sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Entrevista: 'Uma esperança para esperançar-se'

Devemos ir em busca da justiça e da igualdade, nos unindo para fazermos algo diferente.


Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.
Entrevistamos o Cientista Social e professor da PUC Minas, Robson Sávio Reis Souza, que é coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas (Nesp) e conselheiro titular do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais. Na entrevista, que o doutor em Ciências Sociais nos concedeu por escrito, ele aborda o contexto político no qual vivemos e o papel dos cristãos e cristãs nesse processo.
O país vive um contexto político muito conturbado, em que as instituições estão fragilizadas e a democracia golpeada. Qual o lugar da esperança, para aqueles que buscam mais justiça social e igualdade?
Há que se pensar em várias dimensões. Numa perspectiva individual, e não individualista, a questão é: o que cada um de nós pode fazer para mudar essa realidade? Se não é possível uma transformação estrutural, há sempre a possibilidade de transformar os espaços onde atuamos. Numa dimensão social e comunitária, como se articular a outros atores sociais que lutam pela justiça e pela igualdade? No plano religioso, é preciso superar o discurso sacrificial, que nos coloca no lugar da vítima sempre incapaz de reagir; passiva e amedrontada à espera do algoz. Também no plano religioso, esse conformismo cínico com realidades tão perversas precisa ser superado: um país onde quase 60 mil pessoas são mortas por ano, em sua maioria jovens, negros e pobres; onde milhares de mulheres são estupradas, inclusive no recesso do lar; onde crianças são violentadas no seio das famílias e onde 1% dos ricos têm uma vida abundante às custas de milhões de brasileiros denuncia a baixa incidência do verdadeiro espírito do cristianismo na nossa cultura. A busca pela justiça e pela igualdade não pode ser de uma esperança para esperar. Há que ser de uma esperança para esperançar-se, ou seja, juntar-se com os outros para fazer algo diferente. 
A participação dos cristãos e cristãs em todas as esferas da Política é muito importante, pois nasce de um compromisso evangélico de exercício da cidadania e aponta para a justiça do Reino. Temos acompanhado, no entanto, que a participação de religiosos na política tem se desviado do compromisso genuinamente cristão. Como entender esse processo e quais riscos ele apresenta?
É preciso dizer com franqueza, e com tristeza, que há um certo desprezo do cristianismo e do catolicismo em relação à política como uma das formas mais perfeitas do exercício da caridade, porque busca o bem comum, como disse o Papa Francisco. Ainda temos uma cultura religiosa avessa às práticas voltadas para a construção de uma cidadania efetiva, ou seja, de uma sociedade inclusiva de e para todos e todas. Muitas práticas religiosas favorecem a dissociação entre fé e vida. Por isso, muito devocionismo e pouca preocupação com justiça social. Justiça aparece, na maioria das vezes, como um belo discurso com pouca efetividade. Fala-se muito em “justiça do Reino”, mas do reino futuro. Enquanto isso, a vida em abundância para todos, desejada por Cristo, se transforma numa vida em abundância para alguns. E isso é naturalizado. São minoritários os grupos de cristãos que têm percepção acerca da incidência do Evangelho enquanto imperativo ético à construção da justiça, da igualdade, da fraternidade.  Por outro lado, observamos um péssimo testemunho de muitas lideranças religiosas que vivem na opulência e na ostentação. E, sob o ponto de vista institucional, muitas vezes há um silêncio obsequioso frente a tanta injustiça e opressão.
Estamos em meio a uma campanha política, que culminará na eleição dos prefeitos e vereadores para os municípios. Quais critérios de discernimento os cristãos e cristãs devem assumir nesse momento, inclusive em que muitos candidatos ligados às instituições religiosas estão concorrendo?
As eleições são uma pequena parte de um processo mais amplo que demanda participação constante e qualificada dos cidadãos que desejam a melhoria da política e dos representantes eleitos. Conhecer bem os candidatos e acompanhar os eleitos são passos importantes. Porém, não são suficientes. Num contexto político no qual os princípios básicos da democracia, como o respeito ao resultado das eleições legítimas não é garantido, um grande ceticismo e desdém do eleitorado, nessas eleições, poderão redundar num afastamento da população do debate dos problemas e das soluções para a construção de cidades mais justas, inclusivas, igualitárias, diversas e plurais. Por isso, para além de se envolver no processo eleitoral em curso, é preciso que voltemos toda a nossa atenção para o tema da reforma do sistema político. O sistema político atual é perverso. Privilegia quem tem dinheiro e os caciques partidários, ou seja, o velho coronelismo com novas roupagens que ainda impera no nosso sistema eleitoral. Se não avançarmos numa reforma profunda de todo o sistema político, não há salvação para a nossa democracia. E as eleições vão se transformando, gradativamente, num conto da carochinha. Acreditamos que escolhemos os nossos representantes, pelo simples fato de votarmos, mas, como esse sistema, os escolhidos são aqueles que têm dinheiro ou que dominam as cúpulas partidárias. Não representam de fato o eleitor.
A Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio do Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), promoveu o primeiro debate entre os candidatos à Prefeitura de Belo Horizonte, no mês de agosto. Qual balanço você faz desse primeiro debate entre os candidatos?
Em análise sobre a conjuntura eleitoral de Belo Horizonte, produzida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas e da Arquidiocese (Nesp) constatou-se que o processo político e eleitoral que definiu as candidaturas majoritárias na Capital foi caracterizado pelo personalismo e caciquismo em praticamente todos os partidos; a inexistência generalizada de projetos políticos para a cidade e a região metropolitana; o afastamento da sociedade das discussões partidárias acerca dos problemas da cidade e a incapacidade das lideranças partidárias compreenderem os clamores populares por mudanças na política institucional. Portanto, o processo político, até o momento, repetiu as velhas e caducas formas da política tradicional, demonstrando a pouca porosidade dos partidos e seus líderes no diálogo com a população. Neste contexto, grupos e coletivos de fé e política e movimentos sociais foram convidados pelo Vicariato da Ação Social e Política da Arquidiocese e pelo Nesp a organizarem um encontro, no qual ouvimos e também falamos aos onze candidatos a prefeito da cidade. A principal discussão com os candidatos foi a respeito do tema “direito à cidade”. A cidade é um espaço de e para todos e todas. E o poder público é o grande responsável por fazer dos espaços urbanos locais de encontro, e não locais de exclusão, ratificação de preconceitos ou alienação socioespacial. Há problemas crônicos em Belo Horizonte que afetam desproporcionalmente seus moradores. Às vezes, planeja-se uma cidade a partir da lógica do mercado imobiliário, dos especuladores ou dos interesses dos incluídos. Por isso, no encontro com os candidatos e candidatas pudemos deixar claro que somente numa perspectiva inclusiva é possível projetarmos uma cidade melhor para se viver.

(Fonte: portal Dom Total) 

sábado, 3 de setembro de 2016

Fatiar o impeachment: o velho pacto das elites


Charge: Neltair Rebés Abreu, o 'Santiago' 
Realmente, o sistema político está apodrecido. E os líderes políticos também.

O processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff foi violentíssimo. Um bando, em sua maioria de corruptos e poderosos, tomou de assalto o poder, pisoteando a Constituição e os princípios mais elementares do jogo democrático: respeito às regras e às deliberações populares.

A coalização golpista, um ajuntamento de interesseiros – que doravante se agafanharão para conseguir seus pleitos no presente e no futuro -, como ocorreu em vários momentos da história nacional (1954 e 1064 estão logo ali), não mediu esforços para alcançar seus objetivos: tirar a fórceps a presidenta, interromper um governo de viés mais popular e tentar, com o golpe e numa só tacada, extirpar o PT. Com a empreitada, objetivou-se também sinalizar à sociedade que os velhos-novos coronéis estão de volta, em nome da “lei e da ordem” (deles).

Mais uma vez o processo político foi determinado pelas nossas elites conservadoras, com forte indistinção entre público e o privado e seu desdém às leis, normas e valores republicanos. Elites que insistem em sustentar um caduco sistema político afastado do povo; uma democracia sem demos.

O modus operandi dessas elites é simples e simplório: como não respeitam as normas, consideram o direito apenas na sua formalidade e não operam para o funcionamento das instituições nos moldes republicanos, sempre lhes cabe determinar os rumos da história. Aos cidadãos restam a dependência aos favores pessoais e às clivagens de classe para o acesso aos bens públicos e aos direitos de cidadania. E ponto.

Porém, é imperioso dizer, esse pensamento não é somente das elites da direita tradicional. Grupos de elite da esquerda agem da mesma forma quando no poder. Pensam que a transformação só se opera pelo pacto entre as elites e conspiram quando há iminência de renovação de baixo para cima; apesar do discurso.

Os protestos de 2013 sinalizaram o movimento de insatisfação geral dos brasileiros em relação a um estado que não opera para realização da cidadania de e para todos e todas. Passado aquele momento, todos os políticos tradicionais, de direita e de esquerda, voltaram para os seus gabinetes. E esqueceram que há uma insatisfação latente da sociedade, não somente no Brasil, com esse modelo que “não nos representa”.

Neste sentido, Dilma deve um mea culpa à sociedade. No segundo governo, talvez meio abandonada pelos comensais do poder, ao invés de uma guinada para aumentar sua base popular, a presidenta foi logo tentar as conciliações por cima, inclusive indicando para ministro da Fazenda um preposto de seus algozes.

Pois bem. Incapazes de absorver essa nova gramática social – um clamor por uma nova política lastreada nas demandas populares -, as esquerdas patinaram desde 2013. E, como na política não há espaço para vácuos, os segmentos de direita que se empoderaram na ocasião, capturando uma parte dos “revoltados” on e off line, articularam a mais ampla coalização da história deste país. E todos vimos o resultado nesse processo fajuto de impeachment, um verdadeiro estupro à democracia.

A população, em 2013, pedia mais estado (mais e melhores políticas públicas) e, paradoxalmente, menos de três anos depois tomou de assalto o poder um grupo que fará o oposto: mais e muito mais para o deus-mercado.

Como a história é movimento e disputa contínuos, o processo de impeachment começou a rearticular amplos e diversificados segmentos sociais e as esquerdas no Brasil. Uma nova potência está em construção. A violência do processo conduzido pelas velhacas elites políticas; suas características machistas, misóginas, elitistas, autoritárias; seus principais atores atolados na corrupção e no discurso vazio do moralismo; a participação escancarada da mídia oligopolizada; o dinheiro sujo das empresas sonegadoras; a ação seletiva de juízes, promotores e policiais agindo num estado paralelo dentro do estado democrático... Tudo isso começou a despertar em setores sociais dos mais distintos uma imensa indignação e repulsa. As ruas voltaram a falar.

A violência da destituição da presidenta e a não menos violenta leniência em relação a políticos como Eduardo Cunha escancararam, interna e externamente, o golpe. Criaram-se condições para que a insatisfação latente da população em relação ao carcomido sistema político voltasse a ocupar o centro do debate.

De repente, nos bastidores, mais uma vez, o pacto entre elites operava silencioso. Setores do PT e aliados, coronéis do velho PMDB e membros do judiciário costuraram um acordo de cavalheiros para minimizar a violência do golpe e aplacar a ira dos cidadãos: a cassação do mandato com a preservação dos direitos políticos da presidenta. O tradicional esquema do bate-e-assopra para manter tudo como sempre esteve.

Esse tipo de acordo enfraquece e impede a transição do Brasil para o moderno. Nossos avanços parecem estar sempre fadados a serem graduais, não violentos, conchavados. É sempre uma modernização conservadora, pactuada nos bastidores; conciliadora. Uma revolução passiva. Um jogo político sempre controlado.

Porém, estou convencido que o momento histórico poderá criar condições para superar essa velha marca do processo de transformação social brasileiro.

A pluralidade e a diversidade que emergiram da sociedade nos últimos anos; o gradual protagonismo dos jovens e das mulheres; os novos atores sociais, com suas clivagens identitárias, étnicas e sexuais - que não aceitam a condição de expectadores dos jogos políticos tradicionais - poderão imprimir uma nova gramática à nossa Nação.

Esses grupos, historicamente invisibilizados e excluídos do processo político, conheceram outro mundo; uma outra forma de se produzir e se reconhecer o mundo.  

Espero que esses grupos estejam dispostos a fazer história. E não aceitar, mais uma vez, que o conchavo das elites impeça os avanços substantivos da nossa sociedade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CONJUNTURA DE RISCOS PARA DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL APÓS O IMPEACHMENT


Programa: Mundo Político - TV Assembleia de Minas Gerais
Descrição: O professor Robson Sávio Reis Souza faz uma avaliação do cenário político atual, considerando o impeachment e a posse efetiva de Michel Temer. Ele comenta os riscos de perda dos direitos sociais a partir da posse de Michel Temer. Robson contesta a existência de um plano político por parte do grupo político ligado ao presidente interino e vê riscos de embate entre o PMDB, o PSDB, a mídia e os empresários ligados à Fiesp. O professor também comenta a atuação do judiciário e avalia os erros da presidente afastada Dilma Rousseff.

Entrevistado: Robson Sávio Reis Souza, professor e coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas
Entrevistadora: Vivian Menezes
Produção: Marco Soalheiro
FONTE: TV ALMG

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Tchau, querida democracia!


Montagem: Internet com várias imagens
 
Tchau, querida democracia é o titulo do livro recém lançado do amigo e professor, o advogado criminalista Leonardo Yarochewsky. Um título muito oportuno para este 31 de agosto de 2016. Apesar do jogo jogado, este é o dia no qual um bando de impostores, em sua maioria com o rabo preso na lama da corrupção e no velho e carcomido discurso moralista dos sem-moral, mais uma vez, estuprou nossa Nação.  

Isso não é novidade na história deste país: senhores feudais, donos da Casa Grande, plutocratas infiltrados nos três poderes, coronéis da política, serviçais do capital, donos de oligopólios, segmentos poderosos de elites (econômicas, sociais, religiosas, intelectuais e políticas) e uma parcela significativa de privilegiados da classe média (azeda e ranzinza, nos dizeres de Darcy Ribeiro) sempre se associaram em diversos momentos (da nossa história, desde o Brasil colonial) para pilhar o erário e manter o povo simples na condição de escravos. 

É surreal. Mas, a maior ação contra a corrupção na história do Brasil resultou na assunção ao poder de um grupo altamente corrupto e perverso.

Mas, o tempo dos pífios será breve. Nos rodapés das páginas da história, reservados aos personagens sem valor e indignos de registros maiúsculos, veremos os nomes de Aécio, Cunha, Temer, Ronan, Gilmar e outros traidores e capatazes da nossa democracia a recordar-lhes: todo poder, legítimo, emana do povo. 

E a luta, que nunca findou, continua... Porque a luta pela justiça e igualdade não é bandeira de ocasião. É bandeira de vida!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Mídia, golpe e edição da política


Por: Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira
           
Alguns comentários apareceram nas redes sociais observando que a mesma mídia que deu amplo espaço para a votação da câmara dos deputados e seu “circense” espetáculo, não foi capaz de fazer uma cobertura digna do momento histórico de Dilma apresentando sua defesa no senado. E mais uma vez constata os dois pesos e duas medidas habituais que acompanha o processo do impedimento da presidente. E não importa o quanto a defesa de Dilma possa representar para história do Brasil, para a grande mídia em geral tudo o que a mulher Dilma falar não tem importância alguma.

Nesse momento, Dilma precisa ser execrada pela mídia. Ela precisa desaparecer. A forma simples de fazer isso e não lhe dá holofotes. Quem não aparece na mídia não existe. Essa é maneira que a mídia tem de fazer sua edição da realidade, antes de editar nos seus estúdios. Primeiro se escolhe a realidade a ter foco, para existir ou não aos olhos de todos. Sem cobertura das tvs abertas é como se o que está acontecendo fosse um fato menor. Assim foi tratada a presença de Dilma no senado, como um fato menor, de pouca relevância. É a história de quem está do lado do poder que interessa. Para que mostrar a figura de quem não foi escolhida por todas as formas de padrões do poder, do estético ao de classe, quando se há a necessidade de desferir um golpe fatal, mortal, para destruir o que ainda resta?

Pe. Magno

O golpe que estamos a acompanhar vem sendo editado a partir da realidade desde os seus primeiros dias. Constantemente se escolheu noticiar a força dos que são contra a presidente, contra a esquerda, a fim de esconjurar qualquer reação contrária. Não fosse a mídia alternativa e as redes sociais não existiria aparentemente nenhum movimento a favor das forças democráticas. Exemplar foi sobremaneira a cobertura dada a câmara dos deputados. O requinte, em contexto clímax, dado em dia de domingo, tudo bem planejado, para a votação pelo impeachment. Tudo é tão bem editado que nenhum detalhe escapa. Tudo feito para todos os brasileiros acompanharem e sedimentar um sentimento de que o fim da linha chegava para a presidente, sem alternativas.

Com a edição da realidade abre-se a porta para as tantas edições da fala de presidente. Como sempre se diz que ela não sabe falar, que responde indiscriminadamente a mesma coisa para todas as perguntas, que lhe falta inteligência e outras conhecidas afirmações que se podem recolher na internet, mas que não repetiremos devido ao baixo calão. Seus argumentos são, assim, negados em nome do preconceito, da misoginia, e editados segundo várias cabeças, sobretudo de modo a desqualificar. De lado são postas qualquer observação sobre a fundamentação do que diz a presidente. Como a presidente mesmo disse em sua defesa, nenhum crédito é dado às provas em contrário do que lhe acusam. A sentença já lhe foi dada pelo ódio e a indiferença.

Todavia a historiografia recente nos lembra bem que existe a história dos vencedores e dos vencidos. Dilma deixa um documento histórico vivo com sua presença no senado, inclusive sorrindo na cara de alguns que sem escrúpulos algum se associaram a Cunha, por gestos, falas e fotos com o único objetivo de sancionar a derrubada da democracia. Isso terá ocasião certa para recolher das obscuridades seus fios de luz. E uma democracia mais sólida um dia agradecerá.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira: A política da fé

                
Os dramas do impedimento da presidenta Dilma para o Brasil vão muito além da superficialidade do que se pode viver nas formalidades da política. Atingem, no caso da nossa nação, mais uma vez o coração do sentido da política para cada brasileiro e brasileira. O golpe contra a democracia perpetrado em Dilma, incide diretamente sobre uma visão social para o Brasil. O direitismo assume isso sem nenhum tipo de vergonha, na escola sem partido, na falta de incentivo à educação, na proposta de diminuir direitos de trabalhadores, na diminuição do SUS (entenda-se extinção) e pior: desqualifica a linguagem da esquerda enquanto linguagem que opta pelos mais fracos e excluídos.

O que tenta a direita, com isso, é acabar com uma narrativa que é essencial para a vida política, destruir a fé na capacidade de lutar por direitos, por igualdade. Escracham à luz do dia a defesa dos pobres como populismo barato e levantam a bandeira da tal eficiência de sua gestão como forma de governo, um engodo pautado na defesa da meritocracia como forma de regular a vida social. Isso termina por constituir-se em uma das formas mais perversas de ideologia, ocultando toda a responsabilidade social do Estado em procurar o resgate de dívidas sociais, funcionado como entidade mantenedora da ordem necessário para funcionar bem a usurpação dos mais fracos pelos mais fortes.

A destituição de Dilma é um ataque certeiro desta posição ideológica rasteira, que arrasta, inclusive, uma boa massa jovem desacautelado que repete o refrão “fora Dilma” com orgulho e a crença pueril de dominar o processo em questão, manobrada com habilidade pela grande mídia, como há algum tempo não se fazia. Por isso, a batalha é não deixar os agentes de tamanha bestialidade roubarem o patrimônio da “política da fé”. Com boa vontade, e com valores e ética, sabe-se que existe uma “política da fé”. Esta é aquela ancorada no discurso sobre a indignação ética, alma da esquerda, não condicionada a legendas e partidos, mas envolvida em movimento maior por um mundo justo, com a consciência de que a queda momentânea de projetos históricos, em situações concretas, não são o fim da luta.

O fascismo atual não é outra coisa que a soberania do direitismo como discurso, contra a “política da fé”. Cresce à proporção que não se acredita em transformações sociais, que não se alimenta sonhos de outra realidade para os pobres, para os injustiçados. E não se acreditando em mudanças sociais, a ideologia da morte se aninha como solução nas mentes e coração, de modo perigoso, pois consegue cravar no coração das pessoas a ideia de que qualquer narrativa revolucionária é mentirosa, que todos seus ícones são falsos e que é preciso derrubar tudo isso pela revisão histórica do politicamente incorreto. A derrubada de Dilma faz parte dessa desmoralização geral da “política da fé”. Destruir biografias vivas, da esquerda, é essencial para continuar a desconstrução do utópico como motor da sociedade, em troca da realidade do mercado, da vitória de uma pretensa técnica política que exige sacrifícios dos pobres em proveito dos abastados, para crescerem seus negócios e um dia os famintos poderem se alimentar de alguma sobra que caia de suas mesas.

Que Dilma esteja fazendo sua defesa neste momento é providencial. Sua vitória não está em barrar o golpe. Sua vitória consiste, nesta exasperada encruzilhada do Brasil, em não deixar morrer a “política da fé”, dos valores, da luta pela justiça, de impedir que seus novos algozes, que sangram sua alma ao invés do corpo, tenham a possibilidade de passar impávidos, como puros, como heróis aos olhos do Brasil. O sucesso de Dilma é desmascarar a farsa e deixar para os anais da história sua capacidade de empenhar a vida pela “política da fé” em um mundo mais justo, à esquerda.

sábado, 27 de agosto de 2016

O julgamento de Dilma está apenas começando

Fonte: Internet (NYT)

Enganam-se os impostores que tomaram de assalto o poder acerca do término do julgamento da presidenta legítima Dilma Rousseff nestes dias. A farsa do jogo jogado - que se arrasta desde aquele momento patético no qual uma facção criminosa de corruptos admitiu o início do processo na Câmara Federal -, não terá seu ponto final com o veredicto de um Senado que, com um perfil similar ao da Câmara, é composto, majoritariamente, por políticos da pior qualidade. Uma charge, atribuída ao The New York Times desta semana (que ilustra este post), retrata bem o julgamento políticoem curso. Num patíbulo, Dilma é cercada (e julgada) por um bando de ratos escrotos.

A narrativa do golpe já está consolidada no exterior. Inúmeras evidências (a principal delas, a ausência retumbante dos líderes mundiais nos eventos olímpicos) dão conta que a comunidade internacional não engole goela abaixo a história contada a fórceps pelos pseudovencedores do golpe: o parlamento, majoritariamente formado  por ratazanas e líderes partidários perversos; a mídia manipuladora, com suas emissoras platinas, revistas e jornais que transformaram jornalismo em espetáculo inquisitorial a serviço dos impostores; os empresários e banqueiros antinacionais, subservientes do capital global; segmentos judiciários e policiais capangas da casa grande e outros grupos da classe média que não abrem mão de privilégios e cuja ação política na sociedade é baseada, quase que exclusivamente, na  propagação do ódio, da violência e da vingança.

Acontece que a história não perdoa traidores, covardes e mamulengos. Por isso, é justamente de agora em diante que todos contarão a história do bando que violentou a democracia deste país. 

Ao derrubar sordidamente uma presidenta eleita, a coalizão golpista jogou no lixo a democracia, a Constituição e o estado de direito.

No futuro, próximo e distante, essa história se iniciará assim: em agosto de 2016, um senado formado por inúmeros corruptos, denunciados por falcatruas das mais escandalosas e presidido por um ministro do Supremo – que assistiu impávido a violação da Constituição -, impediu uma presidenta legítima do exercício do poder sufragado pelas urnas. Sem crime de responsabilidade, como determina a Constituição, o julgamento realizado por juízes corrompidos e sem moral alçou ao comando do país um governo ilegítimo, corrupto e sem voto. Aliado com os perdedores das eleições - movidos pela vingança e que sequer respeitam as regras procedimentais da democracia -, e sem nenhum vínculo efetivo com o povo, a Constituição e o estado de direito, o desgoverno criado artificial e oportunisticamente foi a prova cabal a confirmar que um golpe arruinou a frágil democracia brasileira.

Portanto, os atores e as coalizões que ardilosamente tramaram o golpe serão nomeados e registrados nos anais da história.

Mas, o ostracismo e a repugnância não serão castigos suficientes para punir os golpistas que, historicamente, sempre se articularam nesse país para pilharem o patrimônio público e impedir o avanço dos direitos do povo. 1954 e 1964, logo ali, mostram que os golpistas não têm pudor, nem temor. E fiam-se na impunidade perpétua.

A principal lição que devemos tirar deste episódio é que a impunidade em relação aos traidores e usurpadores, de ontem e de hoje, é o ingrediente a alimentar os golpes.

Assim, caberá a todos aqueles e aquelas que já se articulam na resistência democrática tratar de construir estratégias para o enfrentamento daquilo que até hoje o país não fez: um acerto de contas com o passado e com o presente; com os atores que sempre querem impor uma sociedade de perfil escravista, patrimonialista, machista, coronelista, elitista e violenta.

Há que se começar uma nova construção. Em nome da verdade, da memória e da justiça é preciso derrubar, de uma vez por todas, as estruturas da casa grande para se construir, de fato, uma nação onde imperará, com longevidade, a justiça e a igualdade, expurgando os vampiros sanguessugas da Nação. Chega de conciliação e de paz dos túmulos.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A festa acabou: das Olimpíadas e da Democracia


Fonte: Internet
Nos últimos catorze anos o Brasil viveu uma grande festa democrática. Inclusão social, eliminação da pobreza extrema, crescimento da economia, distribuição de renda, inúmeras conferências de políticas públicas, povo na rua protestando e reivindicando direitos. “Nunca antes na história desse país” se respirou tanta liberdade, participação, diversidade e múltiplas vozes e cores despontando de todos os cantos desse país. Era uma festa demasiadamente contagiante para os gostos de uma elite ranzinza e azeda, como dizia Darcy Ribeiro.

Os governos do PT, de Lula e Dilma, apesar das muitas desventuras, proporcionaram a maior e mais duradoura festa democrático-popular do Brasil.

Essa festa está no ocaso. Paradoxalmente, deu seus últimos acordes naquela celebração da diversidade cultural, quando do encerramento da grande confraternização universal por ocasião dos jogos olímpicos.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas foram um sucesso. É claro que o Brasil tem muitos problemas. Mas, alegria e confraternização estão na alma do nosso povo e é bom celebrar. E só um cego que não quer ver, um fundamentalista de má-fé ou um fascista não reconhecem os principais atores responsáveis por esses feitos: Lula e Dilma. O povo sabe do papel decisivo de ambos e não há quem furte essas páginas e seus autores dos registros da história.

Uma das poucas vezes, em mais de cinco séculos, o espírito de vira-latas do brasileiro foi superado e o país passou a ser respeitado e valorizado no concerto das nações.  E foi por causa desse respeito e reverência que Lula, como um hábil embaixador, conseguiu trazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas para o país.

É preciso dois registros aqui: o primeiro, um repúdio veemente à mídia nativa, pífia e antinacional, que o tempo todo, antes da Copa e das Olimpíadas, jogou o país pra baixo e desdenhou da potencialidade deste povo, sempre a destacar o lado ruim dos eventos e, como ave agourenta, a projetar a catástrofe e o vexame. A mídia, essa sim, tem espírito, corpo e alma de vira-lata. Melhor dizendo, tem espírito de porco. É um atraso para o país.

Depois, é preciso dizer em alto e bom som que foi um presidente nordestino, operário e pouco escolarizado que teve a coragem de acreditar na capacidade do seu povo de realizar os dois eventos. Nunca antes um mandatário das elites teve essa coragem. As elites, de um modo geral, não acreditam no país e em seu povo. Ao contrário, têm vergonha do Brasil.

Aliás, um bom retrato das elites no poder pode ser sintetizado na figura do atual chanceler, José Serra. Como um poodle diplomático, rosna para os vizinhos latino-americanos e abana o rabinho para os norte-americanos. Certamente, ele e o governo golpista são gratos aos amigos do Norte que treinaram Moro e a turma do MP na empreitada para acabar com o Brasil, suas empresas, suas instituições políticas e a nossa democracia.

Lula, como já nos referimos em outro post (aqui), sempre trabalhou com a possibilidade da conciliação entre os ricos e os pobres. E não dimensionou o rancor, o ódio, a cobiça e a perversidade das elites (econômicas, sociais, políticas, jurídicas, midiáticas, religiosas) dessa Terra de Santa Cruz. Essas elites, quando estavam ganhando muito nos tempos das vacas gordas, com a economia em ascensão, suportaram os pobres nos aviões, nos shoppings centers e nas universidades. Mas, o tempo da reconciliação de mentirinha foi-se embora quando uma crise econômica adveio e a coalizão golpista e rancorosa resolveu violentar até os mais elementares pilares da democracia, o eleitor e o voto, para tomar de assalto o poder.

Agora, os estrangeiros – que sabem do golpe no país, porque essa narrativa foi vencida pelos democratas daqui com a ajuda da mídia de acolá – voltam para suas plagas. E o Brasil, depois dessa primavera, viverá seus dias de rigoroso inverno.

Quando setembro vier, os líderes da coalizão golpista imporão a fórceps o plano que foi reprovado nas quatro últimas eleições. Sem nenhum vínculo com o povo, porque não foram eleitos, os golpistas não têm qualquer compromisso com a democracia, com a Constituição e o estado de direito. E, como não temos a quem recorrer - nesses tempos de judiciário partidarizado, além de historicamente seletivo e elitista -, fica a pergunta: como será o amanhã?

Ordem e progresso” foi o lema escolhido pelo interino. É o mesmo lema do grupo que criou, também à força, nossa república. Naquele 1889, os donos da Casa Grande, descontentes com o Imperador - que não aceitava mais ser preposto dos latifundiários e dos militares – articularam o golpe e, triste coincidência, o povo ficou sem entender o que acontecia.

Para dar ares de modernidade e superação do antigo regime, esse lema positivista, autoritário e conservador foi criado para disfarçar os verdadeiros interesses golpistas, de ontem e de hoje: opressão aos pobres e trabalhadores, criminalização dos movimentos sociais e a ação arbitrária para controlar e aniquilar os inimigos criados artificialmente.

Assim, nossa república, desde seu nascimento, foi “coisa pública” em pouquíssimos momentos; na maioria do tempo foi coisa de e para alguns. Desses mesmos que agora estão no poder via um golpe a ser sacramentado no senado, à la Catilina.

A política do mocinho e do bandido está de volta. O ministro da Justiça do governo golpista, o tucano Alexandre de Moraes, nesses últimos dias, não poupou críticas às políticas de segurança pública baseadas em inteligência, diagnóstico e estudos. Defendeu, na contramão da história e do conhecimento, que os gastos do setor devem ser alterados para priorizar a compra de equipamentos bélicos. O passado recente de Moraes, sua atitude de beligerância com estudantes e movimentos populares, deixa evidente que o governo golpista adotará a política de confronto e de contraposição de forças. Quanta arrogância pensar que a batalha política se vence com a força das armas.

A metodologia para sustentar um empreendimento que surge com tanta violência, hipocrisia e manipulação é o uso da velha estratégia do controle social, via ação policial. E é isso, muito provavelmente, que fará, em doses cavalares, o governo ilegítimo daqui pra frente.

A festa da democracia acabou. Resta-nos, altivos, a resistência democrática.



sábado, 20 de agosto de 2016

Por que não comemoro o ouro da seleção masculina de futebol?


O Brasil é um país maravilhoso. Um povo bom. Uma cultura riquíssima. Muitos valores culturais e humanos. Porém, tem uma elite perversa. 

O futebol - uma "paixão nacional” - há algum tempo foi furtado pelos segmentos piores da nossa sociedade: a cbf, a globo, os patrocinadores, os jogadores milionários, os endinheirados. Tudo sendo transformado em mercadoria; puro consumo. 

Ouvir Galvão e Ronaldo falar na INSTITUIÇÃO SELEÇÃO BRASILEIRA me dá nojo... Me desculpem a franqueza.

E a paixão de uma nação passou a ser de e para poucos, nas arenas espetaculosas - desde a Copa - e nos canais fechados de TV. Quem estava torcendo, no velho Maraca, nessas Olimpíadas? Os brancos, ricos e poderosos que podem comprar ingressos caros; eventos para um público de elite. 

Em 1950, quando a seleção perdeu o final da Copa, era o povo que lotava o Maracanã. E o povo chorou... As fotos que registraram aquele momento mostram as múltiplas faces dos muitos brasis naquela ocasião... E agora? Quem estava lá?

A vitória do Brasil poderá ser usada como lenitivo para manipular o povo em tempos de governo golpista. Como em tempos pretéritos, exibirá para o mundo que tudo está bem no país. Os manipuladores de sempre, os globais e outros tantos, conhecem muito bem a arte de usar o futebol para tamponar os problemas nacionais.


Mas, nada está bem. Tudo está muito mal. Vencemos o desafio de organizar uma Olimpíada. Estamos perdendo, e feio, o jogo da Democracia. Um bando da pior qualidade tomou de assalto o poder e imprimirá mais sofrimento e dor ao povo deste país. 

Nas redes sociais o interino, de imediato, quis faturar. A reação popular foi imediata. Chega de tanta usurpação!

Espero que a vitória da seleção não sufoque uma insatisfação generalizada que toma conta do país. Inclusive que haja reação contra essa estrutura perversa de se apropriar das belas criações da nossa cultura popular, como o futebol, e transformá-las em produtos  para poucos.

Viva o povo brasileiro. Torço para o Brasil. Mas, para um Brasil de e para todos os brasileiros e as brasileiras. 

E não comemoro o ouro da seleção de futebol da cbf, porque acho que esse escrete não representa o espírito da nossa Nação.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O que temer em Temer?


Chargista Casso - Imagem da Internet

É ingênuo pensar que Temer é o grande articulador e tem sob controle a empreitada golpista. Muito pelo contrário, a personalidade cambiante do interino é, ao mesmo tempo, o grande perigo para a democracia e a maior vantagem para a coalizão usurpadora. Não poderia haver um político mais “perfeito” para servir como preposto dos verdadeiros donos do poder e mentores do golpe.  

Explico. A coalizão golpista, como já refletimos várias vezes, é formada pelos segmentos historicamente comprometidos com um modelo de país que garante a cidadania para apenas 25% da população. São os coronéis da velha política (liderados por figuras como Aécio, FHC, Cunha, Renan e os líderes da bancada BBB – boi, bíblia e bala), os empresários com mentalidade colonial, a mídia manipuladora e a serviço do capitalismo internacional e amplos segmentos autoritários, elitistas e altamente conservadores do judiciário, ministério público (e outros grupos jurídicos) e da classe média saudosa dos privilégios da casa grande.

Essa coalizão tem apoio internacional, pois é fundamental para o modelo capitalista manter países do porte do Brasil como colônias extrativistas. Por isso, as disputas em torno do pré-sal, da biodiversidade e da água doce. E um chanceler como Serra é como mel na chupeta para servir aos interesses alienígenas.

É neste contexto que devemos analisar a figura do interino. Sua maior qualidade para os mentores e executores do golpe é justamente sua grande fraqueza. Temer não tem o mínimo controle do governo; está nas mãos de figuras como Cunha, Padilha, Jucá, os caciques tucanos, coronéis do PMDB, banqueiros e empresários sanguessugas. É incapaz de gerenciar uma coalizão com tanto apetite e sanha em destruir o pouco que foi conquistado pelo povo desde a Constituição Federal de 1988. 

Guardadas as devidas proporções, o interino é uma espécie de mamulengo, um boneco que faz a mediação entre o povo, que deve ser distraído (porque ainda não sentiu no bolso os efeitos das medidas do governo de plantão) enquanto os operadores do golpe colocam em ação o projeto de governo e de país que tomou bomba nas quatro últimas eleições. Às favas a democracia!

Assim como os militares cumpriram o papel de “testa de ferro”, durante os 21 anos da ditadura, Temer, agora, exerce a função de excelente preposto das mesmas elites antidemocráticas deste país, de ontem e de hoje. Com uma vantagem: assunto ao poder por vias tortuosamente legais, com a anuência suprema (como também ocorreu durante a ditadura), Temer dá ares de legalidade a todo o processo golpista.

Por outro lado, é justamente essa fraqueza que torna o governo até agora interino muito perigoso à democracia. Um governante fraco e cambiante é facilmente controlado; é prontamente convencido, pelos verdadeiros dono do poder, a tomar medidas autoritárias e perversas, em nome da “lei e da ordem” (essa invenção dos ricos e poderosos incrustados nos parlamentos e no judiciário para oprimir, reprimir e controlar o povo). Alexandre de Moraes que o diga...

Quando exigimos a volta de Dilma não estamos desconsiderando esse cenário complexo no qual a correlação de forças, no momento, favorece o grupo que tomou de assalto o poder. O retorno de Dilma é condição para que não aconteça uma ruptura democrática. Mas, mesmo que a presidenta legítima retome seu mandato, uma utopia, não nos enganemos acerca da colossal capacidade de pauta e de veto da coalizão golpista.

Aliás, desde a metade do segundo mandato de Dilma, a presidenta já vinha cedendo ao grupo golpista, que se robusteceu a partir das jornadas de junho de 2013 e consolidou-se nas eleições de 2014.  Diferentemente dos políticos tradicionais, Dilma, num determinado momento, deu um “basta” ao grupo que impunha um caráter conservador ao seu governo. Desde então, foi vítima de chantagem e, posteriormente, do impeachment fajuto; essa invenção mal-ajambrada que os usurpadores articularam para arrombar nossa democracia.

No momento atual, enquanto os olhos do mundo estão voltados para o Brasil por causa das Olimpíadas, os líderes da coalizão no poder agem para manter certa aparência de normalidade. Não perceberam, por exemplo, que já perderam a narrativa internacional acerca do golpe. Como têm como sócios estratégicos os donos da mídia, creem que poderão tamponar todas as formas de resistência. Afinal, quando não há pudor nem temor, a barbárie humana não tem limites. A história é repleta de exemplos...

Mas, não tenhamos dúvida: sacramentado o golpe, quando setembro vier, a política dos fins que justificam os meios estrará em campo com todo o vigor para o deleite dos grupos que historicamente sempre trataram este país e seu povo como seus serviçais.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Cícero, Catilina e os traidores do senado brasileiro


Voltemos à Roma antiga. Estamos no ano de 63 a.C. Marcus Tullius Cicero, considerado o maior filósofo romano, tinha o cargo de cônsul, posto mais importante do Senado. Na ocasião, ele descobriu que um de seus colegas, o senador Lucius Sergius Catilina, organizava uma conspiração para assassiná-lo. O mentor do complô era um nobre arruinado por dívidas. Como sempre ocorre nas rodas do poder e da corrupção, Catilina contava com o apoio de outros homens ricos, brancos e militares que também tinham problemas financeiros e se articulavam  um golpe contra a República.

Ao ser informado dos planos de Catilina, Cícero convocou uma reunião do Senado e proferiu uma série de quatro discursos, que ficariam conhecidos como Catilinárias.

As Catilinárias são um exemplo de correção no exercício do poder público, dado que os discursos de Cícero passaram a ser referenciados sempre que um homem público atenta contra o interesse geral de uma Nação.

Nessa história do Senado romano, Cícero conseguiu sufocar a revolta de Catilina, postergando alguns anos a existência da República, que foi arruinada quando Júlio César invadiu a península itálica, em 49 a.C.

Infelizmente, não temos no Brasil um senador, com "S" maiúsculo, da estatura de Cícero. Mas, temos muitos que são iguais ou piores que Catilina. Para defenderem seus interesses e de seus mentores (os donos do dinheiro); para salvarem suas peles a qualquer custo (porque estão enlameados na corrupção); para manterem seus discursos hipócritas de moralistas sem moral, os catilinas do senado brasileiro crucificarão uma inocente e, com ela, a república e a democracia.

CÍCERO, SENADOR DA ROMA ANTIGA, DÁ UMA LIÇÃO DE DIGNIDADE PARA OS SENADORES QUE ABRIRAM O PROCESSO DE IMPEACHMENT CONTRA DILMA.

Como uma manada sem rumo e sem razão, crentes que estão acima das leis e do julgamento dos brasileiros e do mundo, os catilinas daqui estão com os ouvidos fechados a quaisquer argumentos a comprovarem a parcialidade, o oportunismo e a perversão de um julgamento sem base constitucional. Talvez, nem se tivéssemos no senado um político da estatura de Cícero se reverteria esse espetáculo de violência à democracia.

Ontem, as páginas da história brasileira foram, mais uma vez, borradas com o que há de pior nessa república: além do espetáculo patético no senado, quando ouvimos Aécio defendendo a democracia e outros tucanos e peemedebistas falando em respeito às leis, tivemos a absolvição pelo STF de Russomano e a confirmação, pelo PSC, da permanência de Feliciano na liderança daquele “partido”. Agora, só falta a Câmara Federal salvar Cunha, com o apoio explícito de Temer. A podridão e a degradação dos três poderes denuncia a decadência da república. O nojo e o asco que sinto em relação aos membros das nossas instituições republicanas faz com que meu estômago fale mais alto que meu cérebro. E isso não é bom...

Mas, voltemos ao senado. A história dos catilinas daqui será contada agora e sempre. Assim como os heróis são lembrados pelos seus exemplos, os políticos e magistrados pífios também entram nos rodapés das páginas da história para que recordemos que a desfaçatez, a desonra, a mesquinhez e outros vícios são os atributos dos traidores, dos hipócritas e daqueles que não merecem um pingo de respeito e consideração.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

No concerto das nações, o golpe foi explicitado


Foto: Mark Humphrey/ AP

O fato político mais relevante desses últimos dias não foi a revelação das propinas recebidas pelo interino e seu ministro das relações exteriores. Apesar do desdém da mídia nativa - manipuladora e venal -, o acontecimento mais importante, repleto de sentidos e significados, ocorreu na abertura dos jogos olímpicos, na última sexta-feira (05/08). Aos olhos do mundo, o golpe apareceu retumbante não nas vaias ao interino, mas na absoluta ausência de chefes de estado e de governo na cerimônia, no Maracanã (veja  também, aqui).

A disputa pela narrativa do golpe foi abafada violentamente no país. A coalização golpista - envolvendo líderes políticos, o Parlamento, a mídia, parte do empresariado, do judiciário e dos setores retrógrados da classe média - tentou a todo o custo impedir que os brasileiros percebessem o golpe à democracia, travestido no processo de impedimento de Dilma Rousseff. Pesquisas de opinião já comprovavam, na semana anterior, que o povo não engoliu o engodo. A rejeição ao governo de plantão é colossal.

Mas, a prova dos nove seria a recepção da comunidade internacional ao governo interino. Apesar dos esforços do Itamaraty em relativizar a possível ausência de líderes, muitos sinais externos já evidenciavam a rejeição dos democratas de todos os países a Temer e seu gabinete.

Mas, a reportagem do jornalista Jamil Chade do Estadão (aqui caiu como um torpedo na cabeça dos golpistas. O repórter, único a adentrar na área reservada às autoridades internacionais, constatou a derrota colossal, vergonhosa, estupenda do interino, seu chanceler e seu governo. Somente 18 chefes de estado presentes. Alguns, como Hollande, vieram para cumprir protocolo, porque a França tem interesse em sediar os jogos olímpicos no futuro. Outros, porque são membros do Comitê Olímpico Internacional. Os poucos presentes eram de países sem relevância no concerto das Nações. A ausência dos líderes dos BRICS, por exemplo, deixa claro o estrago que um golpe provoca nas relações internacionais. Da América Latina, nossos vizinhos, somente o argentino Macri, cujo governo retrógrado, conservador, autoritário e entreguista comunga com a turma do governo de plantão no país.

E como se não bastasse tamanho desdém da comunidade internacional, os poucos líderes presentes evitaram se encontrar com Temer. E mais: para a humilhação final e apoteótica, como um tiro de misericórdia, autoridades convidadas a ocuparem a área reservada ao presidente interino recusaram a “honraria”. Segundo o jornalista que descreveu a constrangedora cena, “o governo brasileiro tentou convidar os poucos líderes a ficar no principal camarote, ao lado de Michel Temer, presidente interino. Sem sucesso, o local foi preenchido por diversos ministros do governo e autoridades municipais e do governo do estado. Antes mesmo de terminar o evento e logo depois do desfile da delegação da França, o presidente François Hollande deixou o Maracanã, à francesa”. 

Hollande saindo à francesa. Um tapa na cara seria menos dolorido...

A foto do interino na abertura, solitário e desconcertado, sendo ladeado pelos amigos da empreitada golpista, mostrava o isolamento do governante de plantão...

Esse acontecimento, ignorado pela emissora oficial do golpe e pela mídia nativa e que só foi revelado pela reportagem do Estadão, por incrível que pareça, não deixa nenhuma dúvida. Os democratas que estão lutando em prol da democracia no país ganharam a narrativa acerca do golpe. Independentemente do resultado da votação do impeachment pelo Senado - o jogo jogado de políticos interesseiros que envergonham qualquer Nação -, a posteridade saberá o que ocorreu neste país quando uma turba tomou de assalto o poder, à revelia da deliberação popular.


Os apoiadores da sociedade democrática – que se baseia na prevalência da vontade expressa das maiorias – conseguiram sufocar aos olhos do mundo o golpe imposto por um grupo que a todo custo tenta solapar a democracia. Na disputa sobre quem serão os verdadeiros autores da História, o round internacional, ocorrido na abertura das olimpíadas, foi vencido por nocaute pelos defensores da democracia.