente, tomará conhecimento do processo político em curso no país.

Como comentei no artigo anterior, o novo formato dos golpes patrocinados pela inteligência estadunidense no seu pretenso “quintal” latinoamericano é caracterizado pela sagacidade em travestir a violência à democracia com roupagem de constitucionalidade. Para tanto, não são necessárias as armas; basta arquitetar e promover uma junção dos segmentos mais conservadores, incrustados no Parlamento, na Justiça e na sociedade (setores da classe média e do empresariado) para se formar uma ampla coalizão que surfará com todo o pendor a partir da ação discricionária, seletiva e manipuladora da grande mídia, serviçal dos interesses alienígenas e do grande capital rentista e corruptor.

Com uma narrativa ficcional, no caso do Brasil as chamadas “pedaladas”, o bando não armado toma de assalto o poder, sem a necessidade de tanques, mas utilizando-se de violenta força simbólica à medida que impõe seus interesses privados em detrimento das regras mais elementares da democracia, como o respeito ao voto e ao eleitor (“todo poder emana do povo”).

As reações aos golpistas vêm, fundamentalmente, de setores da sociedade civil organizada, notadamente os movimentos sociais históricos, segmentos da classe média progressista e um ou outro dissidente do mundo político, empresarial e midiático. Um “batalhão” extremamente frágil a enfrentar o poderosíssimo exército da coalizão golpista que, além de tomar o poder, usa de todos os estratagemas para manter-se no posto e sufocar as fileiras dos opositores.

Com exceção dos detentores dos meios de produção, os burgueses, todos os demais segmentos da sociedade, em diferentes graus e intensidade, são prejudicados pelo golpe. Certos segmentos ignorantes da classe média, formadores de opinião - que pensam fazer parte da burguesia porque têm ensino superior, um carrão na garagem, uma casa na zona sul e vai uma vez ao ano visitar o Pateta na Disney -, negam sua condição de trabalhadores – que terão seus direitos violados e o acesso às políticas públicas negado - e apoiam os golpistas. O fato é que, apesar de detestarem ser classificados como tal, porque acham que trabalhador é adjetivo de pobre, esses segmentos vendem sua força de trabalho para aquele grupinho que é cada vez mais rico e que se locupletará ainda mais com esse (des)governo.

 Por outro lado, o povo assiste confuso o enredo golpista. A população, acostumada a ser objeto de manipulação, expectadora das decisões políticas e impedida de decidir os destinos da nação – não obstante o exercício pouco consequente do voto - (e isso não foi enfrentado durante os anos do governo petista, por leniência ou por convivência com essa segregação política alienante) -, parece não dimensionar o futuro sombrio no porvir.

É claro que a educação política é um empreendimento complexo e de longo prazo. Aliás, se nosso sistema de educação - que não educa à cidadania e é um ótimo instrumento de docilização das mentes e dos corações para aceitar “a vida como ela é” - não muda, quixotesca é a ideia de tratar de um processo de educação para uma ação cívica, com vistas à transformação social na atual situação sociopolítica.

Não obstante, seria muito oportuno que uma cartilha produzida pelo Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, intitulada “Saiba por que o afastamento da presidenta Dilma é uma ameaça à liberdade no Brasil” fosse espalhada aos quatro cantos do país, atingindo o maior número de cidadãos e cidadãs. De forma didática, a cartilha mostra para os brasileiros como o governo golpista é uma ameaça real ao pouco que foi conquistado em termos de cidadania,  desde a Constituição Federal de 1988.

É significativo, por exemplo, observar na cartilha um breve resumo da história do país: “Desde a chegada dos portugueses na Bahia já se passaram 516 anos. Desses 516 anos, o Brasil foi colônia em 64% e teve escravidão durante 67%. Além disso, 13,4% dos anos o Brasil foi uma monarquia, 8% uma república oligárquica e por 7,6% uma ditadura. Apenas durante 8% dos nossos conturbados 516 anos tivemos eleições gerais para o executivo federal. Nesse período tivemos 7 presidentes eleitos. Apenas 3 deles completaram seus mandatos (até agora). Entre os outros quatro (até agora), um deles se suicidou para evitar um golpe e outro tomou um golpe. Resumo da história: o Brasil não é um país democrático sofrendo de uma febre de intolerância e golpismo. É um país intolerante e golpista que sofreu de um pequeno espasmo democrático nos últimos anos.”.


Se você quer acessar a cartilha, clique aqui.

sábado, 16 de julho de 2016

O golpe na Turquia e o golpe no Brasil

Fonte: Montagem com imagens da Internet

Os turcos, ao que tudo indica, conseguiram abortar um golpe, mesmo debaixo da ameaça das armas. O presidente convocou e o povo foi para as ruas. Os milicos golpistas, com os rabos entre as pernas, foram presos. Curiosamente, o acusado de ser mentor do golpe é um clérigo, morando nos Estados Unidos. O fundamentalismo religioso sempre foi e continua sendo um perigo para a humanidade. 

Nós, os brasileiros, não conseguimos estancar um golpe sem tanques. Um golpe que foi amadurecendo e se consolidando através de uma narrativa altamente violenta, cujas armas não são os tanques. Montou-se uma farsa: imputar crime de responsabilidade a presidenta. A farsa foi desmentida várias vezes: a última nessa semana, com o pedido de arquivamento da apuração criminal sobre as "pedaladas", pelo Ministério Público Federal. Para o espanto de qualquer observador mais atento, não obstante o desmonte da farsa, o enredo golpista continua a todo vapor, como um tanque invisível, um jogo jogado, patrocinado pelo bando golpista alojado no Parlamento e seu preposto interino, para o deleite de moralistas sem moral. 

Aqui, o golpe é comandado por uma violenta coalização formada por uma corja de políticos corruptos e decadentes; uma mídia manipuladora que desmobiliza o povo; um empresariado e uma elite rancorosos e de mentalidade colonial e um judiciário que, ora opera, ora se omite, para dar ares de legalidade ao golpe.

O povo poderia até enfrentar a força das armas, um inimigo visível. Mas, quando o oponente é tão sagaz e ardiloso, todos ficam perdidos, esperando algum sinal. Acontece que os sinais (assalto ao patrimônio público; servilismo aos interesses alienígenas e, fundamentalmente, extrema violência contra os grupos mais vulneráveis, com drástica redução do estado de proteção social), são omitidos propositalmente pela mídia golpista, dando falsa sensação que tudo continua como antes.

A sociedade, não acostumada a participar ativamente dos destinos da nação, assiste a tragicomédia, sem perceber que a desmobilização cívica restitui o poder para o grupo dos que dormem em berço esplêndido .

É por isso que os golpes mais sofisticados, desenvolvidos nos últimos anos na América Latina com o concurso da inteligência norteamericana, são também muito mais difíceis de serem confrontados. O enredo, já utilizado no Paraguai e em Honduras, é sempre o mesmo. Forjar uma narrativa para desestabilizar um governo democrático, criando condições que para que os vilões, com ares de mocinhos, tomem de assalto o poder, sem tanques. Mas, com intensa violência e vilania.